Eu tinha uma visão muito simplista do que era ser um pesquisador antes de cursar Licenciatura Física pela UFRGS. Minha visão era a mesma do senso comum: uma pessoa maluca, nem tão bem-vestida, sozinha, confinada em um laboratório. Lembro-me que sempre se utilizava a imagem de Albert Einstein coma língua de fora (e despenteado) para se falar da carreira de cientista. Outro pensamento comum que eu tinha é que temos que ter um “dom”, ou melhor, temos que ser gênios. Esses esteriótipos não surgiram do nada em minha cabeça, com certeza foram criados por desenhos que assistia (O Laboratório de Dexter, por exemplo) e pela educação básica que tive.
Porém, essa visão foi mudando durante a minha graduação devido as oportunidades de bolsa que tive. Para quem não sabe, a UFRGS possui quatro tipos de bolsas estudantis: administrativa, ensino (monitorias), extensão e iniciação científica. Graças ao meu empenho, bons resultados e relacionamentos, trabalhei nesses quatro eixos. Esses trabalhos me proporcionaram combater internamente aqueles esteriótipos sobre um cientista, e claro, compreender em certa medida como é o mundo da pesquisa científica. Foi aproveitando essas oportunidades que pude traduzir em vivências, as teorias (tanto da Física quanto da Educação) que estudava nas salas de aula da universidade. Hoje sei que a pesquisa exige um trabalho árduo, tempo dedicado, que conversemos com colegas das nossas e de outras áreas, que troquemos ideias com os professores e alunos, que nos questionemos a todo instante se o que estamos fazendo está corrento ou não, e que obviamente podemos nos vestir bem e não somos malucos.
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Não pensem vocês que falarei apenas de mim, mas achei interessante fazer uma espécie de “antes e durante” a graduação para mostrar como nossas visões de mundo mudam com o decorrer de nossas práticas (Etienne Wenger). Senti na pele que para compreendermos o que é o mundo acadêmico, da pesquisa mais precisamente, é importante termos a vivência ou, pelo menos, um contato (mínimo que seja) verdadeiro com esse mundo. A área da educação tenta fazer isso com os trabalhos tidos como científicos sobre animais, relevos, entre outros temas que – a meu ver – não chamam muito a atenção dos estudantes. Entretanto, pecam em coisas básicas como a estrutura de um trabalho (pesquisa), formas de referenciar informações que coletamos da internet, entre outros aspectos. Em suma, os trabalhos científicos que os estudantes fazem em nada contribuem com a “experiência de ser pesquisador”, pois o tema, a forma de fazer, as questões a serem respondidas, não foram os estudantes que fizeram, logo, não é uma curiosidade deles, e sim, uma burocracia do plano de ensino.
Fui subcoordenador de um laboratório de tecnologia do Colégio de Aplicação da UFRGS durante aproximadamente três anos. Foram anos incríveis em termos de aprendizado sobre o “fazer científico”. Eu orientava alunos desde o 6º ano do fundamental até o 3º ano do ensino médio. Eram minhas funções: fazer reuniões com os grupos de trabalho, orientar os alunos nas suas tarefas, corrigir relatórios de pesquisa e prepará-los para o Salão Jovem da UFRGS. Sempre que corrigia os trabalhos, percebia que aqueles alunos tinham noção do que estavam fazendo e o porquê de fazer aquilo. O motivo disso não é difícil de descobrir pois aqueles alunos estavam ali porque queriam, se inscreveram em um projeto por interesse próprio, logo, o engajamento era garantido. Obviamente haviam equívocos no percurso, mas eles tinham um certo domínio daquilo que estavam fazendo pois estavam vivenciando o “fazer científico”.
Onde quero chegar com esse papo? Percebo que a educação básica solicita a realização de trabalhos “científicos” da mesma forma que solicitava para mim no tempo em que era aluno do ensino básico, ou seja, trabalhos cujas respostas já estão prontas (e hoje, espalhadas pela internet). No mundo real, isso não é bem assim, nem sempre temos resposta para tudo. E como esses estudantes vão resolver problemas se não sabem como fazer uma investigação? Percebem, esse tipo de trabalho tradicional, sem curiosidade (há excessões sempre), extirpa a imaginação e o interesse de nossos estudantes. Na falta desses aspectos, morre um possível cientista e nasce um indivíduo com péssimas vivências do trabalho científico. Foi o meu caso, porém, os rumos que tomei fizeram com que renascesse alguém curioso, capaz de resolver problemas e que gosta de aprender.
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Não adianta ficar só falando e criticando, temos que mudar nossas práticas enquanto professores de ciências. É preciso implantar um pouco da metodologia acadêmica nos trabalhos científicos do ensino básico com vistas a aguçar a curiosidade e o fazer científico. Claro, para fazermos isso temos um pequeno entrave que é o currículo que temos que seguir ao longo do ano e torna atividades com uma demanda temporal maior difíceis de serem implantadas. Só que não. Somos professores, pesquisadores, tudo é possível se tivermos vontade e principalmente, se não tivermos medo de aprender com nossos estudantes. Nada impede de agregarmos ao currículo já existente atividades mais autênticas, fazendo pequenos ajustes.
É urgente estimularmos a iniciação científica (voluntária ou não) nas escolas para que a Ciência seja valorizada e nossos estudantes tenham um futuro promissor.
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