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Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

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Um singelo e potente elo entre a arte e a educação

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Você já ouviu falar em lambe-lambe? 

Muitas pessoas já ouviram falar e atrelam imediatamente aos antigos fotógrafos de rua ou à intervenção artística urbana baseada na colagem de imagens e textos poéticos. 

Mas você sabia que lambe-lambe também é uma modalidade de teatro? 

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Não sabia? 

Então te ajeita na poltrona e vamos juntos conhecer essa linda forma de encantar, entreter e formar público que, além disso tudo, ainda é uma super ferramenta pedagógica. 

Vamos desde o início: 

O teatro lambe-lambe, também conhecido como teatro em miniatura, é uma linguagem dentro do teatro de animação.  

Os espetáculos são de curta duração e acontecem dentro de uma caixa, geralmente para um espectador por vez, com estéticas, técnicas e temáticas distintas, variando de artista para artista e de acordo com as necessidades encontradas para a manipulação dos bonecos/objetos. 

O lambe-lambe surgiu no Brasil, no ano de 1989, sendo criado pelas educadoras Ismine Lima e Denise di Santos.  

Na época, Denise trabalhava em uma escola de Salvador. Em suas aulas para crianças e adolescentes, um dos temas que constavam no cronograma tinha a ver com a reprodução sexual. Pensando em mostrar da melhor forma possível o momento do parto, ela criou uma boneca de espuma que carregava na barriga um bebê também feito de espuma.  

Quando a amiga Ismine viu o momento da encenação do parto, teve a ideia de mostrar o ato em segredo, dentro de uma caixa.  

Tendo ainda como inspiração a técnica dos fotógrafos de rua, os chamados lambe-lambe, as duas criaram assim, o primeiro espetáculo de Teatro lambe-lambe, chamado A dança do parto, que era apresentado com o auxílio de um tripé de madeira.  

O teatro lambe-lambe é uma técnica em franca expansão em território nacional, podendo ser visto também em outros países como Argentina, Chile, Peru, México que, assim como no Brasil, possuem festivais especificamente para esta modalidade. Um fenômeno, do ponto de vista artístico e pedagógico.  

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Essa modalidade, que por vezes se utiliza de materiais tão simples, é capaz de atingir emoções complexas que nos fazem viajar no tempo, percorrendo caminhos dentro de nós mesmos e visitando questões que permeiam nosso imaginário, o senso comum e dentro dos diferentes contextos sociais. 

Pelas pequenas aberturas por onde se assistem os espetáculos, é impressionante perceber tudo o que pode caber em uma caixa de lambe-lambe e como isso pode mexer conosco. 

Trabalhar com o Teatro Lambe-Lambe, possibilita privilegiar questões voltadas a identidade e ao pertencimento através de uma prática cheia de significado simbólico, tanto para o meio artístico, quanto para o ambiente educacional.  

Muitas vezes as mais diversas formas artísticas são justificadamente utilizadas como ferramentas pedagógicas, porém no caso do Teatro lambe-lambe percebe-se um movimento quase inverso.  

No Teatro lambe-lambe, podemos perceber a apropriação artística de uma técnica desenvolvida, a princípio, para a sala de aula. 

Pensando nisso, resolvi trazer esse assunto para a coluna e falar um pouco mais sobre esse compartilhamento de técnicas e objetivos. 

Mesmo em tempos tão digitais e virtuais, essa ferramenta precisa continuar disponível aos nossos professores. O Teatro lambe-lambe trabalha algumas habilidades que seguem sendo resultantes da prática e do estímulo criativo e sensorial, passando também pelo desenvolvimento da coordenação motora e da sensibilidade. 

Os professores podem, por meio do teatro, encontrar ferramentas de trabalho suficientemente potentes para o desenvolvimento de suas funções como educadores, bem como auxiliar no processo de aprendizagem dos seus alunos. O Teatro lambe-lambe possibilita que isso seja realizado em estruturas menos privilegiadas.  

Através do teatro lambe-lambe podemos, inclusive, reforçar o sentimento de pertencimento e envolvimento com a cidade, através da percepção dos temas e contextos locais e também da interação resultante das apresentações públicas, caso haja.  

Outra possibilidade inerente à essa prática é a ampliação da ação formadora social e intelectual dos participantes (artista e espectador), o que proporciona melhora na interação social com a vida e com o mundo ao redor, favorecendo as relações harmônicas desses indivíduos em sociedade.  

Por ser uma técnica de fácil assimilação e de baixo custo de execução, é possível que cada pessoa que tiver contato com ela se transforme em um agente difusor ao longo da sua trajetória de vida, promovendo assim uma continuidade no processo de transformação das pessoas. 

Precisamos explorar as diferentes vertentes, buscar embasamento e repertório técnico para, além de fazer bom uso, valorizar o teatro como ferramenta efetiva a serviço da arte e da educação em qualquer lugar e circunstância. 

As técnicas do teatro de animação, em especial o lambe-lambe, ajudam a desenvolver a consciência de que existem outras formas de teatro, mostrando na prática que o fazer teatral não está condicionado a existência de uma edificação especificamente voltada para esta finalidade. O teatro lambe-lambe talvez seja a forma mais lúdica e singela de demonstrar resistência.  

Outra vantagem bastante interessante é a promoção do contato direto com um conjunto de práticas teatrais que inevitavelmente estimulam o desenvolvimento das capacidades expressivas, gestuais, corporais e vocais 

Essa prática tão rica possui potencial suficiente para articular de forma precisa a indispensável relação entre a educação e a cultura. 

Também acredito que a difusão de uma arte genuinamente brasileira, disponibilizada tanto como ferramenta de ensino, quanto meio de fruição artística profissional colabora para o surgimento de novos artistas, para a formação de público e crítica e, no mesmo fluxo o desenvolvimento do mercado cultural.  

Outro aspecto relevante que está muito presente no contexto do teatro lambe-lambe é a promoção da discussão sobre a utilização de materiais recicláveis, reutilizáveis e ressignificáveis. Ótima solução para driblar a falta de recursos, mas também uma grande oportunidade de estimular a criatividade, testando os limites da imaginação e da técnica. 

O grupo do qual faço parte, possui em seu repertório o espetáculo Livre-se (primeiro nesse formato dentro da trajetória do grupo).  Estreamos em junho de 2019 e de lá até o momento da parada forçada pela pandemia apresentamos para mais de 1.000 pessoas, sempre transitando, devido a sua praticidade, por praças públicas, mostras, feiras, escolas e eventos fechados, alcançando diversas cidades daqui e de Santa Catarina. 

Tivemos, enquanto o espetáculo pode rodar, a oportunidade de visualizar na prática todas essas coisas relatadas acima.  

À primeira vista o nosso projeto se justificava pela necessidade de fazer arte e levar ao público novas experiências com potencial para ampliar o horizonte de suas referências artísticas e estéticas. Fugindo das linguagens consolidadas na cidade e da espera por uma edificação específica para a prática teatral. Essa era a nossa ambição quando pensamos os primeiros detalhes. Porém, na medida em que percebíamos o alcance que nossa pequena história poderia ter, acabamos entendendo que nosso trabalho também caminhava ao encontro da constante necessidade que os professores têm de encontrar ferramentas de trabalho suficientemente potentes para o desenvolvimento de suas funções e que possam efetivamente auxiliar no processo de aprendizagem dos alunos. 

O ensino de Arte na escola deve proporcionar aos alunos o conhecimento básico das mais variadas manifestações artísticas que fizeram parte de uma determinada época, sociedade, economia e política, proporcionando uma reflexão e crítica sobre cada movimento histórico e, também, sobre a sociedade atual. Para isso, é de suma importância que os professores estejam preparados com o máximo de informações sobre os aspectos do fazer artístico.  

Neste caso, o Lambe-Lambe serve como laboratório para as pesquisas estéticas pertinentes as experimentações cênicas.\

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Mesmo que as obras sejam realizadas em uma escala menor (miniatura), questões como direção, atuação, dramaturgia, construção de bonecos, iluminação, sonoplastia, figurinos, cenotécnicapré e pós-produção, viabilização e, obviamente, pedagogia teatral, podem ser tratadas de forma aprofundada, visando contribuir para a criação de um ambiente de aprendizado e expressão.  

Ainda pensando nessa “devolução” do Teatro lambe-lambe para as salas de aula e partindo da Proposta Triangular do Ensino de Artes, acredito que, através da criação de espetáculos de Lambe-Lambe, é possível levar para a sala de aula noções relacionadas ao Fazer Artístico, a Contextualização e a Leitura das Obras de Arte.  

Acredito que só um saber consciente e informado torna possível a aprendizagem, e isso não se aplica apenas ao ensino de Arte. Isso se aplica a todas as formas de construção de conhecimento. E por qual razão não utilizar as ferramentas disponíveis? Através do Teatro lambe-lambe, podemos tratar diversos temas pertinentes a diversas disciplinas, nas mais distintas idades, com os mais variados objetivos. A versatilidade é parte fundamental da linguagem dessa modalidade. 

O fato é que essa técnica é encantadora e possui um potencial imensurável.  

Gastaria muitas páginas para falar tudo o que vi e aprendi com essa experiência. Talvez, ao longo do tempo e de forma bem diluída, eu possa contar algumas das histórias vividas através desse espetáculo em miniatura que proporcionou grandes emoções. 

Espero, um dia, ter um congestionamento de caixinhas de lambe-lambe em nossas praças. Dezenas de pequenos universos, em suas mais variadas formas, prontos para encantar e despertar centenas de olhos curiosos.  

Quando ver uma caixinha dessas por aí não se acanhe. Se aproxime e se permita dar uma espiadinha.  

Será inesquecível. 

Eu te garanto. 

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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