Amor
O mar verde dos olhos da mulher que amo, onde me protejo, onde moro, onde quero sempre navegar; a casa dos pais: colo que inventamos para a vida adulta; os amigos que sabem e os que nem suspeitam do quanto me salvaram de mim mesmo e do mundo.
Brasil
A voz negra, bela, triste de Cartola como a pele de um amor enlutado, as pernas tortas de Garrincha inventando geografias impossíveis, o canto ancestral de Bethânia como um pássaro que rompe os primeiros silêncios da manhã; (ao mesmo tempo que): zumbis que sugam de Lula e Bolsonaro a energia vital para suas cegueiras civis, aquilo que dá errado justamente pelo que deveria funcionar, uma vocação para o paganismo sufocada pela verborragia cristã.
Cinema
As luzes que imitam o dia e a noite, só que mais verdadeiras.
Eternidade
A semelhança da voz dos pais no timbre da voz dos filhos, alguém que renasce no nome de uma rua, as memórias de todos os amigos, parentes, amantes que seguem pulsando todos os dias como um vulcão silencioso, submerso, mas que, às vezes, exige erupções declaradas em lágrimas, gargalhadas, abraços e alguns impropérios lançados ao deus ou destino responsável pela extinção daquele que nos deixou.
Fé
Hoje sei que sou uma espécie de ateu não praticante, devoto do encantamento das artes, mas já rezei muitas vezes quando guri. Não me lembro da primeira, tampouco da última. Não me arrependo das rezas que fiz, não tenho nada contra religiões, na verdade. O fato de não crer, não me impede de reconhecer a beleza que havia e que há em muitos dos rituais que pratiquei ou que observei ao meu redor. Uma beleza dupla: a primeira nascida dos gestos, os joelhos dobrados, as mãos atadas diante do rosto, os olhos fechados, uma estátua voluntária que certamente alguma energia emana; a segunda, essa alteridade promovida pela reza, um diálogo com o outro, o reconhecimento de que não se é nada sozinho, de que sempre dependemos da alteridade para sermos quem somos – seja ela humana ou sobrenatural.
Literatura
Nascemos uma só vez, mas somos inventados por nós mesmos e pelos outros a vida inteira. A Literatura é o gesto dessa vocação levado às últimas consequências.
Maturidade
No dia que o olho virar enchente, fazer do rosto um leito, e não um dique. O entendimento de que o aprendizado do pranto é muito simples: não há pele que trave o choro, nem tristeza que se eternize.
Refeição
É hora do almoço. O avô assume a cadeira da ponta, como reafirmando sua condição de raiz. Vamos nos dispondo nas demais poltronas: troncos e galhos e frutos de seu jardim particular. Entrelaça as mãos na postura de reza, passeia o olhar sobre a mulher, os filhos e netos, até que estaciona sobre mim. A cabeça confirma num meneio lento que sou responsável pelo pai nosso de hoje.
Saudade
As roupas que jamais deixarão os armários para reencontrarem o mesmo corpo, os instrumentos musicais silenciosos num canto da sala, os talheres que sobram na gaveta da cozinha, as agendas de aparelhos celulares que insistem na manutenção de contatos inexistentes, os retratos espalhados pelos cômodos como signos de uma ausência irremediável.
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