Nas últimas duas semanas, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu para o grupo de seus imortais um cancionista e uma atriz: Gilberto Gil e Fernanda Montenegro. Como qualquer outra pauta assimilada pelas redes sociais, as novidades imediatamente foram exaltadas e atacadas com a mesma ênfase e comoção, aquele maniqueísmo urgente que parece manter esses espaços em permanente convulsão. Sobre os ataques, em especial, uma acusação me chamou a atenção: ambos não serem autores de livros – um requisito supostamente essencial para a eleição da ABL.
Não sei se essa informação procede, quero dizer, se Gil e Fernanda já assinaram pelo menos uma vez seus nomes como autores desse objeto impresso e com dezenas de páginas que chamamos de “livro”. Mas o que realmente me surpreendeu foi boa parte do Brasil, país de tão poucos leitores de literatura, criticando a ABL por premiar justamente duas das figuras que mais colaboraram para que a relação entre o brasileiro e as dimensões poéticas do seu idioma não estejam restritas aos livros e cheguem ao maior número de pessoas.
A telenovela e a canção são, sem a menor sombra de dúvidas, os dois gêneros literários mais populares de nosso país. Basta verificarmos em nosso entorno mais imediato aqueles que leem mais de um livro por mês e, simultaneamente, consultá-los sobre quantos capítulos de telenovela e quantas canções consomem nos mesmos trinta dias. As canções e os capítulos muito provavelmente ganharão com larga margem.
Não estou defendendo uma relevância maior dessas últimas sobre romances, contos, poemas e outros gêneros literários associados e até reféns de uma leitura mais atenta e de veículos mais convencionais como os livros (o que certamente torna essa disputa desigual). Longe de mim, alguém que é tão devedor desses mesmos romances, contos, poemas. O caso, aqui, é na verdade escapar dessa competição estéril e inexistente, e compreender a nossa vocação ancestral para a oralidade, não recalcar essa vocação, incorporá-la àquilo que chamamos de Tradição, e assim construir uma visão cada vez mais abrangente sobre o que é Literatura Brasileira.
Penso em todas as letras das canções e Gil, as muitas dimensões humanas, latino-americanas, brasileiras, nordestinas, negras, contemporâneas que sua poética visitou e segue visitando: sobre ser filho em Pai e Mãe, sobre o amor que começa e o amor que termina, respectivamente, em Bem devagar e Drão, sobre o resgate africano em Refavela, sobre as tantas melodias inclassificáveis, que escapam às nomenclaturas de gêneros musicais, e cujas letras são verdadeiros hinos do viver, como Palco, sobre a velhice, em Jacintho, e, principalmente, sobre uma postura democrática e permeável de artista de seu tempo, leitor do mundo e do país em que vive, não aceitando armadilhas afetadas e autossuficientes que a MPB costumeiramente impõe a seus maiores nomes.
Já Fernanda Montenegro simboliza justamente a força com a qual o verbo do audiovisual há décadas constrói o imaginário nacional. A telenovela (assim como o cinema), com todos os seus problemas, seus reducionismos, seus estereótipos, seus comprometimentos publicitários e até uma espécie de régua estética que inibe maiores invenções, é o espaço em que a maior parte dos brasileiros reflete, pela ficção, sobre o seu país, sobre quem somos como povo, sociedade, sobre nossas dores, alegrias, belezas, preconceitos, vitórias e derrotas. Ignorar essa condição é ignorar, em algum grau, quem somos. Ignorar essa importância é abrir mão, inclusive, de aproximar esses milhões de brasileiros que todos os dias acompanham essas produções, comentam com os amigos, sofrem junto dos protagonistas (e aqui fala um grande “noveleiro”), das obras maiores da nossa literatura, fazê-los compreender este parentesco inevitável: tudo é língua brasileira, uma língua portuguesa da qual, todos que a articulamos, somos escultores. Imortalizar Fernanda Montenegro, portanto, é imortalizar também todos aqueles que a consagraram como a grande atriz desse texto audiovisual que inventa e reinventa nosso país.
A ABL parece que finalmente deixa o século XIX e estende as mãos ao século XX – passo inevitável para chegar ao XXI. Um recado importante para tantos outros setores da sociedade brasileira que trabalham para a perpetuação dos recalques, que evitam olhar para o próprio país com lentes autênticas, mas também para uma certa intelectualidade que costuma ridicularizar artistas de massa e minimizar a relevância de suas obras.
Por alguns momentos, enquanto escrevia essa crônica, fui ao Youtube para ver o trecho final de Central do Brasil, aquela trilha no piano que nos atravessa - cada nota como um “soluço de vida”, como diria Drummond -, ambientando a cena em que Dora deixa a cidade de ônibus ao amanhecer e escreve a carta de despedida que enviará a Josué. Depois, digitei Gilberto Gil, busquei Pai e Mãe, canção que embala, canção maternal, canção que renasce qualquer ouvinte. Como são imensos Gil e Fernanda. Como pode ser imenso o Brasil.
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