Às vezes eu fico andando pela rua e olhando em volta, as outras pessoas cruzando por mim e cruzando-se entre si em diferentes direções, e mesmo que não enxergue, é inevitável imaginar centenas, milhares, milhões de fiozinhos minúsculos ligando-nos uns aos outros, esticando-se como borrachas de bolo grosso de dinheiro, travando uma luta invisível para a própria sobrevivência, criando nós monumentais para que o maior números de pessoas entre em contato, até que a inevitável fratura de suas peles aconteça e a extinção daqueles fio se imponha.
É claro que novos fios vão surgindo a todo o momento, como se uma caneta iluminada sempre nos desenhasse o próximo passo, e não falo aqui de livre-arbítrio ou de sua ausência, deixem que os filósofos decidam isso, pouco importa, falo de poesia, de um trânsito que acontece sem uma explicação racional, das escolhas sutis que fazemos em nossas rotinas e que nos encaminham para um lugar específico, quando nos descaminham de outros tantos possíveis.
Quintana falava da saudade pelas ruas de Porto Alegre que jamais conheceria. Os fios ficaram por lá, envelhecendo e aguardando sua chegada, mas certamente fundando nós nas outras criaturas pelas quais passavam a sua inexorável costura.
Talvez seja por isso, por essa colcha interminável de fios invisíveis, que certos dias têm um vagar mais pesado, como se andássemos contra algo que não podemos enxergar, mas sabemos existir. Os arrepios da nuca que exigem comoção do corpo todo e as teias de aranha inoportunas pelas quais cruzamos nos dão uma dimensão material dessa condição. Mas algo além de tudo isso resiste, como se cada quadro da versão que convivemos por aqui fosse espelhada em outro lugar por uma versão obscura de si mesmo, um duplo. Seria o sonho responsável por esse reencontro implacável? Não sei.
Resta mesmo é andar pela cidade e tentar não ficar pensando somente nos fios, nos descaminhos, nos desencontros. A caminhada sempre tem um destino, mesmo que não saibamos. E eu escolho encontrar aqueles que amo, abraçá-los como posso, para, juntos, ampliarmos esses fios que nos enlaçam, relembrarmos aqueles que já partiram, fundarmos nós perenes e que, delirantes, resistam vivos, mesmo após a extinção dos fios que lhes deram vida.
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