Não é sobre os amores e nem as dores que venho retratar nessa coluna, apesar do título sugestivo. Nem das aventuras que o vô Barulho teve em sua trajetória terrena. Vamos mais uma vez escutar o sábio discorrer sobre aquelas que fazem parte da construção do Rio Grande de São Pedro, mas que por convenção, poucos espaços ganharam nos alfarrábios que contam nossa história. Ah essas mulheres de fibra, força e coragem...
A VOZ DO HUMILDE SÁBIO
“Depois de longa tarde de trabalho, apartando terneiras, curando bicheira, vacinando, imprimindo a ferro quente a marca da estância, buscando vaca de cria ao pé no mato de maricá, voltamos extenuados, desencilhamos e estendemos as garras nos cavaletes, bem na entrada do galpão.
Soltamos os pingos delgaçados pro campo. Enquanto o avô ia se recompor e lavar o suor, me entretia com a lida do fogo e colocava a cambona pra aquentar uma água pro mate, aquele mate da tarde sagrado, onde em cada cuia vinha um emaranhado de pensamentos e histórias com imensurável conhecimento tácito.
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Ele veio, depois de se lavar, pegou os avios do mate, preparando-o com a calma e perfeição de sempre. Afeitou com um barranco plano, pra não exagerar na erva e pôs a água quase ao ponto de matear, cambona no fogo e a prosa.
Como de costume ele tomava o primeiro (e mais amargo) enquanto eu trazia à tona, questionamentos ao sábio avô, que conseguia discorrer de forma sucinta sobre temas variados. Me encantava ao mesmo tempo que intrigava como um homem rude, sem frequentar bancos colegiais carregava tanto conhecimento armazenado em seu viver? Veio a derradeira...
- Vô Barulho qual a relevância das mulheres na formação do nosso povo?
Com um olhar lancinante, me bombeou por um tempo sorvendo o mate, serviu o próximo, me alcançou a cuia e se veio com entonação graúda no discurso:
- Meu neto, excelente tema, faltariam noites de mate ou de ronda para falarmos da relevância dessas que são a essência da vida, as mulheres. Consegue entender que sem mulheres, não há vida? A essência de fecundar, desenvolver em gestação por nove meses e dar à luz está contida nas mulheres.
Afora essa questão biológica, o Rio Grande só é realmente grande porque homens e mulheres o construíram assim.
- Mas os livros só falam de heróis meu avô, a única que aparece num momento histórico e fatídico é Anita que se apaixonou por Garibaldi. E as outras?
- Ah guri matreiro, sempre instigando bons questionamentos. O Rio Grande nasceu machista, como o mundo todo foi ou é (de forma velada) até hoje. No início estivemos sempre em meio a guerras e trocas constantes de povoadores, o Rio Grande foi espanhol e português, os homens do sul eram peleadores por necessidade, precisavam defender território, demarcar fronteiras, mas como o mundo todo, sempre houveram mulheres valorosas que junto aos homens mantinham o sul vivo e peleador. Não só cozinhavam, curavam doentes, administravam munícios mas pelearam lado a lado com os guerreiros. E as que não pelearam tem tanto valor quanto as que foram pro front, veja as mulheres professoras, ensinando aos filhos de estancieiros, costureiras, por exemplo, vestiam os homens na guerra. Tua avó é costureira, veja o valor dessa virtude.
O Rio Grande nasce do forte Jesus Maria, se embreta na defesa da Colônia de Sacramento e se volta as fronteiras atuais, sempre com forças mistas. Nunca foi só os militares por profissão, mas tiveram sempre os primitivos e suas esposas, os africanos escravizados e suas esposas, os estancieiros e suas esposas que sustentaram as divisas para desenhar a geografia do Rio Grande. As mulheres são pilares para suportar as famílias, cuidar das estâncias e apontar os caminhos. São a vida se refazendo e um punho forte ao lado de seus companheiros para suportar qualquer refrega. São tantas essas mulheres: Anita, Isabel Leonor, Caetana, Florisbela Flores, Delfina Benigna, Maria Josefa, mais adiante uma senhora com o apelido de “Cabo Toco” foi a primeira mulher gaúcha a vestir a farda da Brigada Militar, lutando na guerra federalista. Ainda hoje, as mulheres têm papel importante na sociedade em que vivemos, peleando lado a lado com o homem para mostrar seu valor.
Um viajante antigo (Saint-Hilaire) já dizia que as mulheres do sul do país eram diferentes das demais, mais recatadas e sociáveis, tocavam bandolim e piano em saraus em algumas residências da capital.
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Meu neto, não somos mais tão machistas como antes, apesar de pensarmos dessa forma e sermos programados para pensar em relação ao racismo, as classes sociais. Os homens querem se classificar de alguma forma, esquecendo que somos matéria orgânica perecível e mais nada. Nesse sentido, as próprias mulheres foram quebrando essas correntes imaginárias e mostrando sua valorosa contribuição. Os alfarrábios e registros podem ter esquecido de sua importância, mas o Criador não, tanto que sem mulheres não a procriação. Elas são importantes para o zelo e continuidade da vida, com o tempo nos mostraram que são importantes para tantas outras coisas, que há de se reverenciar essas maravilhosas criaturas.
Vô Barulho se lavo na explicação...
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