Repórter Guaibense

Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

Colunas/Geral

Em busca de um Teatro de fato

Uma trajetória de arte, generosidade e resistência

Em busca de um Teatro de fato
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A viagem pelo universo dos trabalhadores da Cultura aqui da nossa cidade chega ao Ponto de Cultura Espaço Livre Biguá e a gente desembarca do Drone Cultural para um bate-papo mais que especial com uma dupla de ativistas culturais muito relevantes no contexto guaibense. 

Estou falando da Andréia Alencar e do Araxane Jardim. A Déia e o Ara do Teatro de Fato e do Biguá. 

Se você ainda não conhece esses dois, não precisa se preocupar.  

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Nessa conversa você vai conhecer boa parte da trajetória dos organizadores de alguns dos projetos de maior relevância no nosso contexto cultural. 

Com o projeto Teatro de Fato já são mais de dez anos disponibilizando, de forma gratuita, cursos com as técnicas do Teatro do Oprimido, oferecidos em parceria com a Secretaria de Turismo, Desporto e Cultura. 

Com o Ponto de Cultura Espaço Livre Biguá, eles vêm construindo (literalmente) há cinco anos um dos espaços mais potentes de nossa cidade. 

Portanto, te ajeita na poltrona e me acompanha nessa boa conversa. 

Abram alas que o povo do Biguá vai passar! 

______________________ 

DRONE CULTURAL - Primeiramente muito obrigado por aceitarem participar dessa série de entrevistas que visa, mais do que tudo, aproximar pessoas e projetos. 

Vocês dois são praticamente figuras indivisíveis aqui em nossa cidade. São uma verdadeira dupla dinâmica que move uma galera em torno de um ideal e de uma estética bastante específicos. 

Nessa entrevista vamos ressaltar os aspectos coletivos da construção do trabalho de vocês, mas também quero escutar um pouco sobre a Déia e o Ara.  

Contem-nos um pouco sobre a trajetória de vocês. Como a Arte e especificamente o Teatro entrou na vida de vocês? 

ARAXANE  Na época da escola Augusto Meyer sempre que tinha que encenar, gostava de escrever a dramaturgia e montar as peças. Pós-escola, me aproximei através de oficinas de teatro em Porto Alegre. Iniciei fazendo esquetes e intervenções na rua em seguida, fiz parte de um grupo de Canoas e mais tarde em Porto Alegre, neste tempo, participei de um curso ministrado por Augusto Boal. Atualmente, além da Comparsaria das Façanhas, faço parte do Grupo Povo da Rua de Porto Alegre. Todos esses trabalhavam com a linguagem do teatro de rua.  

ANDREIA – O Teatro entrou na minha vida desde pequena, minha irmã já fazia teatro, tenho referências de manifestações culturais populares oriundas do Nordeste, meus pais são nordestinos, então me lembro dessas manifestações presentes na minha infância. Antes do teatro me dedicava à dança, porém a minha vida foi tomando outros rumos e o teatro ficou cada vez mais próximo. Quando cheguei em Porto Alegre, conheci o Ói Nóis Aqui Traveis, uma referência de teatro popular, sempre gostei de Teatro Popular. Me chamava muito atenção na forma que o grupo trabalhava, priorizando o processo artístico coletivo. 

DC – O que é Teatro? 

ARAXANE – É A ARTE DE VER O OUTRO E VER A SI MESMO SE COLOCANDO EM CENA.  

ANDREIA – TEATRO É A REINVENÇÃO DA VIDA, ONDE PODEMOS NOS DESCOBRIR, NOS TRANSFORMAR E PODER TRANSFORMAR O MUNDO. 

DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração?  

ANDREIA – Nosso trabalho geralmente segue na linha principalmente de teatrólogos como: Augusto Boal, Grotowiski, Stanislavski, Brecht, e Artaud entre outros.  Também nos inspiramos em fatos reais e observação do cotidiano e a natureza em todas as suas manifestações, além da diversidade cultural. 

DC – Do ponto de vista do fazer teatral, desde a pesquisa até prática, na opinião de vocês qual é o maior desafio?  

ARAXANE – Muitos são os desafios com certeza a parte econômica é um dos maiores, mas há ainda na busca de um coletivo, também a circulação e maior valorização do trabalho. Nem sempre o trabalho é valorizado como deveria ser. 

DC – A gente vai falar um pouco mais detalhadamente sobre o Teatro de Fato, esse magnifico projeto que aborda as técnicas do mestre Augusto Boal relacionadas ao Teatro do Oprimido. 

