Não tem sido fácil. Antes questionávamos sobre o pouco ou a falta de tempo dos pais ou responsáveis para com os filhos, hoje nos questionamos sobre o excesso de tempo junto aos mesmos, crianças ou adolescentes. Mas então, o que pensar? O que fazer? Em muitos lares brasileiros a casa virou o trabalho, misturaram-se espaços de lazer com os compromissos da vida profissional. No caso das crianças, com a vida escolar. E tudo isto aliado ao confinamento. Em outros lares os filhos ficam com parentes ou conhecidos, pois os pais estão no trabalho fora de casa.
De mais e de menos. De mais: tempo em casa, no quarto, no sofá, nas telas, nas redes, em ansiedade e descontando com a comida, o sono, o silêncio, ... De menos: convívio com os amigos ou familiares que não moram junto, privacidade, natureza, movimento e liberdade... O que fazer para auxiliar nossos filhos pequenos e adolescentes a passar por tudo isso sem tanto sofrimento? E o que fazer para ajudar a nós mesmos? Culpa, medo, ansiedade, angústia, insegurança são alguns dos sentimentos que tem acompanhado as famílias brasileiras de todas as classes sociais.
Quem tem estabilidade financeira hoje sofre preocupando-se com o vírus, o presente e o futuro de sua família, com os filhos que comem muito ou não querem comer, dormem muito ou não querem dormir, com aqueles que trocaram o dia pela noite, silenciosos demais, barulhentos demais, alguns bem adaptados aos estudos remotos, outros sem o menor interesse pelos estudos, os filhos angustiam-se também e demostram isto de várias maneiras. Preocupações legítimas e reais, vividas dentro dos lares.
Outras famílias, sem estabilidade financeira, sofrem com a perda do emprego e da renda, perdem a segurança de prover o básico para sua família, e se vêem entre o medo do vírus e da fome, da falta de vestuário e equipamentos para os estudos. E os filhos sofrem juntos, porque mesmo as crianças pequenas percebem as modificações em seus lares, apesar de não compreendê-las. A casa então torna-se um abrigo sem as condições necessárias. E aqui também existe o “de mais e o de menos”. Aqui também existem as preocupações legítimas e reais, vividas dentro dos lares.
Não somos culpados pelo vírus, pela pandemia. Mas somos responsáveis pelas nossas atitudes e decisões relacionadas aos nossos filhos sempre! A hora é de pensar a realidade em que a nossa família está inserida, observar o que nos é prioridade, o que nos preocupa, o que podemos minimizar, sem tanta culpa ou ansiedade. O vírus veio nos mostrar que a vida é rara e frágil, que devemos aproveitar cada amanhecer como uma oportunidade. Quem pode ajudar, ajude! Quem precisa de ajuda, procure! Seja ela da natureza que fôr, material ou emocional. Sem jamais deixar de cobrar dos governantes projetos e ações de assistência social para que não falte o básico em nenhum lar, e não estou me referindo somente a alimentação e saúde, mas ao básico para estudar também.
Haveremos de pagar uma conta alta no futuro com as defasagens educacionais, isto é fato, mas o momento agora é de auxiliar, acolher e apoiar as famílias, dos estudantes e de todos os profissionais da educação, porque serão estes que vão estar na linha de frente para recuperar o ensino e a aprendizagem, amortizar o déficit educacional. São eles que precisarão estar de pé, com fôlego para reerguer este setor, as políticas e os projetos educacionais só dão bons resultados quando a ação, a prática é tão boa quanto. Pensemos nisto.
E em nossas casas, que vivamos pensando e agindo conforme nossa realidade e a nossa consciência, com a certeza de que não temos de dar conta de tudo o tempo todo, mas que estamos fazendo o possível para acolher e proteger nossa família, certos de que somos parte de um todo, que o “pouco” que façamos para auxiliar ao próximo, unido a tantos “poucos” dos outros, torna-se muito! Cientes de que as soluções vem não só de intenções, mas de atitudes!
Encerro com uma frase da espetacular poeta Cora Coralina para refletirmos: “Você não pode evitar que os problemas batam à sua porta. Mas não há necessidade de oferecer-lhes uma cadeira para sentar”.
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