Guaíba realmente é uma caixinha de surpresas.
Dando continuidade ao nosso mergulho no setor cultural da cidade, vamos conhecer uma parte da brilhante trajetória do Produtor audiovisual e ator Eduardo Teixeira.
Tenho certeza de que vocês vão adorar esse bate papo muito interessante.
Então te ajeita na cadeira porque lá vem história!
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DRONE CULTURAL - Conte um pouco sobre a tua trajetória no audiovisual. Como a arte, particularmente o cinema, entrou na tua vida?
EDUARDO – Certamente a minha relação com o audiovisual começa no contato com a televisão. Nasci no ano de 1990, então a minha infância toda aconteceu nos anos 90, uma época em que a TV aberta se deleitava com sua hegemonia como mídia de entretenimento. Eu assistia desenhos animados; os “enlatados americanos”, mas o que eu mais gostava eram as novelas. Eu as assistia atentamente, acompanhava as tramas e sabia nome de atores, autores e ficava na expectativa para saber qual novela seria a substituta da que estava no ar.
Primeiramente eu queria ser ator, queria fazer parte daquelas novelas, queria viver aquelas histórias. Mas como nunca tive pessoas da minha família ligadas à arte, não sabia como ser um ator, aonde estudar, o que deveria estudar e aonde poderia ir. Lembrando que era anos 90, onde a internet ainda era rara e poucas escolas de formação de atores existiam em Porto Alegre. Na adolescência, acabei fazendo alguns cursos de atuação e me aventurei a ir para São Paulo, realizando assim alguns testes como ator. Atuei em um curta-metragem e fiquei apaixonado com os bastidores de um set de filmagem profissional. Com isso, acabei decidindo ir para atrás das câmeras e voltei para o Rio Grande do Sul, onde estudei e me formei em Cinema.
DC – Para ti, o que é o cinema?
EDUARDO – O cinema para mim é coisa séria. Eu respeito, admiro e me encanto cada vez mais. Quando eu estou em um set de filmagem é como se eu estivesse em um templo. Eu me transformo e amo este lugar. Me dá a sensação de que eu estou fazendo a coisa certa e me sinto em casa. Eu não assisto à muitos filmes. Assisto poucos e bons (na minha opinião, hehe). Teve uma época que fazia maratonas para estar sempre bem atualizado. Mas isso é matematicamente impossível. Aí eu pensei: “quer saber? Eu não sou crítico de cinema nem nada para me matar de assistir filme!”. Aí eu parei. Eu seleciono bem o filme para assistir e assisto. Mas assisto mesmo. Com respeito à obra. Com atenção aos detalhes, sem interrupções e com dedicação. Fazer filme e assistir filme para mim é coisa séria!
DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração?
EDUARDO – As minhas inspirações vêm de todos os lugares e ao tempo todo. Vem de uma conversa que eu ouvi num ônibus. Vem de uma matéria que eu li na internet. Vem de uma cena que eu li em um livro. Vem dos filmes, das séries, das novelas……
Vem de todo lugar. Mas as histórias que mais me encantam são aquelas que são contadas pelas pessoas “comuns”, do nosso dia-a-dia. Para mim o cinema só funciona quando existe a identificação. E como contador de histórias eu quero contar uma história que toque alguém, eu quero que as pessoas que assistem aos meus filmes sintam-se representadas. Não representadas em tudo e não sempre. Mas é bom demais quando alguém assiste algo que tu produziu e diz assim: “Verdade, eu já passei por isso” ou “Verdade, o meu irmão viveu essa situação”. E é na busca dessas frases que as pessoas assistem a tantos filmes, para serem tocadas e despertar seus sentimentos.
Adoro histórias que trabalham o psicológico, os medos humanos. Também gosto de filmes que abordam sonhos e pesadelos. Os diretores David Linch e Wes Craven são grandes inspirações para mim. Gosto do suspense, terror e estranhamento que eles constroem em suas obras.
