Dom Barulho era sagaz e sábio, desses que não estudam em bancos escolares, mas trazem em si uma sabedoria própria e pitoresca.
Nessa nossa sina de contar a história, certa feita, passeávamos a cavalo, bem pilchados, vindos do ermo para o centro, entre carros e gente, uma prosa e outra, passávamos pelo Matadouro São Geraldo, um fortim em ruínas. Relatei à Dom Barulho que dava pena ver algo tão imponente se submeter ao descaso do tempo e a ignorância das pessoas.
Ele lamentou junto de minha retórica e atropelou, soltando uma frase atrás da outra, me contando de como fora ter trabalhado naquele lugar, frio e mortuário, adjetivos que o próprio adicionou ao São Geraldo.
Leia também: Dom Barulho e os primitivos
Escutei tudo e guardei na gaveta da memória. Hoje, quando ele já não está entre nós pra passar ensinamento, escrevi uma poesia sobre tudo o que me contou. Que, mesmo tombado por patrimônio histórico, vai ruindo e deixando se perder a história da nossa terra.
Em um mesmo espaço desses, em plena capital Argentina (Buenos Aires) funciona hoje um grande centro cultural que deu nome ao bairro: Mataderos.
É onde acontece a “Feria de Mataderos”, um antigo matadouro que foi transformado em centro cultural.
Que sonho se isso fosse em Guaíba... acordemos e vamos ao poema:
NAS ENTRANHAS DO MATADOURO
Mausoléu de pedra e tempo
Amarelido, exaurido e calado...
Verde limo, pedra ferro,
Com um tom cinza roto e abandonado
Ruína hoje por ironia imposta
E o próprio tempo que te deu ares de realeza,
Te descarnou
Teus vidros, outrora reluzentes
Que já foram límpidos, transparentes
De iluminar o interior com o trespasse da luz externa
Jazem quebrados,
Teu telhado um tanto perecido
Ruiu a sombra da imponência
Sobre algumas paredes que por teimosia
Estaquearam-se de pé
E decidiram que dali não saem
Olhando lá no canto oeste,
O antigo poço, já seco,
Um salgador e uns pedaços de varal
São antigas testemunhas de tua pujança
Há nos trilhos de aço pendurados,
Carros de transporte e alguns ganchos enferrujados
Nem eu e nem o vento sacam-nos da inércia temporal...
Tens o nome estampado na parede principal
A cerca puída (de arame) e moirões toscos...
Ainda carregas um ar de imponência
Mas da pena de tua impotência
De estar relegado a ruinas e esquecimento
Porque apesar de ser lamento
Foste passado de riquezas e glórias
E nem pra contar tuas histórias
Encontramos um vivente
Pobre edificação decadente
Descaso, tempo e o sal
Foram teus maiores opressores
Não se escutam mais mugidos das tropas
Nem o silêncio funerário dos tropeiros
Trocando cabeças de gado por dinheiro
Pressentindo a força da marreta e a ponta da faca em cada boi
Muito menos aquele grito incontido do encarregado
Querendo sempre mais carne, mais sangue e mais couro
Faleceu só, velho matadouro
Entre as almas penadas que te rondavam
Sob as pedras que te sustentam por birra
Pra que sejas forte em cumprir tua sina
De aplacar as dores das vítimas nas tuas ruínas
Vitimas que chegavam boi
Viravam carne, sobras e couro
Vintém, charque, tripeiro e sangria
Que viravam boia na mesa da gentarada
Tapete pra alguma sala abastada
Cabos de chifre pras facas
Gordura de alguma rabada
E o suco vermelho que percorria teu regaço
Com as tripas e sobras seguiam para o rio
Que alimentavam os peixes
Que alimentavam os pescadores
Que assim cumpria as tuas façanhas
Saídas de dentro de tuas entranhas
Histórias, lendas e um ar úmido e fétido
De quem ao sangrar também sangrou
Desbotado ao relento e ao tempo
Esse próprio tempo que te dá ares de realeza,
Que tristeza...
Te descarnou
Comentários: