A entrada de um paciente ao consultório psiquiátrico em geral se dá na linha de chagada de uma pista de obstáculos. A psiquiatria como especialidade médica e o psiquiatra são ainda vistos com inúmeros preconceitos. É preciso vencer o temor de ser considerado louco, o medo de expor aquilo que em geral as pessoas consideram fraquezas, o receio de ser medicado, de que os remédios lhe tirem a lucidez ou causem dependência, entre um vasto conjunto de mitos que precisam ser transpostos ao buscar auxílio psiquiátrico.
Importantíssimo esclarecer que, como qualquer tratamento médico, o tratamento psiquiátrico visa restabelecer o bem estar, a saúde e a qualidade de vida do sujeito. Efeitos adversos aos medicamentos podem ocorrer, como com absolutamente qualquer remédio e justamente aí está a importância do tratamento acontecer em um contexto de acompanhamento pautado na boa técnica e numa relação de confiança. Um tratamento que faz mais mal do que bem, não é um bom tratamento, o que não significa que um período de adaptação não seja necessário, com o asseguramento de estar esclarecido e amparado pelo médico ou médica responsável.
Historicamente, as alterações comportamentais causadas por transtornos mentais recebiam interpretações místico religiosas, sendo atribuídas a possessões demoníacas ou a castigos divinos e como os primeiros medicamentos psiquiátricos se fizeram disponíveis apenas durante o século XX. Esses conceitos, ainda que absolutamente equivocados, se fazem por demais presentes ainda hoje no nosso DNA cultural.
Os primeiros medicamentos disponíveis eram realmente bastante sedativos, o que faz com que esteja ainda presente essa ideia de que medicamentos psiquiátricos deixam as pessoas dopadas. Existe hoje um arsenal terapêutico bastante amplo e cabe ao especialista a eleição daquele (ou daqueles) medicamentos que melhor conjugam custos e benefícios para cada paciente de acordo com o quadro psiquiátrico apresentado, as doenças clínicas concomitantes e o uso de outros medicamentos com finalidades diversas pelos pacientes.
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A prescrição de drogas psiquiátricas por não especialistas frequentemente causa mais danos do auxílio, contribuindo para que se perpetue a má fama desses tratamentos. O conhecimento médico hoje é tão amplo e de crescimento tão galopante, que não há como acompanhar avanços em todas as áreas. Devemos sim considerar os pacientes como unidade, um ser humano, mas no compromisso de prestar o melhor tratamento, devemos contar com quem estudou de forma mais profunda a necessidade específica do paciente sempre que possível. Obviamente, com o que contamos de serviços de saúde no nosso contexto, isso nem sempre é viável.
Também não se pode banalizar, se medicamentos psiquiátricos cumprem um papel fundamental na melhoria das condições de vida de milhares de pessoas, seu uso sem a apropriada orientação está mesmo sujeito a causar abuso e dependência em alguns casos, danos à saúde física e mental em outros.
Muitos tratamentos ainda guardam uma carga gigante de preconceito consigo, eletroconvulsoterapia é um exemplo, conhecido como eletrochoque, que foi utilizado muitas vezes como punição (quando feito sem anestesia), ainda é reconhecido como tortura, embora seja um método seguro, indolor e extremamente útil para depressões graves, intenso risco de suicídio e outras indicações precisas.
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Nem todo paciente que chega ao psiquiatra, requer de fato tratamento psiquiátrico, muitas vezes pode estar indicado tratamento psicológico, neurológico, endocrinológico ou outro. Somente uma avaliação cuidadosa e tecnicamente adequada poderá dizer. Não há razão para temor. E se for para ter medo, que seja de ter a vida limitada pelo sofrimento.
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