Guaíba está fazendo 94 anos de emancipação do município mãe, Porto Alegre. O ato de emancipação remete aos seguintes significados: tornar independente, libertar, autogoverno, autossuficiência, soberania, entre outros significados que indicam que liberdade e responsabilidade são critérios para dar sustentação a maturidade política.
Como município autônomo e dono de seu destino, Guaíba permanece desafiando consecutivas gestões e demonstrando que não basta somente boa vontade para governar. Seus habitantes constroem a história deste lugar através do desenrolar de suas vidas na relação direta com o território. Um lugar bom para viver é um lugar que abriga bons cidadãos e bons gestores públicos (aqueles que visam o bem estar de toda a comunidade respeitando as normas legais Federal, Estadual e Municipal). O que isso significa? Bem, significa que um lugar é construído a partir daquilo que seus habitantes pensam, acreditam e realizam para o bem comum, por fim, são também o conjunto das boas práticas na administração pública. Acreditem, a cidadania está para além de votar ou ser eleito.
Como professora e historiadora preciso provocar reflexões para o tempo presente. Considerando como base para as respostas, os princípios trazidos pela Constituição Federal promulgada em 5 de outubro de 1988 (a conhecida “Constituição Cidadã”), lanço as seguintes perguntas:
Como o futuro irá escrever a nossa história?
O que deixaremos para ser lembrado pelos futuros habitantes de Guaíba?
Coletivamente estamos construindo boas referências?
Estamos agindo como cidadãos dignos deste maravilhoso lugar?
Pensemos...
BREVE HISTÓRIA DA EMANCIPAÇÃO DE GUAÍBA
O movimento em prol da emancipação iniciou em 1924 quando o conselheiro municipal de Porto Alegre Coronel Affonso Fonseca levantou a ideia de que era necessária a emancipação do 7º, 8º e 9º distritos de Porto Alegre. Esses distritos eram Pedras Brancas, Barra do Ribeiro e Mariana Pimentel respectivamente (a vila de Sertão Santana só seria elevada à categoria de distrito após a emancipação de Guaíba). Fonseca era morador e proprietário na Barra do Ribeiro e sua intenção era que a sede do novo município ficasse justamente nessa localidade. A partir de então, os barrenses tomaram a iniciativa montando uma comissão que foi até o presidente do estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, para reivindicar a sede do novo município. A solicitação foi bem aceita pelo presidente do estado que demonstrava simpatia política pela Barra do Ribeiro. A possibilidade de que os barrenses ficassem com a sede distrital desencadeou uma acirrada disputa entre o 7º e o 8º distritos. Logo, os pedrenses se organizaram constituindo uma Comissão Central composta pelo médico Dr. Gastão Leão e o os coronéis Oscar Alves da Silva e Inácio de Quadros. Outros importantes nomes estiveram ao lado desta comissão foram o deputado estadual coronel Frederico Linck, o comerciante Silvestre Alves da Silva e os senhores João Fróes Salgado, João Vargas e João Lisboa.
Em 8 de junho de 1925, o movimento pró-emancipacionista foi recebido no Palácio do Governo pelo médio José Montaury de Aguiar Leitão, homem de confiança de Castilhos e que havia sido intendente de Porto Alegre de 1897 a 1924. Montaury acolheu o pedido vindo de Pedras Brancas, prometendo seu apoio. Dias após no encontro em Porto Alegre, a comissão pró-emancipacionista pedrense desenhou as estratégias para enfrentar a disputa política para que Pedras Brancas ficasse com a sede do novo município. Foram criadas comissões de Propaganda e nomeados delegados-emancipacionistas responsáveis por cada distrito e localidade que estava dentro do almejado território.
Foram designados para as localidades de Mathias e Serrinha – João Vargas, Simflorino Lopes, Irineu Jardim e Saturno Oliveira Lopes; Bom Retiro – Octávio Moura e Newton Telles; Passo Fundo e Santa Maria – Cel. Ignácio de Quadros, João Poeta, Cel. Francisco Pereira, Aurélio Rodrigues e Numa Jardim; Passo Flor do Conde – Pedro Rodrigues, Sezefredo Paiva e Euzfrázio Rebello; Restinga e Ermo – João Fróes, Luiz Sant’Anna, Theófilo Jardim e J. Alberto Rath.
O momento evidenciava um bom progresso econômico, assim como a formação de uma elite política local onde alguns já possuíam significativa expressão regional. Os argumentos eram vários a favor de Pedras Brancas. O Dr. Paulo Hecker (conhecido espiritualista que lotava grandes espaços por ocasião de suas palestras), foi escolhido como orador oficial. Em seus discursos citava, além da excepcional situação geográfica e econômica, 21 fábricas de pequeno e médio porte, quatro grandes charqueadas (sendo que o Saladeiro e Matadouro São Geraldo estava para ser inaugurado em 1927), uma grande produção de arroz com um território de 88.650 hectares, a existência da Fábrica de Papel e Papelão Pedras Brancas, no Bom Retiro e a Companhia de Navegação Pedras Brancas, com barcos movidos a vapor para o transporte de produtos e da população da região.
