A pandemia no Brasil parece estar longe de acabar, e, ainda que já exista vacina de combate ao coronavírus, a média de mortes está girando em torno de 2 mil pessoas por dia.
Com isso, nossa rotina e nossos problemas parecem minimizados, e as consequências da pandemia nos atormentam diariamente – a não ser, é claro, que você não tenha um pingo de consciência e continue vivendo como se nada estivesse acontecendo.
O fato é que, neste ano, qualquer data comemorativa, principalmente o Dia das Mães, está sendo dividida entre a gratidão de ter consigo sua família e a dor de ter perdido um ente querido de maneira precoce.
Nesta semana que passou, perdemos para o covid-19 o grande humorista Paulo Gustavo, que encantou o Brasil levando para as nossas casas a personalidade da sua mãe, como a personagem Dona Hermínia. Em entrevista, apenas alguns dias depois do falecimento, sua mãe, Déa Lúcia, mostrou-se uma rocha, sofrendo por cada mãe que perdeu seu filho, e vice-versa, para uma doença da qual já podíamos estar livres.
Infelizmente, não bastasse a dor natural da perda, houve uma invisibilização da família do humorista - homem gay, casado e com dois filhos - que sofreu ataques absurdos de como a ‘prática gay’ lhe causou a morte, como castigo por ter contrariado os bons costumes.
Falávamos antes sobre empatia, né... Nunca entendi que ‘bem’ é esse, que alguns cidadãos o adoram atribuir.
O humorista foi e sempre será uma figura importantíssima para a população LGBTQIA+. Como Dona Hermínia, conseguiu entrar nas famílias que pouco souberam lidar com seus integrantes LGBTQIA+. Conseguiu mostrar que o amor supera o preconceito. Que a família deve ser ambiente de acolhimento.
A visibilidade que Paulo Gustavo trouxe foi a mais necessária: a real. Levou o assunto para dentro das casas brasileiras. Não teve como fugir, fechar o Facebook, o Instagram, o WhatsApp. A Dona Hermínia estava ali, na televisão, falando sobre amar incondicionalmente e proteger seu filho gay.
O vírus matou Paulo Gustavo, e a nossa dor será eterna, mas não podemos deixar que a LGBTfobia mate ainda mais. Paulo sempre teve suporte, financeiro, amigos, família. E os que não tem?
Parece um simples comentário: não é uma família de verdade, é a minha opinião. Até que vira agressão, até que vira a crença de achar que tem poder sobre o outro.
Pode parecer algo banal aos olhos dos que não sofrem, mas ataques que contestam a existência de pessoas LGBTQIA+ consistem em uma violência extremamente marcante. E, infelizmente, comum.
Você não precisa ‘aceitar’, ‘concordar’, apenas respeitar. Na verdade, respeitar é sua obrigação, como cidadão, como pessoa, como ser humano.
Aliás, LGBTfobia é crime, você não pode mais desrespeitar quem quiser.
Mesmo com toda a proteção dada às pessoas LGBTQIA+ por todas as organizações de Direitos Humanos, políticas públicas, legislação, etc., ainda há um caminho árduo a ser percorrido.
O que falta são ações como as de Paulo Gustavo, que levem o assunto e o amor a quem não dispõe de meios para obter conhecimento, que façam as pessoas entenderem que a discriminação destrói, não só quem sofre, mas quem pratica. Uma pessoa preconceituosa sempre carregará consigo a amargura de não ser capaz de amar o próximo.
Por que é tão difícil amar o próximo?
Obrigada, Paulo Gustavo, você já está fazendo muita falta.
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