Podem nos falar um pouco sobre o projeto em si? Quanto tempo vocês já executam aqui em Guaíba? Possuem alguma estimativa de pessoas que já passaram pelo curso ao logo desses anos todos? Como é feita a seleção? 

ARAXANE – O projeto Teatro de Fato é um curso de teatro do oprimido que iniciou em 2010, motivado pela formação de Augusto Boal que fiz em 1999 e o Centro do teatro do Oprimido do Rio de Janeiro (CTO-RJ) em 2006. Antes do Teatro de Fato, ministrávamos oficinas de teatro na Escola Aglae Kehl pelo Projeto Escola Aberta. Lá se formou o grupo Patota Bacana, que teve as primeiras experiências em Teatro Fórum, este grupo durou três anos.

Nesse tempo viajamos com as peças, participamos de feiras do livro, encontros de Teatro do Oprimido, fizemos apresentações em diversos espaços como escolas, teatros e eventos. Ainda o trabalho do grupo resultou em um vídeo o qual foi premiado como voto popular no Festival de vídeos da Casa de Cultura Mário Quintana. O trabalho recebeu uma publicação na Revista Exp (Famecos-PUCRS). 

O Teatro de Fato nasceu com a vontade de expandir e multiplicar este método, então juntamente com a ONG Semente Solidária realizamos o projeto em 2010 e apresentamos para Secretaria de Cultura que foi aprovado e, desde então, esta parceria se manteve. O Teatro de Fato é um curso gratuito que há 10 anos vem sendo realizado em Guaíba, que passa pela metodologia do teatrólogo Augusto Boal trabalhando além das técnicas teatrais, as questões sociais. Durante este tempo já passaram aproximadamente 600 pessoas pelo curso. O projeto recebeu pessoas tanto de Guaíba e seu entorno quanto pessoas do interior do estado e no ano de 2018 o curso ultrapassou as fronteiras do RS.

O curso possui um número de vagas limitadas, geralmente 50 pessoas (número bom para o trabalho do teatro do oprimido). A inscrição passa por um processo de seleção, que conta com uma carta de intenção, idade mínima de 16 anos completos até o dia do início do curso, com ou sem experiência na área teatral e disponibilidade de tempo, pois o curso tem quatro meses de duração.  Buscamos deixar o mais diversificado possível entre as idades e experiências e quando ultrapassa muito o número de limite, é feito uma lista de suplentes que serão chamados se caso alguém desistir até a segunda aula. Geralmente conseguimos incluir quase todos os inscritos. 

DC – É um processo muito bonito e complexo. Desde a primeira aula até o trabalho de conclusão do curso uma relação de confiança é criada e o resultado é sempre emocionante.  

Como funciona o processo criativo, por onde começa? Como vocês se organizam? 

ANDREIA – O curso é dividido em módulos (jogos, estética, montagem e cena para Teatro Fórum). Primeiramente expressamos a metodologia e o objetivo do Teatro do Oprimido, da importância do papel do Augusto Boal.   

Partimos para a prática através dos jogos para atores e não atores em função da des-mecanização dos corpos e integração do grupo (Nesse processo incluímos a técnica do Teatro Imagem).  

No segundo momento a estética do oprimido, que está organizada em três eixos:  

Palavra – relatos de fatos escritos, dramaturgia coletiva, letra de música, poesia entre outros.  

Imagem – expressão do corpo, fotografia da peça, cenografia, figurinos e confecção dos símbolos do grupo.  

Som – trilha sonora e sonoplastia para a peça e a composição de uma música do grupo.  

Nesse processo os oficinandos experimentam também técnicas de Teatro jornal.  

A montagem passa pela improvisação, pesquisa, laboratório, compondo todos os elementos de cena.  

O roteiro surge com as escolhas de temas que os próprios alunos querem levar para discussão no palco, em seguida é improvisado, redigido e transformado em Teatro Fórum (Método onde há intervenção da plateia).  

O curso é concluído com a apresentação na Mostra de cena para Teatro Fórum que se realiza em Guaíba e Porto Alegre. 

DC – Quais são as principais dificuldades presentes nesse processo de construção coletiva? 

ARAXANE – Uma das maiores dificuldades é realizar todo o processo num período curto de tempo.  Outra é transporte do material tanto para as apresentações quanto para os ensaios (cenário, instrumentos, etc.), pois não possuímos automóvel. 

DC – Podem nos contar alguma história marcante que tenha ocorrido durante algum dos processos? Cada um pode trazer algo do fundo da memória, por favor. 

