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Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

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Nem todo diagnóstico é visível

Sobre o caso de agressão ao motoboy

Nem todo diagnóstico é visível
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Esteve circulando nas mídias, na última semana, o vídeo de um motoboy sendo humilhado por um homem num condomínio onde foi fazer uma entrega. Entre as várias coisas que pronunciou o homem, agressões de cunho racial e social. Não me ficou claro o início do desentendimento, como o ocorrido evoluiu àquelas agressões ou ainda se foi algo súbito e gratuito. Fato é que as agressões foram filmadas e veiculadas e a família do agressor posteriormente informou que se trata de um paciente psiquiátrico, diagnosticado com esquizofrenia desde 2017.

Tenho algumas considerações a fazer sobre este fato e os convido a me acompanharem. Antes de mais nada: racismo é crime. Isso não está em discussão. O que o eventual diagnóstico do sujeito levanta, é o questionamento se ele é ou não capaz de responder pelos crimes que cometeu. Segundo ponto: isso não é possível de ser respondido por mera observação do vídeo de poucos minutos. Não há como.

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Esquizofrenia é uma transtorno psicótico (isso significa que há ruptura com o senso de realidade) que afeta aproximadamente 1% da população em qualquer meio, mais frequentemente homens. Com forte base genética, costuma se manifestar na segunda década de vida, em geral em torno dos 18-20 anos. Muitas vezes, o inicio do quadro é lento, com sintomas de retraimento social que podem ser confundidos com sintomas depressivos, são os chamados sintomas negativos. O diagnostico costuma ser feito quando acontece uma crise, ou surto, em que a pessoa fica francamente desconectada da realidade, apresentando delírios (pensamentos persecutórios, de ser controlado a distância ou outros) e alucinações (visuais ou auditivas principalmente), que são ditos sintomas produtivos ou positivos.

A evolução dos quadros de esquizofrenia é crônica, costumam ocorrer crises e remissões. Um paciente tratado de forma adequada e precoce (logo no início dos sintomas) pode ficar assintomático, mas não é incomum que mesmo recebendo tratamento, algum sintoma permaneça e exista uma forma de funcionamento mental com permanentes desconexões da realidade. Por isso não é possível nem descartar, tampouco confirmar esse diagnostico a partir do vídeo. Há sutilezas do pensamento e das motivações da conduta que somente um psiquiatra bem formado, em uma situação clinica ou pericial, apoiado eventualmente em protocolos psicológicos, pode ser capaz de detectar.

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Nem sempre os pacientes seguem adequadamente o tratamento, o que em geral é motivo para agravamento dos sintomas. Essa desestabilização pode ocorrer de forma mais ou menos abrupta, o que seria outra hipótese para um comportamento inadequado ainda que não francamente psicótico de um paciente com esquizofrenia. Isso significa que nem tudo é sempre o que parece.

Não é necessário que ele estivesse acusando o motoboy de ter envenenado sua comida ou de ter sido enviado por extraterrestres para lhe gerar influências negativas, para que esse homem seja eventualmente inimputável (não poder ser condenado por não ter condições de compreender a natureza criminosa de seus atos ou esses atos serem motivados pela condição psiquiátrica existente). Ainda que os delírios esquizofrênicos possam ser mais óbvios como os que citei anteriormente, também podem não ser assim tão evidentes e se formarem a partir das vivências daquele sujeito. É inegável que vivemos numa sociedade racista e essa narrativa social tem sim seu papel em como as relações humanas acontecem, esteja um paciente psiquiátrico envolvido nesta relação ou não.

Outra possibilidade ainda é a deficiência intelectual, que pode derivar de condições psiquiátricas crônicas como a esquizofrenia. O longo tempo de doença pode acarretar rebaixamento ou deterioro das condições cognitivas do sujeito, o que também pode coloca-lo em condição de inimputabilidade. Mais uma vez: não tenho como afirmar se esse é o caso. Cabe a um perito que o examine responder.

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Racismo é crime e psicofobia também. Caso esse seja um termo novo a incorporar ao seu vocabulário, psicofobia é o preconceito contra as pessoas que apresentam algum transtorno mental. Assim como o motoboy não poderia ter sido tratado como foi, o homem agressor também não pode receber linchamento público sem que se confirme sua real condição, ainda que seu comportamento seja absolutamente reprovável. Sejamos justos com ambos.

Comentários:
Luciana Bridi

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Luciana Bridi

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