A memória da Ilha diante de mim. Gigantesca como as rochas fincadas na terra. Aterradora como as ruínas do presídio, como a grafia nervosa daqueles que decalcaram nas paredes os gritos silenciados à força. A polifonia da Ilha se manifesta. Uma beleza estranha, que nasce das rochas gordas e enormes amparando-se umas às outras, como se as memórias de lá não suportassem o próprio peso.
Caminho por toda a Ilha. Há um constrangimento em meus passos. A liberdade escandalosa declarada por eles sabe que pisa sobre vinte anos de um serviço sujo e fardado. A viagem que faço hoje é uma mentira para a Ilha de antigamente. Ninguém vinha para a Ilha e voltava para a casa no mesmo dia. Há uma parte de mim que nunca voltará.
Cruzo a Ilha de uma guarita à outra. Percorro seus escombros. A memória da Ilha precisa de cuidados. Toda memória é uma ruína da vida. E a vida da Ilha foi talhada para o isolamento. Foi isolada das cidades da volta pela violência dos solos. Renovou a vocação para o isolamento provendo a solidão de prisioneiros nos últimos séculos. A beleza da Ilha nasce deste isolamento: é bela de longe e é bela de perto. A Ilha corrompe a própria vocação, é bela mesmo quando não deveria ser.
Vejo Guaíba de lá: o Morro no Centro cercado pelo concreto. Para o lado direito de meus olhos, o verde das matas que ainda resistem. Para o lado esquerdo, a fumaça densa da fábrica, suas torres e chaminés.
Ouço as histórias da Ilha contadas pelos historiadores. Aprendo sobre a cartografia bela e perversa de sua trajetória, instalada aqui como uma criatura inanimada e ancestral. Fincada entre duas cidades como um desafio ao passado de ambas.
Agora que a Ilha também é minha, compartilho um pouco deste fardo, assumo parte dele como meu. Não escrevi nas paredes do presídio, minhas mãos quase analfabetas de memória. Trago comigo, contudo, o grito daquelas frases. A memória da Ilha fala alto. E não se calará jamais.
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