Como já contamos anteriormente, vivenciamos os palcos e o meio tradicionalista desde cedo, já criamos algumas rugas e cabelos brancos entre tantos concursos que participamos.
Tainara bailou entre artística e cultural desde cedo, eu me joguei de cara na artística e me senti conectado, são praticamente quatro décadas nesse meio, desde aprendiz de dançador até instrutor, a Tainara entre concursos de prenda (interno, regional e estadual) para mais prendada e os palcos da dança tem sua carga acumulada e portanto, os nós dois temos agregado conhecimento nesse andejar.
Por que todo esse introdutório embasando a caminhada desses dois escreventes tradicionalistas?
Para trazer a baila algo tão delicado que permeia o tradicionalismo desde que Paixão Côrtes decidiu criar os concursos de danças tradicionais: O discutível “julgamento”.
Talvez alguns pensem, o correto não seria “avaliação”?
Seria, se todos os critérios fossem objetivos, se não houvesse espaço para interpretação e subjetividade, portanto, como esses elementos fazem parte da arte dos concursos de dança, as comissões têm sua carga de responsabilidade pessoal para as escolhas.
Nem todos que entram nesse meio estão preparados para isso, aliás essa subjetividade tem a força de fomentar, mas também de destruir grupos inteiros.
Existem nesse meio da dança, grupos de pessoas que se preparam para vencer, perdendo um pouco o sentido real que Paixão dizia querer atrair aos palcos. Mas desculpe-nos caro Paixão, no momento que se cria competição, a carga de rivalidade, competitividade e outras coisas que mais afastam que atraem são inevitáveis.
Instinto de competição, faz parte do ser humano e por consequência, sensação de ter sido injustiçado também! Afinal tudo faz parte do processo.
Precisamos sim, evoluir muito e aprender a lidar com isso, a priorizar a dança e o compromisso em manter nossa tradição, o sumo do que recebemos de carga histórica vivos, do que se atentar e valorizar mais uma classificação, mas sempre é muito difícil.
É difícil porque vivemos numa sociedade em que valores como a moral, ética e responsabilidade não andam tão prestigiadas.
Porém, quando fazemos esse tipo de trabalho, pelo real propósito da dança, os “juízes” são meros espectadores que querem atribuir valor ao nosso bailar, mas talvez eles não tenham a carga de conhecimento ou de valorização que os dançarinos merecem. Que os grupos merecem, que os CTGs deveriam merecer.
Não deveriam existir outros interesses aos juízes que o de julgar, atribuir notas baseadas em conhecimento e nos alfarrábios deixados por Paixão e Lessa (as vezes eles esquecem de ler as obras em separado dos dois folcloristas), seus julgamentos são rasos, subjetivos, de fraca argumentação e propositalmente destrutivos. Propositalmente porque talvez queiram retirar do caminho aqueles grupos que são pedra e espinho, que machucam o nicho destes que carregam outros interesses.
Acreditamos que é bem importante, ao aceitar o convite de atuar como avaliador, fazer uma boa reflexão, sobre suas atitudes e o impacto que poderá gerar. E aqui não estamos falando sobre ganhar ou perder, mas sim, o fator humano, cada grupo até chegar no momento de se apresentar, tem uma longa jornada de horas dedicadas a ensaio, ações para arrecadar o valor necessário para fazer a indumentaria, custos de logística de deslocamento, despesas com instrutores, musical etc. E que não é pouco, senhores! Há uma grande movimentação de várias pessoas para que aqueles 10 a 20 minutos de apresentação na sala aconteça, com maestria, alegria e celebração a cultura gaúcha e a vida!
Boa parte, se não na sua quase totalidade, os avaliadores já foram ou são também parte integrante de grupos de danças, sabem como é estar ali no palco e tudo que envolve e sendo assim, o que aconteceu ao fazer parte de uma comissão?
Não importa se é ENART, FEGADAN, FNCG ou qualquer outro festival, o peso da caneta leva os grupos e seus CTGs (Centro de Tradições Gaúchas) do céu ao inferno em um concurso e se a base não for sólida, isso pode afetar todo o trabalho, destituindo instrutores, direção artística e até acabando com o grupo dentro do CTG.
A pergunta que fica é (fazemos perguntas mesmo sem receber as respostas) juízes tem o poder de derrubar a dança e os dançantes?
Respondemos que sim e não, nosso “sim” seria a força só expressa nas planilhas, mas quando a dança encanta o público e vemos retinas marejadas de afeto, alegria e carinho, abraços e parabenizações, recebidas de forma espontânea, de pessoas que por vezes nem as conhecemos, esse prêmio ninguém tira daqueles que põem na sala coração, emoção e alegria, isso não vai ser julgado por juízes de intenções escusas e obtusas, essa avaliação sai do coração das pessoas, do que a sua alma lê no momento mágico dos tablados e isso chega até os dançarinos.
E neste ponto aqui, também é importante, abrir espaço para o diálogo dentro de cada grupo, os participantes precisam compartilhar o que sentiram, sem julgamentos, apenas dialogar, se expressar, para depois então, elaborar o ocorrido e seguir em frente, sim, seguir em frente!
Acompanhados daqueles que acreditam e valorizam o trabalho realizado, novamente se conectando com o que faz sentido e propósito construído.
É preciso perceber que mais valioso que o troféu, o trabalho de perpetuação das danças, de motivação de crianças e jovens ao entrar nesse meio, vale muito para a tradição de nosso Estado.
Quem está na sala, doando-se, talvez nem perceba, mas é referência para alguém que está olhando e se encanta, buscando seguir os mesmos passos, fazendo o enlace do ontem, hoje e depois.
Tudo é transcendência, basta que tenha essência.
“Que o maior presente entre as pessoas, sejam a bondade e o amor fraterno!”
Mário Terres e Tainara Moraga
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