DC – Qual é o maior desafio para quem faz cinema?
EDUARDO – Dinheiro. É muito caro fazer filmes. Por mais de “guerrilha” que seja o teu filme, tu vai gastar. Tem filme de todo o tamanho, preço e tudo mais. Mas é difícil fazer filmes. É por isso que respeito tantos esses artistas, entende? Eu conheço pessoas, colegas de faculdade, que trabalharam na produção de filmes e nunca receberam pelo seu trabalho. E apesar desse filme em questão ter sido finalizado, ele não foi distribuído em circuito comercial. Foi para uns poucos festivais e parou por aí.
Fazer cinema é muito complexo, existe uma cadeia que vai muito além de rodar o filme. Além do mais, o Brasil até hoje tem sérios problemas de distribuição. Muitos filmes não são finalizados também, o material fica literalmente engavetado. Mas claro, tudo isso seria contornável com políticas culturais mais firmes e realmente engajadas com a causa. Nossa vizinha, a Argentina, possui uma produção de cinema louvável e digna de inspiração. Precisamos nos espelhar nessas referências e entender onde estamos pecando nisso tudo.
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DC – No início do ano você participou das gravações de um longa, chamado A Noiva. O que você pode contar sobre esse projeto?
EDUARDO - Esse projeto marca o momento em que eu entro em um set de filmagem como "ator" com os dois pés bem firmes no chão. Eu já queria há algum tempo voltar a atuar, mas as circunstâncias da vida da gente acabam adiando alguns de nossos planos. Até que chegou o dia em que eu me encontrei com a escola de atuação para Cinema Take 04. Fiz uma formação de dois anos com eles e o longa.
A NOIVA é o resultado dessa formação. A NOIVA é um projeto incrível que conta a história de dois casais que moram no interior do Rio Grande do Sul nos anos de 1940 vivendo uma vida rotineira. Mas a chegada repentina de uma mulher misteriosa e vestida de noiva na fazenda deles começa a criar conflitos conjugais e eventos sobrenaturais.
Foi um trabalho muito intenso construir meu personagem. Ele se chama Mariano, é casado com Tereza e mora com o irmão mais novo e a esposa dele. O Mariano é o chefe da casa e assume o papel de irmão/pai do irmão mais novo e de marido de Tereza. Eu tive que buscar referências da história do meu pai e do meu avô para construir este personagem, pois ambos foram criados no campo. Até mesmo o chapéu que meu personagem usa no filme é do meu pai.
Também tem o desafio do filme ser de terror, intenso e mexe muito com a fé. O sobrenatural está presente no clima do filme quase o tempo todo. Eu adoro filmes de terror, mas nunca tinha feito um. Certamente me encontrei com este filme.

DC – O que o Cinema acrescentou na tua vida?
EDUARDO – O cinema mudou a minha vida para sempre. Os filmes sempre me fizeram sonhar, acreditar e me divertir. Depois que eu entrei para a faculdade e passei a exercitar a fundo essa profissão, eu comecei a ver o mundo de forma diferente. Eu me sinto muito confortável com a profissão que escolhi. Ela é completa para mim.
O cinema me ensinou um pouco de arquitetura, com todo o trabalho de criação de cenários e composições. Me ensinou a me comunicar, escrever bem e me expressar através do trabalho de um bom produtor. Me ensinou a ser um grande observador da vida quando trabalhei como roteirista e diretor. Me ensinou psicologia através das análises fílmicas e seus significados. E muitas outras coisas mais. O audiovisual permite atravessar diversas áreas do conhecimento quando o exercemos.
DC – Que tipo de aspecto da tua vida tu acha que deve exclusivamente a arte e ao cinema?
