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Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

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Campeiro e destemido

Para que alguns sejam aceitos e bem quistos em rodas sociais, se deixam passar por tolos...

Campeiro e destemido
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Dom Barulho sempre foi rude e tosco, sem estudo, mas de cultura ímpar, conseguia explicar temas complexos de forma que o ouvinte passava a entender como algo simples. Ele via o mundo e a vida com olhos do coração, talvez por isso a simplicidade lhe cabia melhor que qualquer outra qualidade. Sempre foi homem dos arreios, capataz de estância, destes que conhece o rumo dos ventos e o berro das vacas parideiras. Casou-se com Dona Judith e tiveram que sair da estância para a cidade, seu maior pesar, pois um homem do campo quer viver e morrer no campo.

Um dia escutei ele falar de alguém que para ele era “destemido”. Tive um breve espanto, afinal essa qualificação e inclusive a palavra, soava algo que moderno e culto na boca de Don Barulho. Claro, eu na minha ignorância e arrogância juvenil, por vezes fazia julgamentos do velho pela rudez, sem perceber o sábio que se escondia dentro daquela carcaça.

Perguntei para ele, por curiosidade e desconhecimento, o que era alguém destemido? Como eu identificaria tal pessoa. Ele teve paciência e mesmo sabendo que eu tinha na pergunta um tanto de presunção e desafio, me deu, mais uma vez, uma aula completa. Explicando sobre o tema e mostrando que a simplicidade contrapõe a arrogância com finesa.

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Me convidou para irmos até o canto da casa e pediu para olhar para o campo que divisava horizonte ao se perder de vista. Convidou-me a olhar o mais distante que puder e dizer o que tinha do outro lado da estrada.

Pensei que Dom Barulho estava debochando de mim, lasquei de vereda, sem pestanejar: Não sei eu não vejo nada! Respondeu também de vereda que se ele falasse que lá depois da estrada tinha um cavalo amarrado em uma árvore e dois cachorros ovelheiros na volta deste eu acreditaria? Disse que com certeza, afinal confiava nele.

Veio a lição: “Pois te digo que apesar de confiar, não deixes que eu desbrave os mundos que tu ainda desconheces. Encilha teu pingo, calça tuas esporas e vá ao encontro do horizonte. Veja por ti mesmo o que o mundo apresenta depois da estrada, não deixe que os outros te convençam do que tem lá. Nem do que tem em outros lugares, tu deves fazer a tua jornada.

Não há cavalo nem cachorros e muito menos onde deixá-los do outro lado da estrada. Há campo vasto e fértil para que tu campereie e descubra que o mundo é bem maior que algumas quadras.

Destemido é aquele que vai ao mundo, desbrava-o e tem as convicções arraigadas, posicionando-se de forma firme e correta quando alguém lhe diz que há algo em algum lugar que ele nem conhece.

Hoje em dia, para que alguns sejam aceitos e bem quistos em rodas sociais, se deixam passar por tolos, acatando palavras de bocas que nem sabem o que dizem. Ser destemido é ter suas convicções por próprio mérito, buscando razão e fundamento em tudo aquilo que conhece e não as vender por pouco ou muito. Também é ter humildade e sinceridade dentro de si para dizer que não conhece o desconhecido. ”

Me calei, agradeci e aprendi que além de destemido, Dom Barulho era uma legenda que deveria seguir. Toma bobalhão, recolhe tua arrogância e aprende que não se julga, nem se valora alguém pela aparência, mas se aproveita a sabedoria que carrega. E vi que destemido era Dom Barulho em sua saga mundana de carregar em si e passar a diante a simplicidade e o conhecimento. Há que abrir os ouvidos e fechar a boca...

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Mário e Tainara

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Mário e Tainara

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