ANDREIA – Um dos momentos que me marcou muito durante uma década de Teatro do oprimido, é que havia um menino especial que frequentava o curso e este menino tinha dificuldade em dar o texto devido o problema de gagueira que possuía, e ele ainda ficava nervoso, o que não ajudava muito.  

Contudo, no dia da apresentação ele nos surpreendeu cantando uma música inteira da peça sem gaguejar, sua voz fluindo. A superação dele me marcou muito. A plateia vibrava, os atores estavam emocionados. Foi uma energia maravilhosa.  

ARAXANE – Entre tantos, dois momentos me marcaram. Lembro que os alunos fizeram uma homenagem com cesta de produtos naturais e fizeram um caderno com depoimentos, pensamentos, poesias expressando os sentimentos em relação a nós. Foi muita gratidão, recebemos esta homenagem em pleno término de espetáculo. Fiquei muito emocionado. Este ano foi o maior número de alunos e público que obtivemos em Guaíba.   

O outro foi vendo o público chorando de emoção durante a cena apresentada. Aquele ano o tema era referente a opressão feminina. 

DC – O que o Teatro acrescentou na vida de vocês? 

ARAXANE – A forma de ver o mundo ampliado, as vivencias e sensações que ele possibilita e seus aprendizados, a integração social.  

ANDREIA – Ressignificou muito a minha vida. Através do teatro tive oportunidade de vivenciar experiências, conhecer realidades, a enfrentar meus fantasmas, superar meus limites, a ser mais sensível. Me possibilitou a parar de olhar somente para meu umbigo e enxergar a realidade que me cerca. 

DC – Que tipo de aspecto da vida tu acha que deve exclusivamente a Arte e ao fazer teatral? 

ARAXANE – Se não fosse o teatro eu não conseguiria expressar com tanta força as minhas ideias que tento compartilhar.  

ANDREIA – Se não fosse o teatro eu não conseguiria levar a verdade de uma forma criativa para que as pessoas pudessem refletir. 

DC – Vocês, ao lado dos filhos, formam uma família muito cultural e interessante. Percebo os filhos sempre super envolvidos com as coisas de vocês.  

Contem-nos um pouco sobre como é essa construção em família. Como eles encaram essa aventura que é o fazer teatral? Falem também um pouco sobre a participação deles em seus trabalhos. 

ANDREIA – O teatro sempre esteve muito presente na nossa vida mesmo antes de criar o grupo. O fazer teatral para criança sempre é muito divertido, eles se envolvem muito querem participar, tudo é uma brincadeira. Acredito que o envolvimento veio através dessa brincadeira, nos divertíamos muito criando as cenas, dançando, elaborando cenário com sucatas e jogos teatrais.   

Desde pequenos sempre nos acompanharam, em oficinas, apresentações, montagens e viviam no meio artístico cultural. Wirá já se apresentava quando estava na minha barriga, Loren participou da primeira peça aos 6 anos, ela sempre gostou da prática e de se apresentar. Ela participou de vários espetáculos, já o Wirá veio substituir a Loren no Lar Doce Lar por interesse dele, gostava muito de dirigir.  

Atualmente ambos não estão envolvidos diretamente com o teatro, mas participam e contribuem com as produções e projetos da Comparsaria.  

E agora uma nova geração que chega: o Nicollas, neto de 7 anos que mora com a gente.  Ele brinca o tempo todo de teatro, está sempre confeccionando adereços de sucata e dizendo que serve para o teatro. Nesse último projeto de oficinas on-line participou de algumas aulas, mas nos acompanhou nas gravações em todas. 

DC – Você pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória artística, que tenha te emocionado além do "normal"?  

ARAXANE – Um dos momentos que fiquei emocionado foi quando estávamos apresentando em Porto Alegre um espetáculo de rua no Largo Glênio Peres e durante o espetáculo veio uma chuva forte, não sabíamos se parávamos, mas percebemos que o público não arredou o pé, nos mantivemos em cena. Alguns se amontoaram sobre guarda chuvas, outros se abrigaram embaixo de blusas e mochilas, por fim acabamos molhados e aplaudidos. Nunca me esqueço.  

ANDREIA – Me recordo de um evento que participamos com uma performance que retratava o processo da industrialização do cigarro (desde o plantio até o consumo e seus efeitos nefastos). Este evento tinha o patrocínio de empresas de bebidas alcoólicas e cigarros, (risos) estávamos um pouco receosos, mas nos divertimos fazendo.  

