Dom Barulho tinha uma frase clássica (dentre tantas de seu imensurável repertório) que dizia: “- Quem não ajuda, não estorva! ”
Seguidamente se escutava essa, quando alguém estava no caminho ou atrapalhando o velho avô em algum a fazer do seu dia a dia.
Hoje penso a mesma frase (sem dizê-la) para o momento em que atravessa o tradicionalismo.
A pandemia forçou o afastamento e também expos o despreparo que os dirigentes do movimento apresentam para atuar em momento de crise.
O tema é trazer a reflexão de quanto nos desviamos do caminho e propor a indagação se ainda queremos retomar o plano inicial?
Bem, seria irresponsabilidade desse colunista expor a crise como sintoma desse despreparo. Há pessoas que fazem de tudo para assumir o poder e quando assumem, acomodam-se no trono e esperam que os súditos hajam em sua causa. Esquecem-se que são referências à serem seguidas.
Talvez, os interessados por assumir uma posição de liderança de suas entidades precisam refletir sobre a responsabilidade que é estar a frente de um local que têm, ou deveria ter, uma representatividade da cultura gaúcha. Afinal, este deve ser o seu maior, propósito, não é mesmo?!
Os problemas antigos começam com a segmentação nas mostras, que separa e acaba excluindo pensamentos divergentes que não sabem congregar e divergir, mas manterem-se firmes a causa maior.
Em seguida os que se aproveitam dos fanáticos por premiação e se fazem na cobrança exagerada por serviços prestados, de coisas que geralmente aprenderam de graça e sem pudor, secam os cofres das entidades.
Porque as entidades viram reféns desses gastos? Porque não balancear e investir nos talentos caseiros?
Porque não valorizar a transcendência, tornando o aprendizado algo que vai passando de pessoa a pessoa, e esses carregam em si, o compromisso de seguir transcendendo?
O quanto estão preparados os gestores para fomentar lideranças em seus galpões e fazê-las produzir pela entidade?
Essas por sua vez, geralmente (ou a grande maioria) tem em sua sede grande parte de frequentadores como partícipes da área artística e com isso vem o advento da competição antes da fraternidade. Há que mudar o foco.
E neste ponto, uma oportunidade. Sabendo-se que a artística (dança, canto, declamação, instrumentos, chula, trova), aproxima a comunidade dos CTGs (Centro de Tradição Gaúcha), pois afinal nossa arte, traz os seus encantos, então, vamos aproveitar para levar junto na carona a nossa história usos e costumes, de maneira leve, acolhedora e com mate bem cevado!
Por último, o próprio movimento tradicionalista como fomentador dessa competição, como peça chave do “enxugamento” dos cofres das entidades e peca na omissão do enlace fraterno, na contramão, dá vaza a grupos pequenos e midiáticos para fazer-se crer que seguimos no caminho deixado por Paixão, Barbosa e seus sete amigos. Ledo engano, nos afastamos dia após dia do real sentido e valor do tradicionalismo.
O discurso dessa não é ácido nem de mal perdedor, até porque me sinto um vencedor (para os competitivos). O tradicionalismo em sua essência me trouxe amigos que posso chamar de irmãos, me apresentou a prenda com a qual divido minha vida a 32 anos e me fez um apaixonado pelas coisas do pago, tanto que escrevo em prosa e verso todo esse amor.
Em plena crise não houveram abrandamentos de taxas, nem revogação de pagamentos que jogam no vermelho as entidades.
Centralizaram as ações e esqueceram de atenderem, de estenderem a mão aos pequenos, àqueles que no fundo de algum rincão, fincaram palanques e defendem a arte e a cultura na força do suor. São a resistência atemporal das falácias contemporânea sobre tradição.
Aliás esse é outro tema polêmico, das pessoas envolvidas no sistema, quantas realmente estão conectadas com a tradição. Com o folclore repassado nas entidades que vão na vanguarda do tradicionalismo defendendo essa causa e essa bandeira sem as vezes ter o apoio de quem se faz defendido.
Eu não sei pra onde vai, mas sei pra onde eu quero ir.
São ferramentas poderosas de afetividade e fraternidade, empoeiradas em algum lugar que não no coração das pessoas que fazem a frente desse magistral movimento.
Ah se Barbosa soubesse, combateria com palavras sábias a ineficácia das falácias inertes.
Ah se Barbosa estivesse entre nós...
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