EDUARDO – Se não fosse o cinema eu não seria tão observador. Trabalha muita gente em um filme. Tem muitos detalhes que precisam ser cuidados. O cinema me permitiu observar com cuidado os detalhes da vida. E isso é muito bom! Te torna mais empático com as pessoas. Quando se faz um filme você precisa estar muito atento e disponível, o que te torna uma pessoa mais responsável. Eu me tornei um melhor observador do mundo com o cinema, pude entender melhor as pessoas e a natureza das coisas.
DC – Você tem uma relação muito próxima com o Festival de Cinema Estudantil, do Instituto Educacional Gomes Jardim. Podes falar um pouco sobre a importância desse tipo de festival para a consolidação e propagação de cultura no contexto local?
EDUARDO – Este Festival é de uma preciosidade incalculável. Eu tenho sérias dúvidas se eu teria de fato seguido a área do audiovisual se não tivesse feito parte deste Festival. Este Festival permite que as crianças e jovens se enxerguem em uma tela de cinema. Isso não é incrível? Lembra o que eu falei antes sobre o porquê de assistir a filmes? Assistimos para nos ver, para nos identificar.
O Festival busca incentivar os jovens a contar as suas histórias. Isso empodera e ajuda no desenvolvimento desses alunos. Fazer um filme é uma experiência em equipe. Durante a realização dos meus filmes estudantis, eu aprendi muito sobre senso de equipe e família. Para fazer um filme é preciso união. E para crianças e jovens que estão em formação social, a produção audiovisual acaba se tornando uma incrível ferramenta de transformação.
DC – Como a tua família reage em relação ao que ?tu fazes? Como eles encaram a tua escolha e esforço pela carreira? Eles têm uma relação de proximidade ou nem conseguem acompanhar a dinâmica das coisas que você faz?
EDUARDO – Minha família adora e se orgulha muito do que eu faço. Eu sou muito privilegiado por isso, reconheço e valorizo. Comecei a fazer meus filmes estudantis com 13 ou 14 anos. Os filmes foram fazendo sucesso na comunidade, fui ganhando destaque. Quando escolhi cinema para fazer como faculdade foi meio que um caminho natural visto pela minha família. Seria isso ou algo parecido com isso.
Meu pai, minha mãe, meu irmão, minha madrinha, todos eles já apareceram nos meus primeiros filmes. Eles acompanham muito o que eu faço. Sempre que eu lanço um filme ou estou em algum projeto eles sempre dão um jeito de participar ou colaborar. No filme A NOIVA, a loja dos meus pais, por exemplo, foi apoiadora do filme. Entre outras ajudas até mesmo como força de trabalho eles sempre me deram.
DC –? aba que a maior parte do nosso círculo de amizades é formado por pessoas com os mesmos interesses. Mas sempre temos aqueles amigos de fora do meio que ficam curiosos sobre nossos trabalhos e, muitas vezes, possuem uma visão romântica demais sobre o que fazemos. O que os teus amigos e teus familiares costumam a falar e perguntar sobre a tua carreira e profissão? Te perguntam quando tu vai para a Globo?
EDUARDO – Sinto que ainda tem uma parte da família e de algumas pessoas próximas uma visão glamourosa em relação ao cinema. Ou seja, “quando o Eduardo vai para o Rio trabalhar em uma novela da Globo?”. Mas acredito que isso seja uma visão da maioria das pessoas. Nós como artistas também precisamos conversar com essas pessoas e desmistificar essa fantasia. Buscar explicar que ator, produtor audiovisual e os demais artistas são trabalhadores como todos os outros e é uma profissão como qualquer outra. Nem tudo é só espetáculo, tem muito trabalho em jogo. Não me sinto menos importante por não ter um contrato com a rede Globo. Amo o que faço e sempre procuro deixar a minha identidade em cada projeto que faço.
Ser ator e produtor é uma carreira muito difícil. Exige muito de nós e nem sempre temos o retorno que merecemos. As pessoas que estão de fora não percebem isso. Os espaços ainda são poucos para os muitos que precisam. A gente tem que estar sempre se reinventando. Isso também é do artista. Ser meio camaleão. Mas ao mesmo tempo, merecemos um ambiente mais seguro de trabalho. Um amigo me disse uma vez que eu devia sair do Brasil e ir para Hollywood. Mal sabe ele que existe muitas coisas em jogo. Muitos ligam Hollywood a um grande sucesso na profissão. Mas não dimensionam o trajeto que deve ser feito até se chegar lá.
DC – Você pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória no audiovisual, que tenha te emocionado além do "normal"?
EDUARDO – Claro. Foi durante as gravações do filme A NOIVA, em janeiro deste ano. Tem uma cena em que o personagem Chico, que é meu irmão no filme, está se afogando e eu entro no lago para salvar ele. Todos já tinham gravado a cena no lago, menos eu. Quando eu cheguei lá e olhei o lugar, imaginei: “Meu Deus, como eu vou fazer isso?”. Eu olhei para os lados e vi que estava tudo pronto. A equipe toda alinhada. Todos nós atores figurinados, com nossas roupas dos anos 40.
A sensação que eu tive então foi que estava tudo certo. Era uma natureza tão organizada para fazermos aquilo. Então nós rodamos a cena, e quando terminou eu estava esbaforido de tanto correr e nadar. Eu sentei ao lado do diretor do filme e pensei: “é…, nós fizemos isso. E foi incrível!”. Nesse momento eu senti uma enorme sensação de paz e senti que eu estava andando no caminho certo.
DC – Falando em emoção: para ti, o que é estar em cena?
EDUARDO – Estar em cena para mim é a melhor sensação que existe. Seria mais ou menos como você estar num transe, mas consciente, por mais paradoxal que isso possa parecer. Porque você está entregue para uma situação “emprestada”, onde você vive algo na pele de alguém que não é você. Para que isso funcione você precisa “sair de você”. Mas ao mesmo tempo tem o nosso limite humano que não permite fazer isso 100%. Você precisa lembrar “de leve” que está num filme ou em cima de um palco. Você não pode cair do palco ou bater na câmera durante a cena, pois isso seria um desastre. Cada vez mais eu amo essa profissão, é algo único.
DC – Tens algum ritual que execute antes de entrar em cena? Como é a tua rotina em dia de gravação?
EDUARDO – Depende muito do gênero do filme. Mas geralmente eu gosto de ficar sozinho um pouco antes da cena. Na Noiva, que tinha um clima "bem" pesado eu fiz muito isso. Eu procurava ficar afastado do set, longe mesmo do cenário que a cena ia se passar. No cinema, você espera muito e grava só um pouco. Isso pode te desconcentrar. Mas logo antes de começar a cena, eu já entro no cenário e começo a tocar no que está em cena. Sentir aquele ambiente. A música também me ajuda muito na concentração. Procuro ouvir algo que me remeta a alguma sensação que preciso na cena.
DC – Por mais que nos preparemos, as saias justas estão sempre presentes. No meio de tantas coisas lindas que já aconteceram ao longo da tua experiência, qual foi o maior perrengue que tu passaste em cena ou em um set de gravação?
EDUARDO – Teve uma vez que eu estava fazendo uma figuração para um comercial de televisão. A cena se passava em um cassino. Eu estava vestido de garçom e deveria passar em um corredor com uma bandeja com taças de coquetéis e oferecer para uns clientes. A bandeja estava muito pesada, com muitas taças e eu acabei derrubando uma delas sobre a bandeja molhando toda a minha roupa. Foi aquela correria para arranjar outra roupa e limpar tudo. Sem falar que parou a equipe inteira e atrasou a gravação. Morri de vergonha, mas enfim, acontece.
DC –?Sei que, além do universo do audiovisual, você também tem buscado mais experimentações no Teatro. Acho muito importante que o artista tenha essa disponibilidade para se desafiar e aperfeiçoar. Tenho acompanhado de perto essas tuas incursões no mundo do Teatro e vejo uma ótima adaptação de estilos. Quais são as principais diferenças e quais estão sendo os teus maiores desafios para encontrar o tom certo para os dois tipos distintos de atuação??
EDUARDO – Eu trabalhei muito pouco com atuação em teatro, preciso e quero estudar mais. Atuando no cinema, eu percebo que nos encontramos em muitas situações em que esperamos muito para entrar em cena. Isso faz parte da dinâmica do cinema. Mas às vezes isso se torna muito difícil para nós buscarmos ou até resgatarmos as energias de momentos anteriores. Sem falar que as cenas dos filmes não são gravadas em ordem, ou seja, pode acontecer de você gravar o fim do filme e só na última diária você gravar a cena inicial do seu personagem. O processo de criação do ator exige um processo fragmentado e de constante reprogramação. Com isso, algumas emoções podem acabar se perdendo ao longo do filme.
No teatro, às vezes eu tenho a sensação que as coisas acontecem de forma mais orgânica. Entrar no palco para uma apresentação é como uma montanha russa. Você está em cena, está acontecendo e de repente acaba. E a cada apresentação você pode ter um feedback e melhorar as coisas ou simplesmente fazer diferente. No filme já não. Depois de montado é para sempre. Então no teatro eu estou aprendendo mais a relação do corpo, do espaço e muito sobre a voz. A voz é um grande desafio para um ator que estava tão acostumado com os microfones.
DC –?Você também trabalha com oficinas voltadas ao audiovisual. Como é a experiência de passar esses conhecimentos?
EDUARDO – É muito recompensador. Eu acredito que o fazer audiovisual nos proporciona aprender sobre diversas áreas do conhecimento. Gosto de enfatizar que o audiovisual nos possibilita melhorar a nossa comunicação e a nossa capacidade de trabalhar em equipe. Procuro direcionar mais para este lado nas aulas, principalmente quando os alunos são crianças. As crianças antes de fixar a ideia de serem famosas, como os grandes youtubers que sei que muitos querem ser, devem aprimorar sua formação como cidadãos. O ensinar audiovisual possibilita isso, é uma grande oportunidade de se expressar. Passar o conhecimento é algo que valorizo muito e faço com gosto.
DC –?Esse com certeza é um dos momentos mais confusos que a classe artística já enfrentou. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, deixou nossas atividades suspensas. Estamos sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma.?
Na semana passada encerrou a oficina de Produção de uma obra audiovisual, ministrada por ti, em parceria com o também talentoso Rafael Garcez, dentro das atividades do Ponto de Cultura Espaço Livre Biguá.
A oficina de vocês começou uma semana antes do decreto que limitou as nossas atividades.
Inevitavelmente, vocês foram obrigados a alterar o cronograma e a forma de execução do projeto.?
Conta para nós como está sendo esse momento. Nos próximos dias, vocês repetirão a parceria e darão início a mais uma oficina no Biguá. Dessa vez voltada para a edição de vídeos. Como está funcionando o processo de adaptação? Qual está sendo a principal dificuldade encontrada e quais pontos estão mais te surpreendendo positivamente?
EDUARDO – De fato estamos vivendo um momento histórico. O momento que estamos vivendo agora será estudado pelas próximas gerações nos livros de história. Nós, artistas, trabalhamos para o público. Se não podemos atingir este público, o nosso trabalho perde a razão de ser.
O artista é um camaleão e vai sempre buscar se reinventar. Por mais difícil que seja o momento que estamos passando, com crise política e também sanitária, os artistas precisam resistir ainda mais.
Para mim, não foi fácil adaptar o modelo de aula que era para ser presencial para um modelo à distância. É muito importante para mim, olhar nos olhos do aluno para perceber se ele está ou não compreendendo a mensagem que passo. Essa troca fica muito mais difícil mediada por um computador. A energia e o contato com o grupo de alunos também é muito importante. Sem falar que as atividades em grupo, tão importantes para o audiovisual, não podem ser realizadas. Mas é importante frisar que não desistimos. Nos adaptamos. Estamos buscando e estudando maneiras de chegar cada vez mais próximos sem chegar perto. A segunda temporada das oficinas, onde trataremos de edição de imagens, acredito que será mais tranquila de desenvolver no sentido que a edição é um trabalho mais solitário comparado com a gravação de um filme. O diferencial é que esta temporada também foi pensada desde o começo de forma virtual, o que faz diferença no conjunto final do curso.
