Desenho de nuvem
Toda nuvem carrega consigo o desenho do sonho que deseja ser. Umas lembram gatos, outras frondosas árvores, há ainda as que imitam nosso desajeito humano.
Na maior parte do tempo, elas esquecem de tudo isso e vagam sem forma declarada, apenas embelezando o céu com seus contornos claros. Sem saber de si. Sem saber de nós.
Quando a consciência de ser nuvem regressa, porém, e isso geralmente acontece nos dias mais cinzas, um choro inaugural desaba sobre o mundo, sobre os homens, coisas e animais:
— Se não podemos ser da forma que sonhamos, se não podemos espelhar o mundo aqui de cima, moldamos a tudo e a todos com nossa pele móvel e transparente — diz aquela multidão de lágrimas redimidas, antes de lançar-se em curiosa procissão de queda.
Existência
A criança nasce e é jogada ao rio. Os braços da criança movimentam-se na lentidão do útero. Mas a criança já está no rio. E ela nada. Ela aprende a nadar na violência inédita das águas do rio. A criança se habitua a nadar, a virar pêndulo, a dançar de uma beira a outra do rio. A criança aprimora o nado, desbrava os caminhos da água, percorre os metros cúbicos que pode percorrer. E quando busca o rastro de seu trajeto, não há mais nada. A criança não encontra o rastro, ele desaparece no movimento das águas. A criança está perdida.
Então a criança crescendo. Os braços perdem a predileção para as pernas, mais úteis, agora, em terra firme. A criança crescendo trafega pela cidade, se reconhece nos olhos dos seus, imita o movimento deles, caminha igual, fala igual, gesticula igual, a criança crescendo aprende a ser espelho. E quando busca o reconhecimento completo na pele do espelho original, ele desaparece. Estilhaçado em tantos cacos que impossibilitariam sua reconstituição. A criança está sozinha.
A criança crescida, então, abre nas próprias costas ventres alados e vai embora num voo inaugural. Os olhos da criança crescida, agora numa terra construída no alto, veem tudo lá de cima, tudo diminuído. Sobrevoa a terra construída no alto com a certeza de uma verdade própria, costura num céu pragmático um sentido de existência. Até que o tempo das asas esmoreça. Até que as asas caiam maduras de suas costas. Lá de cima da terra construída no alto. A criança crescida está em queda.
E quando chega ao fundo da queda, como num susto, a criança se encontra dividida: a criança que nasce, a criança que cresce, a criança crescida, todas nadam, andam, voam na mesma direção: a direção de uma casa perdida.
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