Não tenham medo, nem me abominem. Sou crente na Divindade e acredito nas crenças de todos os tipos. Tenho fé, temo ao Grande Arquiteto do Universo, faço minhas orações agradecendo sempre.
Hoje trago um tema curioso, algo que nasceu em nosso estado, faço-o para desvendar esse mistério por traz da expressão malfazeja, de que quando alguém compra algo que lhe desagrada ou que dura muito menos do que o esperado fala: “Também, comprou esse troço marca diabo! “
Ah vão me dizer que nunca falaram ou ouviram essa expressão? Tenho certeza que já ouviram, mesmo que de soslaio, na quebrada da ladeira ou num rapapé de ramada, entre um schotz-polk ou um contrapasso.
Primeiro falarei da expressão “troço”. A gente usa isso pra quase tudo aqui no Sul. Troço vem do espanhol “Trozo” que significa pedaço, uma parte de, então a gente incorporou no vocabulário com um pouco de qualquer coisa, foi passando um tempo e troço é qualquer troço, tudo que eu não lembrar do nome na hora de falar vira troço. “Me dá esse troço”. “Aquele troço ali! “
Tá bem, mas e a “Marca Diabo”, de onde vem essa expressão, se o tal bixo do rabo comprido e das guampas tortas não tem uma fábrica por esse mundo? Não registrada em seu nome, pelo menos.
Vamos puxar um banco ou um cepo, acomodar as carcaças, cevar um mate, fechar um baio e sorver os ensinamentos de Dom Barulho, que ele vem de antanho pra nos brindar com a informação.
Encontro ele de bombacha rota, aquela do tecido cinza claro com riscado, uma alpargatita surrada e a camisa de botão clarinha. Fronte enrugada pelo tempo e a habilidade de enfiar um pé atrás da panturrilha da outra perna, como se fosse de borracha.
Chupa o último suspiro de mate, enche bem a cuia e me passa, avisando pra ir com calma que a prosa se alonga.
Então, como se estivéssemos todos em uma grande roda de mate, sorvam o sumo da infusão e os ensinamentos do Dom Barulho.
“Bueno é sabido que lá em Pelotas tinha um rapaz que era flor de inteligente, chamavam ele até de intelectual. O homem era tão à frente de seu tempo, que só ganhou reconhecimento depois que fechou o paletó preto.
Nasceu em 1865 na Estância da Graça, afinal era neto do Visconde da Graça, virtuoso e respeitado João Simões Lopes, membro de família tradicional da sociedade pelotense.
O neto, apesar de nascer na estância, amar a vida campeira e suas lides, apaixonou-se pelas palavras, à partir de 1888 começa a escrever, mas esse é tema de outra conversa.
Voltemos ao contexto. Esse rapazote era empreendedor, se meteu em muitos projetos e muitas furadas também.
Teve uma fábrica de vidros, uma destilaria e ainda um empreendimento que beneficiava fumo e produzia cigarros.
Para chamar a atenção e se diferenciar no mercado ele colocou a marca de seus produtos de “Diabo”, gerando insatisfação e protestos de religiosos. Foi uma polvorosa na sociedade.
Como todo mundo escutava os padres e a comunidade vivia em função do cristianismo, aquilo foi o suficiente para sucumbir os negócios de Simões Lopes Neto que foi o criador da “marca diabo”.
À partir disso, tudo o que não serve ou não funciona ou ainda tem baixa qualidade ganha a alcunha dos empreendimento do antigo João Simões, o criado da “Marca Diabo”.
Ele ainda montou uma empresa para torrar e moer café, tentou desenvolver um produto a base de tabaco para combater sarna e carrapatos e fundou uma mineradora para explorar prata em Santa Catarina.
Era topetudo o rapaz, mas não tinha muita sorte nos empreendimentos e mesmo sendo letrado e corajoso, entra na década de 1910 alquebrado pelos fracassos empresariais, dando vaza ao seu dom de escritor, mas só veio a fazer sucesso e ter reconhecimento após sua morte.
Ele também acabou sofrendo do mal interno e sendo um próprio “marca diabo” com o perdão da anedota.
Hoje João Simões Lopes Neto é ícone para quem quer conhecer e viajar pelos contos gauchescos e pelas lendas do sul, mas tinha que ser tão dolorido?
E assim encerro a prosa meu neto e seus leitores, me devolve o mate que a garganta tá seca e o pito apagou.
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