DC – Ainda aproveitando um pouco mais a temática da pandemia, na tua opinião qual é o papel da arte nesse momento?
EDUARDO – Primeiramente não silenciar. Não baixar a cabeça. Sabemos que os cinemas, teatros e demais centros artísticos se encontram fechados. Ao mesmo tempo, as pessoas, por exemplo, estão consumindo mais filmes e séries por estarem mais em casa. Então, elas estão usufruindo da arte. E é importante que os artistas enfatizem isso. Lembrar as pessoas que a arte está presente em muitos lugares e que nós somos trabalhadores e temos o nosso valor.
Acredito que seria o papel da política pregar uma educação artística melhor estruturada para a população, construindo uma imagem de relevância social do trabalho do artista. Mas como podemos perceber, este cenário está longe do ideal. Li ultimamente uma notícia que alguns espetáculos da Broadway estavam disponíveis para serem assistidos na internet. Este é um exemplo de não silenciamento. O artista é aquele capaz de se reinventar.

DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade?
EDUARDO – Eu busco estimular a empatia. Eu carrego a empatia muito forte comigo e busco estimular ela no próximo. Eu converso com muitas pessoas. E percebo muitas pessoas perdidas. Eu já percebia isso antes, mas com a pandemia me parece mais evidente. Eu busco ouvir o que elas têm a dizer, muitos não tem nem quem os ouça. É muito complicado. Tem muita gente carente por aí. Carente de tudo. De comida, de educação e de expressão. Tem pessoas que não sabem nem o que precisam. E eu falo de coisas básicas, como ter a sua própria identidade. Se tivermos mais empatia, acredito que podemos criar um espírito de comunidade mais efetivo.
DC – Uma boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação, através da Lei Aldir Blanc, do dinheiro que estava represado e não vinha sendo investido.
Esse dinheiro que estava parado e que só pode ser investido no setor cultural, virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade.?
Como você vê a importância dessa lei nesse momento e qual é a tua expectativa atual com relação a isso?
EDUARDO – Certamente a Lei Aldir Blanc é urgente à classe artística e me senti aliviado quanto ao seu anúncio, visto que não vemos ultimamente cenário otimista algum vindo do governo federal.
Eu nasci e passei a maior parte da minha vida na cidade de Guaíba. Sinto que ela ainda está engatinhando em meio às políticas culturais. Tive a honra de fazer parte dessa história, durante a primeira formação do conselho de políticas culturais do município e pude sentir de perto que a cidade tem vontade de fazer diferente. Mesmo em meio a esta pandemia, espero que, com a Lei Aldir Blanc, Guaíba possa aprimorar suas ferramentas de políticas culturais para o município. Que venha esta oportunidade com energia para trilhar um caminho próspero para o futuro cultural da cidade.
DC – Quais sonhos você alimenta para o seu futuro artístico/profissional?
EDUARDO – Eu quero focar fortemente na atuação. Quero continuar estudando, me aperfeiçoando e exercitando a atuação, principalmente no teatro. Tenho interesse em voltar a dirigir no audiovisual que é algo que eu gostava e me sinto seguro em fazer.
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DC – Tem algum personagem que tu gostarias de interpretar?
EDUARDO – Não há um personagem em específico. Mas eu penso em climas de histórias. Gosto de histórias que envolvem dramas familiares, por exemplo. Gosto também de personagens envolvidos em grandes tensões emocionais, do tipo traumas que devem superar.
