Repórter Guaibense

Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026

Colunas/Geral

O paradoxal mundo de Dom Barulho

A intolerância e a incompreensão são armas poderosas nas mãos dos intolerantes...

O paradoxal mundo de Dom Barulho
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Ele era conhecido como Dom Barulho. Dom Barulho ou Seu Barulho para alguns, vô Barulho pra mim. Um ser ímpar, quase centenário, de característica rude e de sina campeira. Era bom ginete, aprendeu a trabalhar com o couro, laçava e castrava porque tinha a “mão boa”, mas sempre atirava os bagos pra trás, porque pra frente dava lunanco, dizia ele.

Estávamos levando meia tropa pra o campo dos fundos, numa pastagem boa, afinal tem que vender o lote de boas reses e garantir o lucro do patrão. Na ponta ia Dom Bastião e Maeco Florence, de meiero o Dom Ponciano e na culatra Dom Barulho, Dona Ana e eu. Paramos no passo da pitangueira e apeiamos pra dar água pros pingos e descansar a tropa, afinal era dia e quarto de tropeada. Água boa e refrescante como raramente se encontra hoje, entre um gole e uma água pela nuca, separei o vô do restante do pessoal e indaguei sobre Dona Ana, uma mulher, acompanhar tropa e fazer serviço de campeiro. Como pode isso?

Leia também: Don Barulho e a pandemia

Leia Também:

Quiçá não tivera perguntado, sentia uma puada em cada palavra das frases formadas na resposta, mas a serenidade de sempre, de quem ensina e não agride, de quem conduz e não abandona.

Ele sacou um lenço do bolso da bombacha, enxugou a testa e sentou. Chamou todos os companheiros de tropeada e se pôs em posição de índio rastreados, de joelhos dobrados, quase de cócoras e iniciou me expondo aos demais.

Meu neto, novato na lida, veio aprendendo tanta coisa mas saibas que ainda faltam outras tantas para aprender, dentre elas porque uma mulher vem conosco fazendo fiador e campereando como um homem?

Notei certa inquietação na peonada, também entendi que a verbalização não seria só pra mim. Ele usou a voz serena, o olhar cortante, circundando todos nós como quem verifica o entendimento, falando sobre a igualdade. Sim a igualdade. Perguntou se notaram alguma coisa errada que Dona Ana fizera no caminho? Todos mantiveram-se calado. Dona Ana tinha ar velado, talvez ela nunca soubera qual era o discernimento do homem que ali versava sobre o tema de igualdade, ainda mais numa lida tão rude.

Vejam aqueles pássaros ali construindo seu ninho, vocês sabem quem é a fêmea e quem é o macho? Não sabem! Estão os dois trabalhando. Olhem aqueles cachorros lá tomando água, tem fêmeas e machos juntos, vieram ajudando a conduzir essa meia tropa com agilidade e serventia.

E os pingos que usamos, mais de três quartos são fêmeas de bom andar, mas os machos são ágeis e fortes. Todos têm seu lugar ao sol, porque esse desejo antigo de que a mulher é menos capaz? Não somos iguais, somos homens e mulheres, machos e fêmeas, mas é só nessa ótica de classificar os seres pelo sexo. Sob a ótica Divina, na feição Suprema, somos um só ser, somos da raça dos seres humanos. Não há cor, sexo, gênero que nos faça distinto, há sim o que nos classifica: o respeito e o afeto.

A intolerância e a incompreensão são armas poderosas nas mãos dos intolerantes, promovem insanidade e afloram a maldade.

Dona Ana vem nos fazendo costado com todo o seu valor e respeito, presta seu serviço com a mesma eficiência que nós e deve receber o nosso respeito por tudo o que representa.

Não acredito em coisas que a humanidade vocifera em vão meu neto, não entendo e morrerei sem entender. Falam em racismo, preconceito racial. Isso deveria ser separação de cor, porque somos todos da mesma raça, somos da raça humana, uns mais brancos outros mais pretos, alguns avermelhados, mas todo com mente, coração e alma e pra mim é isso que vale.

A mente pra compartilhar ensinamentos, a alma pra carregar as coisas boas do mundo e o coração pra receber e doar afeto. Simples assim.

Gênero, credo, cor, polarizar coisas é querer ser diferente e geralmente superior, não dá certo. Não há razão quando levamos ao extremo, não há diálogo quando incitamos ódio, não haverá tolerância enquanto não olharmos pra dentro. Somos impuros, imperfeitos e falhos, quem pensamos que somos ao julgar? Quando julgamos nosso semelhante, somos bestas rumando ao precipício, deixando de fazer sentido ao termo “semelhante”.

Leia também: Vô Barulho e as mulheres gaúchas

Encerrou o assunto, eu levantei e pedi desculpas a Dona Ana, pedi-lhe também um abraço e como me ensinou Dom Barulho, meu amado avô, entreguei-lhe meu afeto de mente limpa e coração puro. Seguimos ao posto do fundo, empurrando a tropa assoviando coplas de afeto e ternura.

Comentários:
Mário e Tainara

Publicado por:

Mário e Tainara

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também