Repórter Guaibense

Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

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Autoconhecimento e estilo de vida a partir da arte

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Dando sequência ao nosso mergulho no universo artístico guaibense, nessa semana vamos conversar com o ator Bruno Freitas.  

Embora muito jovem, Bruno é um dos atores mais experientes de nossa cidade, contando, em seu currículo artístico, diversas participações em espetáculos premiados e com ótima repercussão. 

Estou adorando fazer esse trabalho de aproximação dos nossos artistas com a comunidade local e essa entrevista é mais uma chance de conhecermos um pouco sobre mais um prodígio da nossa cidade.  

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Convido vocês a conhecerem um pouco da vida de um ator muito talentoso e que também é um ótimo exemplo do quanto a Arte ajuda a moldar caráteres e transformar destinos.  

Senhoras e senhores! Com vocês: Bruno Freitas 

DRONE CULTURAL – Primeiramente seja muito bem-vindo. É um prazer te receber aqui na nossa coluna e será muito legal bater esse papo contigo.  

Vamos começar pelo início: Conte um pouco sobre a tua trajetória. Como a Arte entrou na tua vida?  

BRUNO – Com 10 anos, eu e um grupo de amigos ficamos sabendo de um curso de teatro que a SETUDEC, aqui da cidade, estava disponibilizando com o professor José Renato Leão, então nós, que já fazíamos experimentações na escola, fizemos o curso. E o melhor de tudo isso, é que hoje parte dessas pessoas possuem relação direta com alguma arte. 

DC – Quando foi o teu primeiro contato com o Teatro?  

BRUNO – O primeiro contato foi no teatro de escola com uns 8, 9 anos, acredito que principalmente com as aulas de artes, esta que é tão importante e é tão desvalorizada atualmente, infelizmente. 

DC – Para ti, o que é Teatro?  

BRUNO – Na minha vida é estilo de vida, é referência de comportamento, de visão política e de libertação de paradigmas.  É minha principal fonte de cultura. 

DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração?  

BRUNO – Procuro referência e inspiração em tudo que assisto e principalmente nos meus colegas de grupo, que hoje fazem parte da minha família. Mas posso citar grupos de teatro aqui do Sul que me motivam muito, Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, Projeto GOMPA, Circo Girassol, Grupo CERCO e o trabalho desenvolvido pelo Zé Adão Barbosa são algumas das inúmeras referências que tenho, tanto de trabalho de atuação individual como de coletivo. 

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DC – Do ponto de vista de um ator, desde a pesquisa até prática, na tua opinião qual é o maior desafio?  

BRUNO – Acredito que a pesquisa, pois quando estamos estudando sobre algum projeto, ficamos muito ansiosos para vê-lo finalizado, somos inquietos, queremos que tudo chegue logo até o público.  

DC – O Teatro é necessário?  

BRUNO - Totalmente necessário, além da troca de energia entre ator e público, que é única, teatro é conhecimento, está aí para nos entreter, nos fazer pensar e para ensinar muito sobre a vida. 

DC – O que o Teatro acrescentou na tua vida?  

BRUNO – O autoconhecimento e um estilo de vida que me deixa muito feliz e realizado. 

DC – Que tipo de aspecto da tua vida tu acha que deve exclusivamente a Arte e ao fazer teatral? Tipo “Se não fosse o Teatro eu não...”  

BRUNO – Eu não saberia que a vida pode ser mais leve. 

DC – Como a tua família vê a tua relação com o Teatro? Como eles encaram a tua escolha e esforço pela carreira?  

BRUNO – Sempre apoiaram, mesmo sabendo das dificuldades. A família acaba participando de todo processo de criação, então é muito emocionante quando vão assistir alguma peça finalizada. 

DC – E o que os teus amigos dizem? 

BRUNO – Grande parte dos meus amigos estão no palco também, estes são aqueles que podemos abrir os pensamentos e o coração, que sei que vão entender.  E os amigos que não fazem parte deste cenário cultural também acompanham e estão sempre dispostos a darem suas visões sobre o que assistiram, e essa crítica tem grande importância para mim. 

DC – Você pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória artística, que tenha te emocionado além do "normal"? 

BRUNO – Tem um momento muito especial, em 2012 estávamos iniciando uma peça A Cotovia e a Rosa, e colocamos muita inspiração pessoal e fomos criando o projeto em cima de tudo que acreditávamos no momento, nos permitindo criar.  Então, fomos para nosso primeiro festival de teatro, com este espetáculo, na cidade de Rolante, sem nenhuma pretensão de ganhar, mas sim até com uma certa insegurança por não estar realizando um trabalho com uma linguagem popular, o trabalho era muito baseado no simbolismo. Só que o retorno do público foi extremamente de conexão com a gente, ganhamos como melhor espetáculo e ficamos sem acreditar, foi uma emoção muito forte para todo grupo, foi um susto bom inesquecível. Nos motivou a continuar. 

DC – Falando em emoção: Para ti, o que é estar em cena? 

BRUNO – É me permitir, estar em cena tem sensação única, de estar em outra dimensão, êxtase inexplicável. 