DC - Qual tipo de filme tu gostaria de montar? Nos teus sonhos mais malucos, por onde tua imaginação viaja?
EDUARDO – Eu gostaria de fazer mais filmes em Guaíba, minha cidade. Meu sonho sempre foi ter mais produção audiovisual na cidade de Guaíba. Mas não é transformar a cidade em algo panfletário através dos filmes. Não é isso. É tornar a cidade em algo natural e orgânico para os filmes, pois temos um lugar lindo e uma secretaria de cultura disposta a participar junto.
DC – Como você gostaria de ver o cenário cultural guaibense nos próximos anos?
EDUARDO – Eu gostaria de ver os nossos segmentos culturais mais unidos. Com a criação do Conselho de Cultura houve um impulso inicial. Eu gostaria de ver a praça Gastão Leão, por exemplo, com uma agenda de eventos para todos os finais de semana, com números musicais, de dança, teatro e cinema ao ar livre.
DC –?Para quem tem vontade de seguir esse caminho, que conselho você pode dar?
EDUARDO – Não pense apenas no glamour e na fama como símbolo da sua profissão artística. Seja um ator, um cineasta ou um dançarino, por exemplo, você precisa trabalhar muito, se dedicar e não é um caminho fácil. Ao mesmo tempo, não há motivo para se desesperar, pois é uma profissão e deve ser vista como tal. Outras profissões também têm seus desafios. Faça o seu trabalho com verdade e com honestidade. Esse é o meu principal conselho.
DC –?Alguma referência para seguir, ler ou assistir?
EDUARDO – Eu gosto de tramas que mexem com o psicológico humano. O livro Crime e Castigo, de Dostoiévski, é um dos que eu mais gosto. O diretor David Linch trabalha muito com o psicológico dos seus personagens nos seus filmes também. Adoro o filme Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos) dele. Também tenho acompanhado o trabalho do cineasta brasileiro Marco Dutra. Ele trabalha com o terror de maneira muito contemporânea e humana. O trabalho dele me impressiona pela sua originalidade.
DC – Uma última pergunta: O que é sucesso?
EDUARDO – O sucesso é estar bem com o que está fazendo e sentir que é importante, se sentir em paz. Eu me cobrava muito antes. Com o tempo descobri que a arte é muito mais do que “trabalhar na Globo”, como muitos pensam. Com o tempo, a gente vai descobrindo os nossos potenciais. A arte é muito ampla, é infinita. Existem vários ramos de trabalho e especializações. Me sinto completo quando eu atuo, por exemplo. Também quando eu dou aulas ou quando estou na produção de um projeto. Eu sinto que sou assim mesmo, eu circulo pelos ambientes e me sinto bem assim, me sinto confortável em fazer isso.
DC – Estamos encerrando a nossa conversa.
Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo comigo.
Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade. Gostaria que você deixasse um recado para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos.??
Pode falar o que quiser.
EDUARDO – Eu gostaria de dizer que sou grato à comunidade da cidade de Guaíba. As pessoas que mais me deram força para seguir a minha profissão são dessa cidade. Tenho muito interesse em contribuir para o cenário cultural daqui, de estar à disposição para o movimento cultural. Estamos passando por um momento difícil onde muitos de nós artistas acabamos repensando as nossas carreiras. Acredito que a arte é muito maior que isso tudo que está acontecendo e vamos superar. Agradeço a oportunidade de contar um pouco da minha história para o Drone Cultural.
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E aí, o que você achou desse bate-papo?
Gostou de conhecer um pouco da trajetória do Eduardo Teixeira?
Quantas coisas legais, né?
Com certeza é mais uma pessoa que ajuda a fazer nossa cidade um pouquinho melhor através de seu trabalho.
Essa é apenas uma das tantas histórias impressionantes que estão acontecendo em nossa cidade nesse momento?
Quer conhecer outras histórias legais como essa?
Então continua acompanhando essa coluna?
Eu vou ter o maior prazer de contar tudo para você.?
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