A substância que pulsa naquilo que não deu certo, o erro, o desvio, um trajeto abandonado dentro de nós. As sobras que lançamos às gavetas, às galerias digitais, a memória rejeitada dos ensaios ocultos. Uma marca do que não queríamos ser, quando ainda não sabemos exatamente o que somos. Aquilo que fica no rastro, quando viramos a certeza do avesso. As cavernas que habitamos e que jamais abandonaremos.
Mas não só. Também os entres, as fendas, as frestas, aquilo que guarda um vazio de existências do que queríamos ter sido e não fomos: a bola que bate na trave, o lábio que foge do beijo, o livro que nunca alcança a prensa, a lágrima que seca no instante anterior ao olho, o filme pela metade, os nomes e o coração desenhados na parede que envelhece próxima ao rio, a tarde que morre no horizonte e nos anoitece por dentro. O mundo sempre nos escapa das mãos.
Mas às vezes nós escapamos das suas. Os raspões que nos salvam de mínimas e imensas tragédias. O carro que afronta a sinalização e penteia o para-choque do caminhão num cruzamento isolado de uma rodovia insegura, o pote lotado de frios que serpenteia em cambalhotas no ar após escapar de nossas mãos e, qual ginasta hábil, pousa sobre a própria base, as sombras da rotina que nos lembram do risco constante que é estar vivo.
Alguém já me disse que deus vive nesses entres, quases e afins. Para além de acreditar em deus, eu acredito em eus e tus e nós e eles pulsando todos ao mesmo tempo, movendo-nos permanentemente, fundando essa pedagogia da raspa no momento exato em que a praticamos, atualizando-a a cada segundo, vivos, tolos e frágeis, convivendo com essa chaga implacável das intuições sobre as alegrias e tristezas que ali adiante, não importa o que façamos, desabarão sobre todos nós.
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