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Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

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Devoção e gritaria

Fantasias inomináveis de brasileiros criativamente hediondos

Devoção e gritaria
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A claque vestida de verde e amarelo amontoa-se dentro do cercado de metal que lembra os chiqueirinhos infantis, saliva pela presença de seu ídolo, grita palavras de ordem contra minorias, contra supostos e iminentes golpes comunistas, contra instituições democráticas, comete meia dúzia de crimes nas poucas frases que verbaliza em coro, segue seu périplo de ódio decorado porque sabe que jamais sofrerá qualquer punição. 

A tolerância com a intolerância pinta quadros de uma estética hedionda.

Logo o automóvel preto e brilhante estaciona a metros dali. O ídolo deixa o carro com gestos lentos, o olhar aparvalhado alcança a claque, que reage num coro exaltado, feito algum animal de feições grosseiras e que emite sons ininteligíveis. Os celulares são erguidos para o alto em oração digital, duas dezenas de aparelhos formando uma espécie de sala de espelhos suspensa, todos reproduzindo a imagem do ídolo.

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A liturgia da devoção ganha sua forma definitiva e intermitente: uma tela encantada e recarregável. 

Há muito tempo o ídolo fundou a estética do berro, o seu lugar de grito, a antítese do lugar de fala, um idioma centrado na ênfase aos fonemas, na agressividade do som em detrimento das racionalidades do sentido. Ainda não há como afirmar se o trânsito de perdigotos observado nesse processo nasce de uma ação proposital. O ídolo dispara algum versículo bíblico, recicla ataques a seus predecessores, homenageia um torturador. A claque, a cada uma das frases, explode em euforia como torcedores de futebol diante do gol decisivo de seu time. 

Um debate em nossos tempos não se ganha com ideias. A ideia, no debate de nossos tempos, é sufocada pela violência vazia das frases decoradas.   

O ídolo mede com olhos de confronto o pequeno grupo de repórteres de emissoras de tevê que está ali para cobrir o evento. Antes que responda qualquer pergunta, o mais corpulento da claque vestida de verde e amarelo que ocupa o chiqueirinho de metal lança um “mídia golpista” sobre eles. Quando isso acontece, outros encorajam-se e também atacam verbalmente os jornalistas. Segundos depois, o silêncio volta a imperar a partir de um gesto do ídolo com os braços estendidos, como um maestro que silencia sua orquestra. O autor do primeiro grito é cumprimentado com os olhos pelos demais. Há uma comunhão invisível e satisfeita entre eles. 

A Globo mente descaradamente quando denuncia o meu candidato. Só confio nela quando ela revela o que há de feio lá do outro lado.

A coletiva dura exatamente trinta e oito segundos. O ídolo não responde as perguntas dos jornalistas. Na verdade, interrompe essas perguntas com perguntas que ele mesmo lança aos jornalistas, as duas vozes competindo pelo espaço do som, camada sobre camada, tudo muito confuso, sobreposto, os jornalistas aumentam a voz para serem ouvidos, o ídolo aumenta a voz para não ouvir o que dizem, a claque entende a mensagem e começa a ofender os jornalistas até que a situação se assemelhe à dinâmica caótica, barulhenta e juvenil de uma turma de sexta série do ensino fundamental nos minutos finais do último período da aula de sexta-feira. 

A censura dos nossos tempos nasce do excesso de vozes, mais do que de silêncios impostos. Um analfabetismo auditivo voluntário.

Quando todos parecem falar ao mesmo tempo e ninguém presente consegue escutar a própria voz, o ídolo levanta a mão direita, despede-se com um “vou lá, pessoal”, gira o próprio corpo em cento e oitenta graus, caminha escudado pelos seguranças e ingressa no automóvel preto e brilhante, esconde-se pela porta que fecha, ainda que consigamos enxergar através do vidro escurecido uma sombra encolhida no banco de trás, uma figura muito mais solitária, silenciosa e frágil do que aquela que extasiava há pouco a claque vestida de verde e amarelo, claque que a essa altura encerra suas lives, vídeos, fotos e começa a deixar o chiqueirinho de metal, dispersa-se como o coletivo de algum predador empanturrado que ainda exibe o sangue quente e as vísceras de suas vítimas nos dentes frontais e satisfeita como crianças que terão histórias interessantes para contar aos colegas na hora do recreio da aula de segunda-feira.  

A idolatria, adoração recalcada de si, conclui, enfim, seu quinhão diário de perversão.




FONTE/CRÉDITOS: pexels.com
Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

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