Imperdível e extremamente necessária “Em Nome de Deus” retrata a ascensão e queda do líder espiritual João de Deus, estreou na TV aberta, na Globo, só o primeiro episódio.
O bloco de seis capítulos está disponível na Globoplay. Mesmo no formato jornalístico, transcende o caráter informativo para ir além dos fatos maquiados e subjugados inicialmente por fieis, simpatizantes e pela própria justiça. Quem são essas pessoas. As abusadas, o abusador. Como isso foi possível - o silêncio, durante tanto tempo?
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Um homem que parecia pacato e até santo, mas era um monstro. Esse é o “personagem” principal da série documental e, acreditem, nem os melhores roteiristas de ficção pensariam em construir um vilão com tanto requinte em suas características ruins, na busca pela verossimilhança e organicidade seria um absurdo imaginar, um exagero quase que sem precedentes criar em um único personagem tantos defeitos: criminoso, estuprador, assediador, contrabandista, mafioso, incestuoso, agressivo, sonegador, mentiroso, charlatão, ganancioso, desleal, manipulador e acreditem, traficante de urânio (é sério, urânio) e muito mais.
Tudo isso encoberto hipocritamente por uma fala mansa, andar tranquilo, olhar calmo, simpatia contagiante e uma “FÉ” descabida em um “Deus” que lhe confere poderes de curas sobre os demais humanos. Ou seja, a descrição muito além da imagináveis de um refinado e grotesco psicopata.
Pois bem, esse homem arrastou multidões em busca de cura para suas enfermidades, dos mais humildes aos mais famosos, personalidades nacionais e internacionais como Ophra Winfrey, Naomi Campbell, Shirley Maclaine, Paul Simon, Fábio Assunção, Xuxa Meneguel, Lula da Silva e muitos outros.
Na série sobre o “Curador de Abadia”, a linha do tempo é traçada juntamente aos fortes depoimentos que revelam uma imagem diferente da presente no imaginário popular de muitos brasileiros: um homem poderoso e inescrupuloso que abusou de muitas mulheres ao longo de sua jornada, inclusive de sua própria filha.
A roteirista Camila Apple conta que as mulheres que entrevistou tinham medo da influência de João de Deus — no mundo físico e espiritual. Por isso, as vítimas não queriam aparecer.
“Elas temiam a rede de proteção dele, a violência dele e até retaliação espiritual. Até hoje escuto [dessas mulheres] se acabou a luz, se ficou gripada, foi porque ela denunciou. É muito difícil para nós, jornalistas, lidar com esse tipo de medo; exige muita delicadeza com a fé delas”, afirma Appel.
Camila Apple e Pedro Bial fizeram um excelente trabalho de investigação na série documental associada a um eficaz dispositivo narrativo de fazer as mulheres juntas e entre elas, apresentarem suas histórias ao público como uma unidade.
Poucas vezes vi um trabalho jornalístico investigativo tão comprometido em não manipular os fatos, em não cair na vala comum de sensasionalizar gratuitamente o arco narrativo em prol de audiência ou de links para os próximos episódios, calcado em um trabalho profundo de pesquisa e confirmação das informações e fontes.
Informação com credibilidade editorial e estética, apuro e criatividade narrativa, uma esperança jornalística em dias de glorificação de fake news, até voltei a gostar de jornalismo. hehehehe
A montagem dos episódios é assertiva em costurar vários depoimentos com a visão jurídica do promotor do caso em Goiás, que reforça o repúdio aos fatos citados.
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A série mistura o entretenimento dos programas sobre crimes reais e o fundamental papel do jornalismo, como fala Pedro Bial na série. “Dar voz para quem não tem”. As vozes estão lá, nos resta ouvir e garantir que cenas como aquelas nunca mais se repitam na nossa sociedade. Nunca mais o silêncio.
Após assistir a cada episódio fica a sensação de estarrecimento, de impotência, de nojo e sobre tudo, da fraqueza humana , da necessidade de buscar respostas sobre o desconhecido, de como não passamos de manadas animais querendo transcender de qualquer forma que não dê muito trabalho.
Esse documentário, merece ser aplaudido em pé por ter a coragem de olhar enquanto todos seguiam cegos, de mexer em feridas que a sociedade insiste que não existem ou que já cicatrizaram.
Camila Apple e Pedro Bial muito obrigado! Em nome todas as mulheres agredidas, abusadas e todas as demais, eu agradeço a justiça feita.
Obrigado.
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