Após a apresentação percebemos que o público que estava assistindo a peça não fumou e nem bebeu mais no evento (risos). 

DC – Falando em emoção: para ti, o que é estar em cena?  

ANDREIA – Estar em cena é uma sensação de empoderamento, de poder nos expressar sem medo de ser ridículos.   

ARAXANE – É agir ao mesmo tempo que observa a reação do público, é desafiar o senso comum. É um enfrentamento pessoal de exercer um papel muito importante para a humanidade. É estar vivo em êxtase ao mesmo tempo consciente. 

DC – E o que é colocar um espetáculo em cena? 

ANDREIA – Colocar um espetáculo é expressar um sentimento é denunciar o que muitas vezes está invisível ao público, é expressar no corpo e na poesia o pensamento, é representar de forma criativa a realidade desconcertando quem o assiste, através do riso ou da lágrima. 

DC – Como é esse olhar de bastidor depois que o espetáculo começa?   

Eu acabo sempre envolvido com alguma parte técnica e fico muito tenso. Mesmo depois de muito ensaio e com tudo correndo dentro do planejado, eu só vou aproveitar um pouco mais lá pela quinta apresentação. 

O que passa na cabeça de vocês enquanto assistem o espetáculo em andamento? 

ANDREIA – Dá friozinho na barriga, torcendo para que tudo dê certo. Me preocupo como os atores estão se sentindo. De vez em quando vou pra atrás das cortinas ver se precisam de alguma coisa.   

ARAXANE – É de observador, de como ele está transmitindo o que se pretende na forma que está se executando. 

Como ele pode melhorar a cada detalhe inserido, algo que impacte sutilmente o público e de que forma o elenco sente e se joga no clima que tem as histórias. 

DC – Tem algum ritual que vocês executam antes de entrar em cena? Como é a rotina em dia de espetáculo? Muda algo em dia de estreia?   

ANDREIA – Sim, seguindo de exercício de energia, nos colocamos em círculos, hora abraçados, hora de mãos dadas, em silencio, olhando um para o outro, nos conectando, respirando. Após, este momento, palavras de motivação, também agradecemos uns aos outros pelo trabalho feito. E por fim, palavra de boa sorte “MERDA”. Sobre a rotina, não pensamos em outra coisa, tanto na estreia quanto no dia do espetáculo. Às vezes não conseguimos nem comer, não dá nem fome, tentamos aproveitar o máximo de tempo para deixar tudo pronto e não esquecer nada.   

DC – Por mais que nos preparemos, as saias justas estão sempre presentes. No meio de tantas coisas lindas que já aconteceram ao longo da experiência de vocês, qual foi o maior perrengue que vocês já passaram em cena? 

ARAXANE – Tem um monte:  

Uma vez um dos atores esqueceu o texto, começou a falar um monte de texto que não existia. E fugiu de cena, tivemos que buscar ele de volta e retornar de onde paramos.  O público ficou sem entender nada.  

Num outro espetáculo, um dos atores que tinha que montar uma estrutura de repente cruzou os braços em cena e não arredou o pé da onde estava. Tivemos que fazer tudo em tempo recorde sozinhos.   

E em outro, uma das atrizes ficou furiosa com um erro do grupo que do nada começou a xingar feio em plena cena (risos). São alguma pirações que pode acontecer em espetáculos de rua (risos). 

DC – Agora vamos para mais um assunto muito interessante e relevante para o nosso contexto local. O Ponto de Cultura Espaço Livre Biguá, ou simplesmente Biguá, já citado anteriormente, é uma das iniciativas com maior potencial de transformação para o ambiente cultural de nossa cidade. 

Gostaria de me aprofundar um pouco mais nesse assunto. Contem-nos um pouquinho sobre a formação desse projeto tão importante para a cidade que chegou, nesse ano, ao seu aniversário de 5 anos.  

De onde surgiu a ideia, qual é a origem desse nome tão característico e como essa história está sendo construída? 

ANDREIA – A ideia do Biguá surgiu de a necessidade do grupo ter um espaço físico para trabalhar. Guaíba, carece muito nesse aspecto, durante nossa trajetória já ensaiamos em diferentes espaços, mas nenhum apropriado.  

Os pais do Ara nos cederam uma casa de madeira velha para guardarmos os nossos cenários, porém a casa estava em péssimas condições.  

Precisávamos reconstruí-la. Com o apoio do grupo de Teatro de fato daquele ano iniciamos uma campanha a construção do novo espaço.  