DC – Tens algum ritual que execute antes de entrar em cena? Como é a tua rotina em dia de espetáculo? 

BRUNO – Em dias de apresentação gosto muito de estar conectado com meu diretor, técnica e grupo de atores, quanto mais unidos estamos, melhor será o resultado no palco. A reunião de todos antes do espetáculo, para troca de energia e de ideias é meu ritual.  O propósito de todos precisa ser o mesmo, senão, pode ter certeza, a peça não finalizará como esperada. Tem que ser bom pra todos. 

DC – Por mais que nos preparemos, as saias justas estão sempre presentes. No meio de tantas coisas lindas que já aconteceram ao longo da tua experiência, qual foi o maior perrengue que tu passaste em cena? 

BRUNO – Nossa, são vários. Mas tem um recente, em 2018 no meio de uma apresentação em uma tenda piramidal em um ambiente aberto e improvisado, começou um mega temporal, um vento que parecia um tornado, molhando todos e levantando tudo, foi desesperador. Não enxergávamos o diretor para saber se era para parar ou não, então prosseguimos até o final, segurando o cenário para não voar e o público todo amontoado em um canto. Foi triste. Por isso que é complicado, para nós artistas, apresentarmos em locais que não tenham os recursos mínimos para tal realização, o palco é sagrado, não podemos relativizar.  

DC – O grupo teatral do qual você faz parte, tem uma vasta experiência em festivais e mostras teatrais em diversas cidades gaúchas.   

Gostaria que tu contasses um pouco sobre essas viagens com os colegas de grupo.   

Fala um pouco também sobre a tua opinião em relação a importância desses festivais, tanto para os artistas, quanto para o público e para as localidades onde esses eventos culturais são realizados. 

BRUNO – Nosso grupo sempre tenta participar do maior número de festivais possíveis, são neles que temos uma crítica sobre nosso trabalho e podemos assistir peças com várias linguagens, de várias cidades e que servem como referência para nós.  

Quando podemos passar uma semana em uma cidade respirando teatro é como cursar uma faculdade, pois o conhecimento que recebemos é de grande porte, tanto técnico como intelectual.  

Vemos cidades pequenas do interior com grandes espaços preparados para receber espetáculos, moradores envolvidos com a arte e políticas municipais culturais muito bem exercidas. Estas cidades que possuem grandes festivais de teatro formam público crítico e são ricas culturalmente.  

DC – Sei que costumam a encantar por onde passam e, para orgulho de nossa cidade, acabam por trazer muitos prêmios. Divide conosco alguma história bacana sobre as participações nesses festivais. O que esses encontros com o público e outros grupos acrescentam na lapidação do teu talento? 

BRUNO – Os prêmios são muito bem vindos, é um reconhecimento de um trabalho bem realizado, de uma meta atingida. Mas, os festivais possuem teor crítico, e é no debate que conseguimos melhorar o trabalho e lapidar, uma visão de fora muitas vezes é o que falta. 

DC – Esse com certeza é um dos momentos mais confusos que a classe artística já enfrentou. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, deixou nossas atividades suspensas. Estamos sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma.  

O Núcleo Teatral estava por iniciar uma temporada de circulação do espetáculo A incrível Viagem do Navio Geringonça aqui pela região Costa Doce.   

Inevitavelmente, foi obrigado a alterar o seu cronograma de execução do projeto.  

Conta para nós como está sendo esse momento para o grupo. Como estão funcionando os processos de adaptação do grupo e o teu? Qual está sendo a principal dificuldade encontrada e quais pontos estão mais te surpreendendo positivamente? 

BRUNO – Com certeza a cena cultural foi a primeira a parar com a pandemia, tivemos que pausar encontros, ensaios e todas as apresentações agendadas. Assim como todos, não estávamos prontos para tal cenário. A partir daí estamos tentando retomar os encontros, mesmo que virtualmente, conversamos sobre projetos, mas infelizmente não conseguimos fazer nenhum planejamento com datas. Estamos diariamente pensando em alternativas para levar nosso trabalho até o público, mesmo que seja por outros meios. Sinceramente, acho tudo bem difícil, não consigo visualizar o teatro sem a proximidade física com público, mas adaptar-se é necessário.  

Me surpreendeu positivamente a união dos artistas nas buscas por soluções e a valorização da arte, pois é neste momento de isolamento, que as pessoas “perceberam” o quanto é necessária, é o que está salvando a mente de todos, trazendo alegrias diárias. 

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DC – Ainda aproveitando um pouco mais a temática da Pandemia, na tua opinião qual é o papel da Arte nesse momento? 

BRUNO – Justamente isso, mostrar que a vida pode sim ser feliz, que é possível vivenciar bons momentos culturalmente. 

Todas as artes possuem algo para nos inspirar, independente do segmento (artes plásticas, visuais, literatura...). 

DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade? 

BRUNO – Por mais difícil que seja, acho que acreditar em si mesmo e fortalecer a autoestima é uma meta diária neste momento. As emoções estão muito intensas, acredito que para boa parte da população, então buscar o equilíbrio é uma tratativa de manter a mente saudável. 

