Quando guri, atravessava as tardes em partidas de futebol. Improvisávamos tijolos como traves, dividíamos os times e jogávamos a nossa Copa do Mundo na quadra de brita irregular, goleiras assimétricas e laterais delimitadas pelas calçadas.
Ainda trago no joelho a marca de uma dessas partidas, quando sofri uma falta que resultou em um corte profundo, canelas tingidas de vermelho e alguns pontos costurados num leito do Livramento. Há, contudo, outras marcas desse tempo. De um tipo que não consigo tocar com as mãos, mas que resistem como cicatrizes em algum lugar delicado da memória.
Nessas partidas de quase todo dia, não era exatamente o Guilherme quem jogava, tampouco meus vizinhos de mesma idade. Não, sobre as britas da Anacleto Prati desfilavam os grandes craques do futebol. A gurizada que beirava os dez anos virava um Romário, um Ronaldo, um Edmundo. Avatares infanto-juvenis praquela fantasia nossa de um dia ser jogador de verdade.
Eu era quase sempre o Bebeto, camisa sete da seleção de 94. Devo ter escolhido o Zidane em algum momento. Mas o que me interessa mais aqui não é isso. E sim este ato: o de se espantar tanto com a beleza produzida por alguém a ponto de querer partilhar daquilo, habitar aquilo, mesmo que seja pela fantasia.
Por esses dias de quarentena, um amigo propôs que compartilhássemos, em um grupo de whatsapp, os discos que estávamos escutando. Já que a geografia nos afastava, que nos encontrássemos no território encantado da canção. Corri os dedos no celular rumo ao aplicativo de música e puxei de lá dois álbuns para onde sempre regresso, espécies de lares sonoros: Samba na Madrugada, de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, e Memórias Cantando, do próprio Paulinho.
Me dei conta, quando já compartilhava os discos com os amigos, que Elton e Paulinho são o Bebeto e o Zidane do Guilherme que sou hoje. E fiquei feliz ao perceber que aquele espanto diante da beleza, experimentado pela primeira vez no Engenho dos anos 1990, ainda vive em mim.
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