No início era para ser apenas um espaço para o grupo ensaiar e guardar os materiais, porém, durante a campanha percebemos o envolvimento de muitas pessoas e a importância do espaço ser um espaço público de diversidade cultural.  

Nesse processo realizamos muitos mutirões e atividades culturais. Sobre ser bioconstruído, a Comparsaria tem um propósito de fomentar também práticas ecológicas, e queríamos muito que o espaço fosse construído de forma coletiva e ecológica através do reaproveitamento de materiais de construção e da própria natureza, criando um espaço em harmonia com a natureza. Queríamos um nome que fizesse referência à Guaíba, com o lago, mas não que fosse “Guaíba” aí lembrei do pássaro que vive no lago, O Biguá que é uma ave coletiva, eficaz nas suas pescas, traçam estratégias e também é um dos símbolos de Guaíba.  

Porém ainda faltava algo.  

Pensamos em ESPAÇO LIVRE, livre para todas as expressões artísticas e culturais, ecológicas.  

O espaço recebeu a certificação de ponto de cultura pelo governo de Estado. 

DC – Esse com certeza é um dos momentos mais confusos que a classe artística já enfrentou. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, deixou nossas atividades suspensas.  

A necessidade de nos reinventarmos é inerente ao nosso ofício teatral, porém, dessa vez, o andamento das coisas nos impôs a obrigação de tentar nos reinventarmos também de forma virtual. 

O Espaço Livre Biguá estava a todo vapor e em meio a sua programação de oficinas. Com todas as adequadas restrições, inevitavelmente, vocês foram obrigados a alterar todo o cronograma e plano de execução do projeto. Com a reorganização das atividades vocês conseguiram cumprir o cronograma, mas não tiveram como abrir outras atividades. 

Contem-nos como foi esse momento de adaptação. Qual foi a principal dificuldade encontrada e quais pontos mais surpreenderam positivamente a vocês? 

ARAXANE – No primeiro momento ficamos assustados: “Como vamos dar oficinas de teatro ou dança de forma virtual?”. Mas, aos poucos, fomos tendo ideias e nos adaptando.Os oficineiros também se dedicaram muito. Tivemos que reformular as oficinas e pensar uma forma de ser também atrativa, pois seria mais teórica. Foi a primeira vez que fizemos assim, transmissão de forma virtual.  

Contudo, com a ajuda dos oficineiros da área do audiovisual, tivemos auxílio para executar e deu tudo certo. Procuramos melhorar a linguagem em frente e atrás das câmeras.  A maior dificuldade foi resumir as aulas em 30 minutos cada vídeo, e também alcançar um público frequente. O ponto positivo é que a forma virtual proporciona que pessoas de diferentes lugares possam acessar em tempo real ou não os cursos. 

DC – Do ponto de vista dessa construção coletiva, qual é o balanço desse ciclo de oficinas que passou bravamente pelo momento mais complicado dessa Pandemia?  

ARAXANE – De alguma forma conseguimos fazer uma interação com alguém, já que de forma presencial não era possível. E também agora temos um material produzido, registrado que pode servir para trabalhos futuros, tanto para nós quanto para outros pesquisadores. 

DC – Ainda aproveitando um pouco mais a temática da Pandemia, na opinião de vocês, qual é o papel da Arte nesse momento? 

ANDREIA – Nesse momento a arte é muito importante, como forma de não nos sentirmos tão sozinhos nesse isolamento, de melhorar o estado emocional, também fruição e valorização do artista, dar brilho e cor. Atingir pessoas fora do nosso círculo. Mover as esperanças em outras possibilidades de caminho. 

DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade?  

ARAXANE – Emoção que traga esperança, mais amor, afetividade, solidariedade, empatia, recriando possibilidades para cada um de nós. 

DC – Em meio a isso tudo, uma boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação de recursos através da LEI ALDIR BLANC. 

Esse dinheiro que só pode ser investido no setor cultural, virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade. 

Como vocês veem a importância dessa lei nesse momento e qual é a expectativa atual com relação a isso? 

ANDREIA – Todos sabem que a classe mais afetada nessa pandemia foi a nossa, que não trabalha de forma isolada, necessita do público e do coletivo. Nesse aspecto a lei serve para nos aliviar. Pois a primeira pergunta foi: como vamos sobreviver? Espaços fechados, sem circulação dos trabalhos, sem produção. Sem falar, que no Brasil a cultura não é vista como prioridade.  A lei veio através da luta da classe artística e fazedores de cultura em conjunto. 

