Como vocês devem ter notado, tenho evitado assuntos referentes a pandemia que vivemos, pois penso que estamos saturados de notícias sobre esse assunto. A cada dia que se passa temos avanços e retrocessos no tocante a medidas de prevenção e evolução das curvas epidemiológicas do vírus. Diante desse cenário, inúmeras informações divergentes chegam a nós pelos diversos meios de comunicação e não sabemos em quais acreditar. É um momento delicado. Estávamos vivendo uma crise econômica e política, e agora uma pandemia.
Perante essa situação é normal que nos perguntemos “em quem acreditar?” ou “quem está falando a verdade?”. Durante conversas que tive ao longo desses quase cinco meses de pandemia, ouvi coisas do tipo “nem os médicos sabem como agir?”, ou ainda, “li na internet que tal ação/remédio ajuda no combate e prevenção ao coronavírus”. Para exemplificar essa insegurança e mudança de opinião repentina, lembro que até o reconhecido Dr. Dráuzio Varella se equivocou – e pediu desculpas publicamente – ao interpretar a doença como algo comum. Esse fato contribuiu com os argumentos dos movimentos anti-vacina e, principalmente, os anticiência.
Com o epicentro em Wuhan, na China, o vírus se espalhou em poucos meses devido à alta circulação de pessoas pelo planeta. A culpa não é das pessoas que fizeram turismo ou seguiram suas rotinas, quem fez isso estava assintomático e sem sintomas não temos como saber se estamos ou não com o vírus no nosso corpo. Também não havia motivos para a realização de testes em massa pois a doença era desconhecida. Naquele período inicial da pandemia, o covid-19 não recebeu a atenção que merecia. Aproximadamente oito meses depois temos a dimensão do problema graças a estudos realizados ao redor do mundo por várias academias, ou seja, é devido a explicações e refutações (contestações) às mesmas que o conhecimento da doença fora sendo desenvolvido. Em suma, nós estamos vendo a ciência do covid-19 ser construída, somos seus contemporâneos.
Nesse período de construção é comum, por exemplo, médicos e pesquisadores possuírem argumentos divergentes pois as suas referências são distintas (OMS, universidades, instituições governamentais). Não quer dizer com isso que um desses que diverge é incompetente, ambos estão “certos” embasados nas suas referências. Com o tempo, estudos surgirão reforçando algumas explicações e enfraquecendo outras. É importante minha leitora, meu leitor, que vocês saibam que isso é normal! Estamos construindo conhecimento, estamos evoluindo, estamos fazendo ciência. Um exemplo prático disso é o uso da hidroxicloroquina. Tal medicamento foi uma hipótese aceita por parte da comunidade científica, porém com a publicação de estudos refutando a sua eficácia, tal hipótese foi perdendo força. Esta eficácia ainda está em debate. Claro que pessoas foram tratadas com a hidroxicloroquina e se salvaram, porém a eficácia, a garantia de cura não está comprovada.
O problema é que parte da população acredita que a ciência é como se fosse um Deus, e por isso possui um caráter salvacionista. Porém sabemos que não é assim. Já comentei aqui que a ciência é uma construção humana e portanto está sujeita a erros e interesses. Assim sendo, é comum nos equivocarmos, nos basearmos em estudos que ali na frente serão considerados “errados” pois foram refutados, melhorados. Nesse momento é importante estarmos em constante atualização, sempre lendo em fontes confiáveis e responsáveis (tema que já foi assunto por aqui também).
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Não desacredite na ciência pois é através dela que virá a solução para esse caos que vivemos. Nunca na história da humanidade uma vacina fora desenvolvida em um intervalo de tempo tão curto (fevereiro até o presente momento). Seja a vacina britânica, americana russa ou chinesa, são estudos que estão sendo feitos visando a prevenção, visando a volta ao convívio “normal”. Apenas o tempo dirá qual vacina será mais eficiente, mas isso não quer dizer que as outras são péssimas, apenas rumaram o “fazer científico” por caminhos distintos. Saia daquele preconceito de “porque o vírus é chinês então a vacina chinesa não presta”, não faça essas relações simplórias. Leia, reflita, forme uma opinião consistente, baseada em estudos científicos e não em achismos.
Deixemos os cientistas, médicos, organizações avançarem nos estudos contra o covid-19 e claro, além da crença na ciência do bem, um pouco de fé (seja qual for sua religião) não faz mal a ninguém. Em quem acreditar? A resposta que tenho é: “acredite naqueles que estão imersos no assunto e possuem referências científicas sobre o mesmo”. Ali na frente o que julgávamos certo pode ser considerado errado (ultrapassado, equivocado), mas apenas o tempo e estudos posteriores poderão nos dizer isso. Não existe verdade absoluta quando se trata de conhecimento científico. Há aquilo que até então é aceito pela comunidade científica naquele momento.
Gostaria de agradecer ao meu amigo, Douglas Grando de Souza, mestrando da UFRGS em Ensino de Física, pelos comentários e reflexões sobre esse tema. Gratidão!
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