A alfabetização poética dos brasileiros e das brasileiras costuma acontecer, na grande maioria dos casos, a partir das canções, num tempo em que ainda estamos longe de saber ler ou escrever. É verdade que depois a literatura pode chegar, alargar esse horizonte, pegar-nos pela mão e levar-nos aos avessos conotativos das palavras, e é muito importante que o faça, mas até que isso ocorra já está demarcado lá dentro da gente um contato primeiro com ritmo, a musicalidade, uma arquitetura do afeto erguida pela oralidade das canções.
É claro que não consigo me lembrar do momento exato em que essa alfabetização cancional me alcançou. Posso imaginar o Guilherme com seus poucos anos, talvez num apartamento do Centro de Guaíba, talvez numa casa do Engenho, balançando-se ao som de um canto tradicionalista que o pai ligava na Rádio Liberdade ou da costura sonora de um ecletismo indomável que levava a mãe a escutar, quase simultaneamente, Cheiro de Amor e Chico Buarque, Leandro e Leonardo e Belchior, Só pra Contrariar e Maria Bethânia, entre outras saladas auditivas bem tropicalistas e maravilhosas. A certeza que tenho é que aquele infante certamente se balançava e começava a absorver, em algum grau, a partir dessa via, a inevitável poesia do mundo.
Não me lembro desse contato inaugural, é verdade, mas me recordo de outro momento, uma época em que um começo de consciência foi estabelecido sobre o tamanho que a canção popular ocuparia em mim ali adiante.
Tinha uns catorze anos. Nem me ligava muito em música. Ouvia alguma coisa no rádio, mais uma trilha sonora do cotidiano, coadjuvante, do que a entrega de uma audição concentrada. Pois a mãe, além do pendor tropicalista para a mistura, tinha o hábito de fazer rodar no cd do carro o mesmo disco por muito tempo. Esquecia dele lá. Aquelas mesmas canções ecoando por meses em nossos ouvidos passageiros.
Era inevitável, portanto, que decorássemos quase todas as letras e melodias do álbum, criássemos uma intimidade incomum com ele, cantarolássemos trechos que nem letras tinham, melodias reservadas apenas para os instrumentos, enfim, uma relação inviável para o mundo de audições cada vez mais solitárias, perecíveis, randômicas, apressadas, e opções cada vez mais diversas em Youtubes, Spotifys, Deezers, como o que vivemos hoje.
Pois naquele período dos meus catorze anos, o Prenda Minha do Caetano ficou tocando no carro durante um semestre inteiro. A canção Sozinho havia estourado nas rádios, talvez a razão para a compra do disco. Mas as que mais me encantavam eram Carolina, do Chico (a mais bela interpretação que já ouvi), Drão e Bem Devagar, do Gil, e sobretudo Esse Cara, do próprio Caetano.
Essa última, aliás, me perturbava de uma maneira especial. Foi a primeira vez que ouvi um homem assumir a voz de uma mulher em uma canção. Pro adolescente que eu eu era do final dos anos 1990, uma mistura de beleza, estranhamento e confronto inesperado com os preconceitos mais escondidos em mim.
Só anos depois me dei conta de que foi aí, nesses meses de audição móvel e involuntária do Caetano, que a canção brasileira me ganhara de uma forma irrevogável. Ela que já me alfabetizara para a poesia num tempo de memória que nem consigo recuperar. Ela que a partir do Prenda Minha virou professora, amiga, confidente, abrigo de afeto e encantamento onde sempre vou morar.
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