Eu procurava primeiro pelas ruas do Engenho. As avenidas largas e compridas. Os canteiros centrais bem cuidados. Eu procurava nas manhãs solares de sábado, na lenha que o pai organizava junto ao fogo de chão, as vozes de aço dos trovadores campeiros na Rádio Liberdade, no artesanato que o pai impunha à assadura da carne, o modo como servia a todos o churrasco. Procurava nos entrefolhas das árvores mais altas, como quando o sol se enfia pelos galhos abaixo e encontra nossos olhos em pequenas brechas. Eu procurava sem saber direito o quê, cruzando o bairro de bicicleta, a Celupa lá na ponta, e a fumaça subindo até o céu, e eu sabia que não era isso o que eu procurava.
Depois eu procurei pelo sítio. Nas primeiras árvores que o pai e a mãe plantaram. Na grama molhada das manhãs de inverno. A neblina que cobria o campo nas primeiras horas e deixava o verde meio branco. O trânsito ignoto dos bichos no rastro de pastos mais abastados. Procurei no vento que dobrava a vegetação rasteira, que fazia as copas mais elevadas cantarem num assobio agudo e triste, quase como um choro. Procurei nos primeiros tragos, no sangue escuro dos vinhos mais baratos, os vinhos que cabiam em nossos bolsos de guri. No movimento agitado do futebol, procurei também nas madrugadas de céu limpo de nuvens e apinhado de estrelas, as luzes todas de postes e de lâmpadas de casa do sítio apagadas simulando alguma idade ancestral.
Procurei na entrega do amor, nas audições que as músicas de amor reforçavam das histórias que eu vivia. As promessas nos versos das canções do Los Hermanos, depois do Chico, do Vinicius, do João Gilberto. E ainda não era isso. Eu ainda não havia encontrado. Então vieram os filmes, as luzes de cinema que imitavam as luzes do dia e da noite, só que mais verdadeiras. E mesmo assim, de mãos dadas com o amor e diante dessas luzes todas eu ainda não reconhecia, esse rosto inteiro me permanecia escondido.
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Parti para o restante da cidade. Frequentei as noites e os bares. Descobri o samba de verdade, esse de verdade que só é feito por inteiro no sereno das madrugadas. Descobri a beira e descobri o rio. Procurei mesmo nas águas escurecidas do rio e nas águas alaranjadas dele quando amanhece, na ilha e nas pedras da ilha, nos olhos de todos os amigos, nos olhos puros dos primos mais novos que nasciam conforme minha idade avançava. E em todas essas buscas restava uma frustração de aroma desconhecido e essa derrota sem um nome claro. Até um tempo.
Foi então o tempo que eu conheci o Neruda, o Nassar, o García Márquez, a Hilda, o Gullar. Foi então o tempo que eu conheci o Cortázar, o Altair, o Faulkner. Foi só então que eu descobri, a partir das letras deles, que já havia encontrado o que procurava desde lá atrás, desde os primeiros anos. O que não sabia era reconhecer sua verdadeira nomenclatura. Já havia encontrado nas ruas do Engenho, no artesanato das churrascadas do pai, nas luzes do sol que desabavam dos entrefolhas das mais altas árvores, nas manhãs de orvalho abundante do sítio, nos amores e nos amigos, nas águas do rio, nas pedras da ilha, nos olhos dos primos mais novos, no céu e no chão. E agora resto assim: na contemplação retroativa dessa beleza que já deixei passar e que recupero apenas pela memória. E no cuidado permanente para que a sua presença não mereça jamais a minha distração.
* Crônica publicada no livro "Guaíba Labirinto".
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