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Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

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O campão

Se o Engenho muda de nome, muda o nome da minha infância?

O campão
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A Victor Scalco nos anos noventa, no Engenho dos anos noventa, era toda imensa para meus dias de criança. Atravessávamos o bairro de bicicleta, eu e meus amigos, a caloi verde e preta sobre o asfalto liso, cruzando os canteiros em zigue-zague, zombando da pouca pressa e das não preocupações daqueles dias. Nos fundos do bairro, de acesso pela própria Victor Scalco, a avenida Beira Rio que conduzia ao campão e à terra que fazia a bola rolar acidentada e onde jogava em meio aos maiores que eu.

Lembro de um campeonato. Muitas pessoas ao redor. O nosso time de menor estatura que o deles. A bola sobrou próxima ao gol, depois do rebote da zaga. Fechei os olhos e chutei com toda a força que podia — é sabido, quando empregada sobre uma bola de futebol, a força de um menino pertence a mecanismos sobrenaturais, é sempre maior do que ele mesmo. Ao abrir os olhos, vi a bola balançando as redes, os meus companheiros correndo em minha direção, uma comoção geral no entorno: havíamos vazado o gol dos maiores que nós. Somente aqueles que fizeram um gol improvável quando criança, que prenderam a respiração no instante decisivo em que não há fuga possível e que o ataque sobre a bola é a única opção, sabem do pedaço de eternidade que foge ao tempo e que constitui um retrato perene e belo nas mais carinhosas memórias da juventude.

Para os outros lados da Victor Scalco, os terrenos menos conhecidos do bairro para mim, uma espécie de preguiça de deixar o meu território, de deixar os rostos íntimos de vizinhos, as brincadeiras decoradas e incansáveis com os da minha rua. Das vezes que rumei para aqueles lados, das poucas vezes que avançava adiante do coleginho naquele tempo, parecia que o próprio tempo adquiria outro ritmo, ganhava toada de pressa, nas promessas do Centro da cidade em semáforos arbitrando o trânsito. Mesmo os automóveis conhecidos, que nas ruas do bairro andavam quase em câmera lenta, ali eram doutrinados a reproduzir a cadência acelerada daquela outra dimensão. Eu forjava sempre mais atenção nos meus olhos, dava logo meia volta e acelerava o que podia a bicicleta no regresso a minha rua. Incorria talvez na ingênua impressão de que fosse possível fugir do troar que me encaminhava, que encaminhava o próprio bairro, para aquela pressa toda de além-coleginho, e que desbotava, no pouco a pouco de cada dia, as cores, os cheiros e o tempo do bairro de minha infância.

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Quando volto à Victor Scalco, para visitar os amigos que ainda vivem lá, ela sempre parece menor do que naqueles anos. As pistas mais estreitas. Os canteiros menos coloridos. Mesmo o trânsito de crianças nas ruas parece quase extinto. A travessia no semáforo do coleginho perdeu sua gravidade, é repetida de forma ordinária, na pressa da rotina: eu transformado num daqueles motoristas apressados que sempre me impressionavam. O campão não existe mais. Há uma estação de tratamento de água no local. A vida nos impõe perdas naturais para que possamos construir novas histórias, é verdade. As memórias do campão, porém, sei que sobrevivem não somente em mim. Todo aquele que balançou as redes do campão naquele tempo, guarda aquele tempo inteiro do campão dentro de si.

 

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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