“A arte é minha religião
O samba é minha oração
Eu rezo a Noel
A Cartola
A Candeia
A João”
Os versos acima me surgiram dia desses. Certamente são ressonâncias de sambas que ouvi e que ainda vivem em mim. Aquilo que escrevemos, em alguma medida, é sempre uma espécie de comunhão desses ecos que nos marcam pela vida. Nesse caso, os sambas que celebram, homenageiam, conceituam a si mesmo, ao próprio samba, esse gênero secular que me cala fundo no peito.
De imediato, lembro de Samba da Benção, do Vininha e do Baden, de O samba é o meu dom, de Wilson Das Neves e Paulo Cesar Pinheiro, de Poder da Criação, do próprio Paulo Cesar em parceria com João Nogueira, e tantas outras canções de Cartola, Noel, Nelson Sargento, Candeia e outros bambas.
Essa relação com a arte sugerida nos meus versos e nos versos de muitos desses bambas, me acompanha há muito tempo. Não sou um cara religioso, sempre me classifiquei como um “ateu não praticante”, quando alguém me pergunta se creio em algum deus. Ateu porque, de fato, nunca acreditei. Não praticante, porque, mesmo não crendo em deuses, sempre intuí e busquei alguma conexão com as dimensões mais encantadas da vida. Uma teimosia em tentar enxergar e tomar contato com todas as facetas, todos os lados, todos os traços das pessoas, coisas, lugares, bichos e objetos. Inclusive aqueles que os sentidos não nos permitem acessar. E quem me ensinou esse exercício foi a arte, foi a canção, o poema, o cinema, os filhos mais rebeldes e insondáveis da invenção humana.
Luiz Antonio Simas, um historiador, cronista e compositor carioca que admiro muito e que é uma máquina de aforismas incríveis sobre a brasilidade, tascou esses dias em uma entrevista: “Sou um homem mais de rito do que de crença. Eu gosto de ritualizar a vida”. Ele, que se classifica como um “ateu inviável”. Genial, né?! Tanto a classificação quanto a apologia do encantamento que ele aconselha. É isso, especialmente em nossos tempos, antes voluntariamente enclausurados nessas cavernas pós-modernas que viraram os smartphones, agora obrigatoriamente enclausurados em nossas casas por conta de uma pandemia, precisamos ritualizar a vida, lançar um olhar mais sensível e atento sobre cada etapa de nossa rotina, investigar de perto seu encantamento, suas brechas de incertezas, seus entres, seus “dark sides” de beleza e até perturbação.
Na hora que aqueles versos lá de cima surgiram junto de uma melodia ainda cambaleante e singela, gravei e mandei pro Enio, parceiro de sambas, violonista genial e amigo de longa data. Trocamos alguns áudios e mensagens sobre os versos, sobre o samba, sobre Vinicius, Cartola, Noel, Candeia, a arte e a vida. Talvez nasça desse fermento todo algum samba novo. Talvez não.
O que sei é que pulsa, antes de qualquer certeza ou produto final desses movimentos, uma intuição renovada de que o que vale e o que fica mesmo na nossa caminhada são essas trocas: essas internas que fundamos com as canções que ouvimos, que nos emocionam e que guardamos em algum lugar sagrado dentro da gente (não precisa ser canção nem mesmo arte, mas qualquer forma de comunicação sensível com o mundo); essas externas que fundamos com o outro, nos amigos e parceiros de sambas, por exemplo, nas combinações mútuas, nas construções conjuntas, na disposição e na esperança de comungarmos, por pelo menos um momento, um olhar de aprendizado e de estranhamento sobre o mundo.
Isso, pra mim, é ritualizar a vida. Crendo ou não em deuses. Sendo ou não um ateu não praticante ou inviável.
Comentários: