O texto de hoje foi motivado pelo desabamento de mais um frontão e parede do antigo prédio do Matadouro São Geraldo, ocorrido nesta última semana. O prédio e sua história são admirados, evocados em poesias, fotografias, eventos e até mesmos em impressos oficiais do município. Há um consenso sobre sua importância tanto entre os moradores locais como também de visitantes que passam por nossa cidade.
A história possui um compromisso com o passado. Todavia, o historiador não volta o seu olhar para fatos ocorridos sem critérios metodológicos, analíticos e comparativos, sem colher dados, sem cruzar informações advindas de diferentes referências. Desconfia das fontes, levanta questionamentos e responde algumas perguntas feitas no tempo presente.
A memória, parente muito próxima da História e tão importante quanto, prefere atender as vontades do presente com os seus narradores carregados de lembranças. Visa necessidades urgentes de preencher o imaginário, de acalentar afetos, de revisitar entusiasmos e alegrias, expressa sentimentos acumulados, muitas vezes, também saudosos e doloridos. Possui autonomia em relação à História, contudo, por sua natureza de ser incansável falante, torna-se por vezes, fonte indispensável à pesquisa histórica.
A identidade cultural é construção permanente e coletiva. Resulta das relações com o meio e os saberes e fazeres que nele se encontram. É o conjunto de elementos da linguagem, que permite aos indivíduos sentirem-se pertencentes a um lugar e a seu modo de ser. A identidade cultural une e fortalece um pequeno grupo de pessoas ou mesmo uma Nação.
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O Patrimônio Histórico e Cultural, pode ser material, como um prédio ou imaterial como, por exemplo, um rito religioso. Como a palavra diz, patrimônio é algo herdado, é uma herança deixada para alguém e para o futuro. No caso, essa herança é o conjunto dos bens culturais, testemunhos de inestimável valor afetivo para grupos étnicos e culturais. São considerados como pontes que ligam o passado e o presente. Por incrível que pareça, o seu maior desafio é atingir as gerações futuras, perpassando por encontros e desencontros conceituais, políticos e administrativos.
Existe algo que justifica todo o esforço para manter viva a história e a memória dos lugares e suas representações materiais ou imateriais. É o compromisso e a responsabilidade que o tempo presente possui diante do gerenciamento daquilo que é importante para todos, isto é, para o coletivo. Há um paradoxo criado pelo confronto entre o compromisso e o respeito que se deve ter com o que é do coletivo e a gestão daquilo que pertence ao mesmo coletivo. E é aí, justamente nesse ponto, que estamos pecando há séculos no Brasil, a gestão. Essa premissa não é limitada ao assunto ao qual estamos falando, atinge todas as áreas da vida em sociedade no nosso país. Todavia, voltemos ao nosso assunto, história, memória e patrimônio cultural. Os indivíduos organizados dentro da estrutura social, política e administrativa é que deixarão as suas marcas através das suas escolhas, incluindo a escolha do modelo de gestão a ser implementado.
O CASO DE GUAÍBA
Então, em Guaíba, que escolhas estamos fazendo? Manter as lembranças e o patrimônio histórico e cultural da cidade ou condená-los ao esquecimento eterno. Ao decidirmos pela morte da memória social e pela falta de ações mínimas para proteger justamente o que nos identifica como guaibenses, abrimos os flancos da história e possibilitamos imediatamente a entrada de intenções duvidosas e por que não dizer, demagógicas. A estratégia de fragilizar o espírito de um lugar ou de um povo, tem sido usada há séculos para abalar os alicerces culturais. O amálgama da resistência é dessa forma colocado à prova e renunciamos as potencialidades locais em detrimento de uma “salvação” que venha de fora e assuma o controle e os destinos da cidade, tanto política como economicamente.
Por outro lado, se optarmos por um esforço conjunto, para salvaguardar o patrimônio histórico e cultural, surge a possibilidade de diversificar os empreendimentos na cidade. Pequenos, médios ou grandes empreendedores estarão dentro de uma nova possibilidade de desenvolvimento vocacionado, inspirados nos recursos e potencialidades locais e regionais, base fundamental para o turismo histórico e sua complexa rede de funcionamento. Como podemos perceber, o patrimônio histórico não se resume em falar somente da história, de aspectos socioantropológicos ou mesmo filosóficos, mas abre-se aos campos da economia, da política, da gestão administrativa e do empreendedorismo. Para se chegar a isso é necessária uma mudança de paradigma quanto ao modelo de desenvolvimento da cidade. Como fazer isso? Novamente caímos na velha questão: o modelo de gestão administrativa e como o ideário político esteve sendo aplicado nos 94 anos da história de Guaíba. Voltando aos questionamentos: será que existe um caminho? Temos prestado a atenção nesses aspectos? Focamos diretrizes ou indivíduos concorrentes à cargos políticos?
Essa percepção nos leva a um campo político e filosófico. E para exemplificá-la, cito Ramos (2004), através da seguinte ideia: o campo do Patrimônio Histórico e Cultural, será um eterno campo de disputas políticas.
A partir das colocações acima, convido os leitores desta coluna para fazerem as seguintes reflexões:
Por que Ramos pensa isso?
O destino dos patrimônios materiais e imateriais estão desvinculados dos modelos de gestão e das ideologias políticas?
A não preocupação com os bens culturais é porque eles não constituem uma categoria importante para a vida em sociedade? Portanto, para os políticos nunca serão prioridade?
Evidenciar a riqueza histórica, artística e cultural de um bem que possui relevância coletiva, interfere nas vontades individuais?
Essas vontades seriam dos proprietários desses bens?
Essas vontades seriam de indivíduos ou de grupos que olham para as medidas legais de preservação, por exemplo, de um prédio histórico e de seu entorno, como sendo o fim de uma oportunidade financeiramente rentável?
Quantas pessoas a não preservação patrimonial irá beneficiar? Que forma de benefício será esse?
Quantas pessoas a preservação patrimonial irá beneficiar? Que forma de benefício será esse?
Guaíba é um município o qual não merece ter seu patrimônio histórico, artístico e cultural preservado?
Existe legislação específica para dar conta do tema preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural em nossa cidade? Se existe, por que escolhemos até agora deixar morrer muito de nossa história e memória?
PARA CONHECER MAIS
Para os que desejam aprofundar o assunto, é bom conhecer a Lei Orgânica do Município, Capítulo XI, DA ORDEM ECONÔMICA E SOCIAL, SEÇÃO II, DA EDUCAÇÃO E CULTURA, Art. 161, e seu parágrafo único. Também, sugiro a leitura da LEI Nº 2146/2006 (define os objetivos da política de desenvolvimento urbano, rural, social, ambiental, econômico, histórico-cultural e industrial e institui o plano diretor de planejamento e gestão do município de guaíba e dá outras providências), Art. 102 ao Art. 108 (Disponível em:<www.guaiba.rs.gov.br>. Acesso em: 17/07/2020)
Além disso, temos a Constituição Federal e importantes Declarações, Resoluções e Compromissos encontrados nas Cartas Patrimoniais – UNESCO (Disponível em: <http://www.iphan.gov.br/>. Acesso em:17/07/2020)
Bem, se existe toda essa legislação, convido novamente os leitores para novas reflexões e para isso é importante dizer que há 36 anos existe em Guaíba, estruturas básicas administrativas e legais voltadas a ação preservacionista:
Será que durante esses 36 anos da criação da Secretaria de Turismo, Desporto e Cultura e por conseguinte da Lei de Tombamento Municipal (1984), houve tão pouco a ser feito?
Será que as gestões públicas se deixaram levar por algum tipo de pressão, como por exemplo, a especulação imobiliária?
Criamos todas as Leis necessárias para facilitar e incentivar a preservação patrimonial?
Apoiamos os proprietários para que possam cumprir com a sua responsabilidade em manter os bens culturais em boas condições?
Houve a devida atenção às políticas públicas no que tange à Educação Patrimonial?
As Secretarias Municipais, com afinidade pelo assunto, Patrimônio Histórico e Cultural e Patrimônio Natural, entenderam que deveriam trabalhar em conjunto, inclusive com a participação da comunidade como prescreve a nossa Lei Orgânica?
As políticas de governo, nesses 36 anos, agiram pensando na manutenção de políticas públicas, visando a permanente informação e educação patrimonial para a comunidade?