DC – Infelizmente, não temos como prever muitas coisas para os próximos meses. Continuamos na luta para nos mantermos na atividade. Buscando alternativas em meio ao caos.  

Uma dessas tabuas de salvação, mesmo que com bastante atraso, chegou através do FAC-Digital, do governo Estadual, através da SEDAC. Edital que fará um repasse mínimo para que trabalhadores da Cultura executem projetos culturais que possam ser exibidos através de plataformas de internet e redes sociais.  

Você foi uma das sete pessoas selecionadas aqui em Guaíba. Poderia contar um pouco sobre o teu projeto e qual a importância desse edital nesse momento? 

BRUNO – São a salvação mesmo, estes editais nos motivam a continuar nossos trabalhos. Meu projeto é levar um dos nossos espetáculos para o vídeo, uma linguagem que para nós ainda é novidade, através de adaptações no texto e roteiro para que possamos levar até o público o mais próximo possível da intenção de quando realizado em formato original. A meta é manter a emoção e não deixar o teatro cair no esquecimento. 

DC – Uma outra boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação, através da LEI ALDIR BLANC, do dinheiro que estava represado e não vinha sendo investido. 

Esse dinheiro que estava parado e que só pode ser investido no setor cultural, virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade.  

Como você vê a importância dessa lei nesse momento e qual é a tua expectativa atual com relação a isso? 

BRUNO – Só de pensar que um recurso da cultura que estava parado vai finalmente chegar a quem precisa já me anima muito. A Lei Aldir Blanc é necessária, pois precisamos executar nossos projetos e existem gastos obviamente. A cultura estava esquecida pelo governo, então ela veio para acender a discussão sobre importância da arte, e espero que boa parte dos artistas consiga se beneficiar, sei que nem todos vão ter acesso, pois incorretamente, o valor é limitado e provavelmente burocrático. 

DC – Quais sonhos você alimenta para o seu futuro artístico/profissional? 

BRUNO – Manter o teatro ativo e autossustentável.  

DC – Tem algum personagem que tu gostarias de interpretar? E, caso tu tivesses recursos suficientes, qual tipo de texto/espetáculo tu gostaria de montar? Nos teus sonhos mais malucos, por onde tua imaginação viaja? 

BRUNO – Boa. Nos meus sonhos mais malucos consigo visualizar e montar um espetáculo nível Circo de Soleil, com grandes estruturas, diversos segmentos da arte englobados, viajando o mundo, com artistas reconhecidos e realizados. Sonho maravilhoso. 

DC – Como você gostaria de ver o Teatro Guaibense nos próximos anos? 

BRUNO – Com políticas culturais bem estruturadas e com espaço destinado ao teatro. São raras as reuniões que o assunto “falta de espaço para apresentações” não esteja em pauta.  É uma meta permanente, uma cidade turística, com grandes artistas, não ter um teatro é desmotivador. Já participei de inúmeras manifestações na cidade, mas chega uma hora que cansa, que é mais fácil ir para outra cidade que tenha estrutura. Mas não  para desistir, espero ver este espaço um dia e, quem sabe, subir neste palco. 

DC – Para quem tem vontade de seguir esse caminho, que conselho você pode dar? 

BRUNO – Acreditar no que faz e se aproximar de pessoas que sejam do meio, é importante saber que não está sozinho neste caminho tão difícil. 

Consigo ver união na arte. 

DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir? 

BRUNO – Como estamos de isolamento vou sugerir os espetáculos e shows do SESC SP e tem várias peças maravilhosas e gratuitas na plataforma do TEATRO ONLINE (espetaculosonline.com). 

Para quem gosta de história e teatro sugiro a leitura da A arte secreta do ator, de Eugenio Barba e Nicola Savarese, é praticamente uma bíblia sobre o teatro, é um daqueles livros para aprendizado e para ter sempre à mão. 

DC – Estamos encerrando a nossa conversa.   

Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo comigo.  

Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade. Gostaria que você deixasse um recado para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos.   

Pode falar o que quiser. 

BRUNO – Fico muito honrado em responder e falar sobre teatro, parabéns a coluna por dar espaço para cultura.  

Aos trabalhadores da arte desejo coragem, e ressalto que estamos juntos nessa.  

E a todos desejo muito teatro, mesmo que virtualmente. 

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E aí, o que você achou desse bate-papo?   

Gostou de conhecer um pouco da trajetória do Bruno Freitas?   

Já conhecia ele ou já assistiu ele em algum espetáculo por aqui? 

Com certeza é mais uma pessoa que ajuda a fazer nossa cidade um pouquinho melhor através de seu trabalho.   

Essa é apenas uma das tantas histórias impressionantes que estão acontecendo em nossa cidade nesse momento.   

Leia também: Quer um conselho?

Quer conhecer outras histórias legais como essa?   

Então continue acompanhando essa coluna.  

Eu vou ter o maior prazer de contar tudo para vocês. 

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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