O Engenho ainda é um bairro sem prédios. Porque o prédio do Ipê é mais do que isso, é patrimônio do bairro. Eu tenho nove anos. A vida ainda tem uma cor que não se reproduz em nenhuma canetinha ou giz de cera. Uma cor mais viva do que a mesma vida terá décadas depois. O Engenho ainda carece dos prédios. Só o do Ipê encravado no meio do bairro. As quatro torres brancas lá no meio. Eu vejo de longe. Daqui da minha rua. Eu ainda tenho uma rua.
A Anacleto Pratti revestida de brita irregular e com uns vãos que te deixam ver a terra seca. Até que dá pra fazer uma cova pequena pra jogar bolita. Mas eu quero é jogar bola. E o Jader também. O Jairo. O Fabiano. O Maurício. O Davi, o Israel e o Tiago. A bola é de quem? Não importa. Tem jogo todo dia. A gente beira os dez anos ou passa um pouco deles. A gente se encontra sem precisar marcar horário. Como sempre deveriam ser os encontros. E o riso nasce fácil. É como se a gente se revezasse nas piadas. Cada vez sobre um diferente. Parece que se sabe que o tempo vai passar. Que é preciso rir o máximo que puder. Que a vida vai cobrando o dia que passa depois do dia. Que a ida pra escola denuncia a preparação pruma outra vida. Que daqui a quatro anos vou embora. Vou morar noutro bairro. Que o Jairo e o Jader algum dia vão proutra cidade. O Davi, o Israel e o Tiago também.
O Engenho ainda é um bairro sem prédios. O do Ipê lá encravado. Olho pra ele como se ele andasse pra trás. Porque agora eu pedalo a caloi verde e preta pela Victor Scalco. Na direção do Coleginho. A minha rua começou a encolher. Eu vou embora daqui a um ano. Não volto mais. Mas ainda não sei que vou embora. Encontro o Fábio e também não sei que mais de vinte anos depois continuaremos amigos. Encontro o Ézio e não sei que mais de vinte anos depois continuaremos amigos.
A gente anda pelo Engenho de bicicleta até o Campão. Lá nos fundos do bairro. As traves do Campão, de tão grandes, parecem traves de futebol americano. A bola rola acidentada no gramado. Isso onde tem grama. No meio é terra. E escura. O pé afunda quase inteiro. Até que alguém chuta a bola na direção do rio. A gente corre pra lá. A bola quase na água. Escapou por pouco. Nós três paramos olhando o rio, Porto Alegre do outro lado. E naqueles segundos olhando o rio, olhando a capital, olhando aquela multidão de água, é como se a vida por vir se apresentasse inteira ali: móvel, gigante, passageira.
O Engenho não é mais um bairro sem prédios. Eu não tenho mais uma rua. A Anacleto Pratti se despediu das britas. Não há mais bolita no meio das vias. O Campão foi extinto. A caloi verde e preta enferrujou. Os da minha rua foram embora de lá. Como eu também fui. Eu ainda vejo o Fábio. Eu ainda vejo o Ézio. A vida ainda é móvel, gigante e passageira. Mas, sobretudo, eu continuo procurando alguma canetinha ou giz de cera que consiga pintá-la com as cores daquele tempo. O tempo de quando o Engenho carecia de prédios.
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