Movimentos e imobilidades
Venta com pressa e emprenho, os coqueiros da beira com seus galhos e folhas estendidas para os lados do catamarã, mais do que braços que se espreguiçam, parecem mãos dedicadas a algum cabo de força de corda invisível. E um cabo de força no qual estão próximos da derrota, ainda que não quisessem se entregar.
Ao fundo, as águas do Guaíba caminham no sentido contrário, vagam seu corpo turvo, chocam-se contra a imobilidade da ilha e seguem adiante. A ilha é como um lagarto que descansa ao sol, e como todo lagarto, mistura em sua pele um verde natural e selvagem com a cor envelhecida de tudo aquilo que é pedra, crosta, alguma substância que já sofreu demais as intempéries do tempo, que já conversou com as vozes da eternidade.
É nesse cenário de movimentos e imobilidades que um caiaque surge a caminho de Porto Alegre, rompe o maniqueísmo do cabo de força entre o vento que aponta os coqueiros ao catamarã e as águas do rio que correm para a laguna, funda uma terceira linha móvel e vertical, e carrega consigo os olhares de todos aqueles que imploram ao Guaíba, aos morros da capital e ao sol que desaba lá do outro lado mas lança suas últimas rajadas de luz ao céu da cidade, um fim de tarde de esperança, beleza e consolação.
Laicidade
Os vereadores dão início ao encontro semanal do legislativo e logo fazem a leitura de um versículo bíblico. Sim, estamos dentro de uma casa política e supostamente laica, mas a sessão é iniciada com um texto religioso.
Aliás, só e sempre com o texto sagrado das religiões cristãs. Nunca com um ponto de umbanda. Nunca com um trecho de doutrina espírita. Nunca com nenhum trecho de qualquer outro livro sagrado de qualquer outra religião. Nunca, inclusive, com um verso do Neruda, por exemplo, o que contentaria a mim, que sou ateu, mas tenho a arte como o meu espaço de construção do sagrado.
No mesmo instante em que começa a sessão na Câmara, cultos e missas cristãos são inaugurados em diferentes lugares da cidade. Em nenhum deles, porém, padres e pastores abrem o encontro com a leitura da Constituição Federal ou da Lei Orgânica do Município.
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