Um governo ao suceder o outro, começou tudo de novo ignorando o que já havia sido feito ou simplesmente desconsiderou o assunto cultura e patrimônio histórico?
Há 36 anos existe uma legislação específica voltada à preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural em nosso município... Isso nos faz pensar e muito.
Claro que ao longo do tempo, o município foi aos poucos e lentamente qualificando seu quadro técnico e isso refletiu nas decisões e ações tomadas, assim como, também refletiu quando as decisões políticas se sobrepuseram às técnicas.
Quanto à comunidade guaibense, ao longo desse tempo, apenas tenho a dizer que, só cuidamos daquilo que conhecemos e aprendemos a amar. Chamo a atenção para essa questão, pois muitas vezes, ouvimos os gestores reclamando da falta de colaboração da comunidade, com frases do tipo: “o povo não ajuda”, “o povo destrói tudo”, porém, como colaborar com aquilo que não se conhece? Fica mais essa pergunta.
QUAL SERÁ A NOSSA ESCOLHA?
O Matadouro e Saladeiro São Geraldo é um importante patrimônio arquitetônico e histórico do município de Guaíba e do Estado do Rio Grande do Sul. Por sua beleza arquitetônica, pela paisagem que ocupa, pelo que representou para a vida econômica, social e política de Guaíba e do RS, merece um melhor tratamento. Não podemos esquecer que este empreendimento foi um dos principais argumentos para que a sede do novo município que estava por ser criado, ficasse com o distrito de Pedras Brancas e não com o distrito da Barra do Ribeiro.
A comunidade guaibense e visitantes, têm expressado o quanto desejariam ver o Matadouro São Geraldo fisicamente salvo e simbolicamente ressignificado, atendendo às necessidades de um uso que possibilite a aproximação de todos com as belezas ali existentes. Todavia, a preservação passa por várias etapas e o Tombamento é apenas uma delas.
O Matadouro é uma joia preciosa, possui um valor histórico imensurável. Todavia, possui um valor mensurável, que é o valor econômico, o valor de mercado. Temos aí mais um paradoxo. Esse valor econômico e sua autossutentabilidade tem sido citado como uma dificuldade para qualquer ação em prol de sua preservação.
Existe um problema complexo. Saberemos equacioná-lo? A quem cabe essa responsabilidade? Estas questões pertencem somente ao campo político administrativo? Somente ao proprietário? E nós cidadãos? Qual o nosso papel neste contexto? A legislação responde. Pensemos sobre...
O MATADOURO SÃO GERALDO – BREVE HISTÓRICO
O início da construção do prédio do Matadouro e Saladeiro São Geraldo, da empresa privada, Frederico Linck S.A., se deu na década de 1920, vindo a ser inaugurado em 1927. O projeto arquitetônico foi realizado pelo arquiteto Christiano de la Paix Gelbert (1899-1984) e por estar diretamente relacionado com uma das principais atividades econômicas do Rio Grande do Sul, tornou-se um dos mais importantes e modernos estabelecimentos do ramo. Como estrutura do gênero, foi a última a ser construída à margem direita do lago Guaíba. Para o município de Guaíba (emancipado de Porto Alegre em 14/10/1926), convergia grande parte do gado bovino, trazido de diversas localidades do estado em direção aos matadouros existentes na época. Uma de suas características relevantes e que o distinguia dos demais matadouros de Guaíba e da região, foi o fato de dominar todo o processo de produção, isto é, da criação ao abate do gado. Abastecia a capital gaúcha com carne bovina e seus derivados e outros lugares do Brasil, principalmente com o charque. Encerrou suas atividades em 1972 e permanece até hoje desocupado. Atualmente, resta somente o prédio principal do grande complexo que compunha a empresa Frederico Linck S.A.. Seu entorno guarda os alicerces das demais benfeitorias. Por sua relevância histórica e beleza arquitetônica, em 1999, o prédio foi tombado como Patrimônio Histórico do município de Guaíba e em 03 de abril de 2012, foi publicado no Diário Oficial do Estado, a Portaria de Tombamento Estadual do Matadouro e Saladeiro São Geraldo.
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