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Domingo, 24 de Maio de 2026

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Expansões cotidianas

As dobradiças da realidade

Expansões cotidianas
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Neblina

Há dias mais difusos. Olhamos pela janela e a neblina cobre Porto Alegre por completo. O Guaíba desaparece em meio a um clima de filme de suspense. O dia nesse momento, em verdade, resta suspenso, como se adiasse propositalmente algo importante que deseja nos mostrar.

O curioso é que essa paisagem adiada, essa neblina densa que cobre o território em que vivemos no sul do mundo também nos cobre por dentro, invade nossos continentes internos, borra as linhas das fronteiras entre realidade, sonho e memória, nos convida a outro tempo que não esse presente momentâneo e urgente.

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As janelas da casa, do carro, do trabalho, da academia, do catamarã, esses olhos enormes e retangulares, pouco veem adiante, pouco desejam ver, na verdade. Aceitam a espera lacrimosa que a poesia do dia entrega naquele instante. A manhã é um turno investido de promessas.

 

Enchente

Há certos dias em que o olho vira enchente. Convém, nessas marés de sorrisos afogados, fazer do rosto um leito, e não um dique. Deixar a lágrima correr como correm os velocistas, como correm as crianças nos intervalos da escola, como correm os amantes, um em direção ao outro, depois de longa espera.

Esse gesto vertical da lágrima sobre o rosto é o gesto inaugural de uma cicatriz que começa a vestir aquela dor incômoda. A lágrima é uma costura úmida e de substâncias terapêuticas insondáveis. O resto é o acúmulo que fica nos aprendizados do pranto: não há pele que trave o choro, nem tristeza que se eternize.   

 

Acidente

A velocidade da vida na marca de um ponteiro adiantado. Uma pedagogia da pressa nos ronda, nos ensina a vilanizar inércias por uma intuição inevitável: estamos atrasados para algo. Mas para quê? Nunca sabemos. Rolamos as timelines como se movêssemos a nós mesmos em compensações a esse atraso, mas a busca que ali fazemos não carrega um sentido prévio: é um fim em si mesma.

Então falta luz ou esquecemos de pagar a conta do celular ou a bateria termina e não temos como carregar ou a internet instável nos sonega o wi-fi: é quando reconciliamos nosso olhar ao nosso redor, detemos o tempo no afeto (ou somos salvos das cavernas de nós mesmos por ele), recuperamos o contato com a poesia que nos ronda, essa minúscula, ordinária, banal, mas presente e necessariamente vital para dar o sentido mais radical ao que temos de humano.  

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

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