Podemos perceber no trecho que segue, retirado do Jornal Correio do Povo, de 21 de junho de 1925, a narrativa dos acontecimentos - a transcrição do texto abaixo se encontra conforme o texto original:
“Creação de um novo município – Domingo último, nas Pedras Brancas, realizou-se um grande comício, afim de tratar-se da localização que se quer dar no projetado municipio, constituido dos 7º, 8º e 9º, distritos do município de Porto Alegre. Nessa reunião, depois de terem falado varios oradores, foi resolvido, enviar-se um memorial ao dr. Borges de Medeiros, presidente do Estado. Uma vez elle elaborado, uma comissão composta dos srs. drs. Paulo Hecker e Gastão Leão, Norberto Linck e tenente-coronel Oscar Francisco Neves da Silva, esteve no palacio do governo para fazer a entrega do memorial. Recebida pelo presidente, fez ella a entrega deste documento, que continha 600 assinaturas de pessoas de todas as classes sociaes.”
O texto cita a entrega de um “memorial” a Borges de Medeiros, o que significa que foi entregue com o abaixo assinado os motivos para que Pedras Brancas se tornasse a sede do novo município.Continua...
“Hoje, às 11 horas na praça Gomes Jardim, haverá nova reunião popular, afim de se tratar da localização da sede do municipio, devendo falar, entre outros oradores, o dr. Paulo Hecker e o sr. Carlos de Moura e Cunha. Para abrilhantar este acto, foi contractada uma banda de musica, que seguirá daqui.”
Os comícios iniciaram no “Cine Teatro Gomes Jardim” e logo em seguida passaram para a Praça Gomes Jardim devido ao grande número de participantes, aproximadamente 2 mil pessoas. Em 14 de setembro de 1925, no Clube Republicano Carlos Barbosa, localizado na Av. 7 de Setembro (hoje estacionamento de um supermercado), O Dr. Pio de Almeida, Secretário Interino do Interior, deu a notícia de que o presidente Borges de Medeiros autorizava um plebiscito para a escolha da sede do novo município. Importante salientar que este comunicado gerou intensa movimentação política tanto em Pedras Brancas quanto Barra do Ribeiro.
A figura de Júlio Ostrowski (citado como baluarte da vitória, por Gastão Leão), como delegado-emancipacionista por Pedras Brancas, na região de Mariana Pimentel foi fundamental, pois os discursos feitos por ele, em polonês, atingiram justamente a população que determinou a vitória no pleito. O Dr. Gastão Leão discursou em italiano a fim de passar a mensagem emancipacionista para as famílias de origem Italiana. Também, houve a publicação no idioma alemão, de um discurso do Dr. Gastão Leão. As estratégias de comunicação utilizadas pelos pedrenses, para com a população imigrante da região, surtiram um efeito decisivo rumo à vitória.
Finalmente em 20 de setembro de 1926, ocorreu o plebiscito que consagrou Pedras Brancas como sede do município com uma pequena margem de 22 votos sobre Barra do Ribeiro. O Decreto de n° 3.697 de 14 de outubro de 1926, assinado por Antônio Augusto Borges de Medeiros, cria o município sob a denominação de Guaíba. A mudança do nome de Pedras Brancas para Guaíba não foi muito bem aceita pelos pedrenses, porém, Borges de Medeiros procurou um nome neutro para o novo município a fim de minimizar o descontentamento dos amigos barrenses.
De 14 de outubro até 31 de dezembro de 1926, atuou como Intendente Provisório indicado por Medeiros, o bacharel em Direito João Pompilho de Almeida Filho a fim de organizar a primeira eleição para o cargo de Intendente Municipal de Guaíba. Em janeiro de 1927, Inácio de Quadros (conhecido por Cel. Nassuca) assumiu o cargo.
Quanto à origem do atual nome do município, dentre as várias interpretações existentes, a de Theodoro Sampaio, referida por Souza Docca em: “Vocabulário Indígena na Geographia Riograndense, informa que “Guahyba” vem do tupi “gua-y-be”, que significa “baía de todas as águas”.
No decorrer das décadas terminaram por se emancipar de Guaíba, os distritos de Barra do Ribeiro (1958), Eldorado do Sul (1988), Sertão Santana (1992) e Mariana Pimentel (1992).
Há 94 anos o doutor Gastão Leão, em um de seus discursos, afirmou que “os gestores deveriam viver para o município e não do município”. Ao expressar tais palavras o líder emancipacionista mostrou que o compromisso com a administração pública necessita, por princípio, caráter ético e moral digna do cargo, explica também que a qualidade humana dos que almejam tão importante tarefa se revela mais pelas atitudes do que pelas palavras.
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