ARAXANE – Acreditamos que além de superar as necessidades de muitos artistas por um determinado tempo, também será abertura para implementações de novas políticas culturais e, ainda, a urgência de perceber a importância da cultura, principalmente em momento de crise. 

DC – Quais sonhos vocês alimentam para o futuro artístico/profissional/comunitário? 

ARAXANE – Que a comunidade usufrua do espaço e consiga construir uma nova forma de relação. Que este espaço seja porta para muitos caminhos de pessoas, que seja um espaço de transformação social e que consigamos colocar em prática outros projetos, como a biblioteca comunitária, rádio comunitária envolvendo outras esferas culturais, artísticas e ambientais. 

DC – Adoro essa pergunta: 

Tem algum personagem que vocês gostariam de interpretar? E, caso vocês tivessem recursos suficientes, qual tipo de texto/espetáculo vocês gostariam de montar? Nos sonhos mais malucos, por onde imaginação viaja? 

ANDREIA – Tenho muita vontade de trabalhar com bonecos, estudar esta linha de teatro que mexe tanto com o imaginário de adultos e crianças. Seja bonecos gigantes, bonecos de vara ou até mesmo caixas lambe –lambe, os teatros em caixa.  

ARAXANE – Tenho vontade de representar um personagem do teatro do absurdo e gostaria de montar um Teatro Épico. Ainda retomar o espetáculo que fizemos com a Patota Bacana, e que não foi possível dar continuidade. O Segue um caminho, um abrigo. 

DC – Como vocês gostariam de ver o Teatro Guaibense e o nosso ambiente cultural nos próximos anos? 

ANDREIA – Gostaríamos de ver a cidade recheada de espetáculos em todas as suas formas, festivais, formação continuada e valorização do artista, como profissão e saber.  

ARAXANE – Gostaríamos de ver o público apreciando e saindo de casa para assistir teatro, gostaríamos de ver a circulação de teatro de rua ocupando os espaços abertos da cidade. 

DC – Para quem tem vontade de seguir os caminhos do Teatro, que conselho vocês podem dar? 

ANDREIA – O teatro é muito amplo. O conselho que damos é que tenha um olhar além, que busque fazer o máximo de oficinas em diferentes ramificações do teatro, que assista muitos espetáculos, que estude muito, e deixe se contagiar por diferentes formas de arte. 

DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir? 

ARAXANE – A preparação ator, construção da personagem, criação de um papel todos de Stanislavski. 

DC – Estamos encerrando a nossa conversa.    

Não poderia deixar de, mais uma vez, agradecer muito a disponibilidade de vocês para esse bate-papo.  

Foi um prazer e uma honra conhecer um pouco mais sobre vocês e compartilhar com os leitores.  

Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade.   

Pensado exclusivamente para dar ainda mais visibilidade aos nossos colegas ao mesmo tempo em que pretende aproximá-los de nossa comunidade local.  

Gostaria que vocês deixassem uma mensagem para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos.    

Aproveitem também que é ano eleitoral e mandem um recado aos pré-candidatos que estão se preparando para o pleito.  

Vários deles estão sempre dando uma espiada por aqui e juntos podemos construir uma cidade melhor tendo a Cultura também como pilar de sustentação para um mundo melhor. 

O espaço é de vocês: 

ARAXANE – Precisamos continuar em diálogos permanentes entre nós, fazedores da cultura, e as comunidades, tendo apoio, fazer atividades diferenciadas e criar pontes para novas mundos possíveis. Para nossos amigos políticos, é imprescindível a aplicação de recursos na área da cultura como um todo e nas suas especificidades. E é dever de todo político valorizar e fomentar que isso faça parte do desenvolvimento dessa área de conhecimento do ser humano. 

______________ 

Quanta história, né? 

Assim que a gente gosta! 

É sempre muito bom conhecer gente bacana que faz um trabalho muito importante e fala sobre isso com tanto amor. 

Se você ainda não conhece o Espaço Livre Biguá, recomendo que busque as redes sociais deles e se informe sobre as atividades desse lugar tão especial e potente. 

Seguimos nossa jornada. 

Partimos, embarcados no Drone Cultural, em busca do próximo bate-papo e de mais histórias para contar. 

Não se assuste se ver a gente dando um voo rasante por aí.  

Essa cidade tem tantos talentos que logo a gente deve aterrissar e visitar um deles aí pertinho de você. 

Não perca o Drone de vista! 

Até a próxima! 

 

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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