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Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

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Esquinas

Encontros e desencontros

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Um taxista derrama o olhar sobre a rua. São as primeiras horas da manhã. Está escorado no automóvel e olha para o céu, consulta o relógio. Aguarda o primeiro passageiro.

Como um corpo que deixa aos poucos o torpor do sono, a cidade desperta lentamente. As ruas ainda são desertas de gentes e de carros. Uma porta de ferro geme alto em algum lugar perto dali. Como um animal irritado. As cores firmes do amanhecer vão aos poucos escoando na parede dos prédios, depois nas calçadas, depois nas ruas, até que o sol pinte tudo com a luz que deseja. Outra porta de ferro rasga o silêncio que aparentemente regressara. E o som de novas portas de ferro sendo abertas passa, enfim, a impressão de que imensos animais urbanos despertaram em conjunto de insondáveis pesadelos.

A cidade ganha vozes, anuncia uma polifonia oscilante, plural, uma ladainha que nasce das dezenas de conversas entre os consumidores que trafegam pelas ruas centrais e os atendentes de lojas, farmácias, padarias e outros comércios. O balé imprevisível das ruas e calçadas começa sua dança. A cidade há pouco era um corpo parado, sentada sobre si mesma, meditando inércias. Agora não. Ouvem-se buzinas, gritos, piadas, vendedores ambulantes estendem suas mercadorias sobre o passeio. O palco supremo para o movimento da circunstancial e transitória substância humana.

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E numa esquina há o encontro. Há tantas esquinas e tantos encontros. Mas nessa esquina específica há este encontro específico. Há quanto tempo não se viam?, como envelheceram desde a última vez, como está a mulher?, os filhos?, como anda a vida?, essa pressa, esse tempo que nunca dá tempo, essa sensação de que algo importante sempre fica pelo caminho, esse sentimento de que um dia ambos partilharam algum segredo verdadeiro sobre a vida, algo valioso, particular, de que em algum lugar do passado há um terreno habitado por ambos, isso que raramente se explica em palavras, mas que todos já experimentamos na descoberta da amizade.

E então uma ambulância corta a avenida com pressa. Corre para salvar alguém? Carrega alguém que precisa ser salvo? Caixa branca sobre rodas que anuncia em sua sirene um canto definitivo: “eu ando sobre a fronteira entre a vida e a morte, abram caminho, nada mais é tão grave quanto aquilo que preciso resolver”.

Quando a ambulância se afasta, a sirene vai perdendo força, um silêncio desaba sobre a rua. Não exatamente um silêncio, mas a sensação de silêncio que experimentamos depois que um barulho muito alto e prolongado cessa.

A conversa que acontecia na esquina, antes de sua passagem, fica suspensa. Eles se olham, desviam os olhares, medem a própria existência com o olhar despejado no entorno, como se procurassem algo, mas não soubessem o quê. A vida, eles não dizem, mas pensam, a vida chamando, a vida cobrando dos compromissos de logo mais, e então promessas de churrascos que jamais farão, de mensagens que não enviarão, de encontros que não serão realizados, embora o sentimento de ambos, é preciso que se diga, denuncia uma amizade verdadeira.  

Resta a despedida, ainda alimentando a promessa de um encontro futuro que jamais acontecerá, a não ser que, repare, ainda há uma esperança, sempre há uma esperança: numa manhã qualquer, ainda nas primeiras horas de luzes firmes e sons comedidos pela cidade, numa esquina familiar, enquanto o taxista aguarda seu primeiro passageiro e é, naquele momento, o mais solitário dos homens, o acaso os aproximará novamente, como uma loteria de encontros e desencontros, como um deus matreiro e generoso que brinca feito criança com os mais sinceros afetos do mundo.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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