Repórter Guaibense

Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

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O mate (chimarrão é convenção)

No simples ato de sentarmos acompanhados do mate, os pensamentos e emoções ganham asas

O mate (chimarrão é convenção)
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Muito antes da chegada de portugueses e espanhóis, a erva-mate já era consumida por povos indígenas da região sul do continente americano. Os índios faziam o consumo da planta Ilex Paraguariensis como parte de um ritual de confraternização. Os guaranis já usavam as folhas da erva-mate (chamada de ka'a karai, "folha sagrada", ou côgoi, palavra esta que foi posteriormente adaptada ao idioma português como "congonha") para preparar uma bebida estimulante.

Era o chamado ka'a y (traduzido do guarani, "água de folha"), as folhas da erva eram colocadas em uma cuia com água e o líquido era então chupado através de uma taquara, caniço ou osso (o chamado tacuapi), filtrado através de um trançado de fibras vegetais. Segundo o mito guarani, a bebida foi descoberta quando um velho índio não conseguiu mais acompanhar as andanças da tribo devido à sua idade avançada e teve que ficar para trás. Sua filha decidiu ficar com ele, mas ele queria que ela seguisse com a tribo, então o deus Tupã (ou então São Tomé) lhe ensinou a preparar uma bebida com as folhas da erva-mate, bebida esta que lhe daria forças e que permitiria a ele e a sua filha acompanharem a tribo. Os índios guaranis costumavam armazenar as folhas de erva-mate em cestas de taquara.

A bebida era consumida também pelos índios carijós, xetás, guairás, charruas, caingangues (que chamam o chimarrão de kógwuin) e os incas, pois todos eles mantinham relações comerciais com os guaranis. O termo "mate" tem origem no idioma dos incas, o quíchua, através do vocábulo mati, significando "cuia, recipiente" e designando a cabaça na qual até hoje se bebe a infusão de erva-mate. O termo "porongo", que nomeia a planta que fornece a cuia usada para beber o mate, também vem do quíchua, significando "vaso de barro com o gargalo estreito e comprido".

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Os colonos espanhóis no Paraguai observaram que os índios guaranis eram viciados na bebida e inicialmente os jesuítas espanhóis proibiram seu consumo devido a seus supostos efeitos afrodisíacos, qualificando a planta como "erva do diabo". Mas os espanhóis não tardaram a experimentar a bebida e aprová-la, passando a utilizá-la como ingrediente básico da sua dieta alimentar. Diz-se que o primeiro contato dos europeus com a bebida foi quando as tropas do general espanhol Irala se encontraram com os índios guaranis da região de Guaíra (atual estado brasileiro do Paraná), em 1554 e observaram o consumo generalizado da bebida entre os índios.

Foram os europeus que introduziram o metal nos apetrechos do mate: a bomba passou a ser feita de prata (abundante na região na época, oriunda das minas de Potosí, na atual Bolívia), com detalhes em ouro. A bomba passou a contar com um pequeno adorno colorido perto do bocal chamado "pitanga" (uma referência à pequena fruta vermelha homônima de aspecto semelhante), que tem a função prática de indicar o lado da bomba que deve ficar voltado para cima. A cuia passou a ter o bocal revestido de prata. E foi criada uma armação de metal para sustentar a cuia, quando ela não estivesse sendo usada. Para os menos abastados, em vez da prata era utilizado outro metal branco menos valioso, como a alpaca ou o alumínio. A água usada no preparo do mate pelos índios guaranis era, inicialmente, fria. Foram os europeus que passaram a utilizar água quente no preparo da bebida, muito provavelmente para evitar doenças oriundas de água contaminada não fervida. Os europeus também passaram a armazenar a erva-mate em bolsas impermeáveis de couro, os chamados "surrões".

A palavra castelhana cimarrón, que significa "selvagem" e que era utilizada para se referir ao gado bovino que havia sido introduzido pelos espanhóis na América do Sul e que havia se dispersado, tornando-se selvagem, foi usada pelos luso-brasileiros do Rio Grande do Sul para designar a bebida, que passou a ser conhecida como chimarrão.

A erva-mate, ou Ilex paraguariensis, possui uma história diretamente ligada com a trajetória do povo sul-americano, ela foi classificada cientificamente em 1822 pelo botânico francês Saint-Hilaire e continuou a ser consumida em forma de chá ou mate (chimarrão) nas conhecidas cuias.

Em 1834, o imigrante espanhol José Caetano Munhoz fundou, na cidade de Curitiba, no Brasil, um engenho de erva-mate que seria o início da Companhia Real de Chá.

O produto foi levado a outros pontos do país e para países vizinhos por meio das melhorias dos meios de transportes, que incluíram o deslocamento no lombo de animais, carroças trazidas da Europa, barcos a vapor, os trens e, finalmente, os caminhões. Assim, a erva-mate alcançou um patamar de consumo atual que transcende o Brasil e ganha, até mesmo, outros continentes.

A erva mate, importante item de consumo do povo gaúcho, trás consigo além de muita história de significados, povos, processos e comercialização, a relevante missão de nos aproximarmos. Ao cevarmos nosso mate ou chimarrão, temos a oportunidade de, durante este processo, nos conectarmos com os nossos pensamentos, quando o processo de cevar vai acontecendo, vamos ali também encilhando nossas emoções.

No simples ato de sentarmos acompanhados do mate, os pensamentos e emoções ganham asas, percorrem pelos mais distante pagos do imaginário. Sonhamos, fazemos planos, refletimos sobre as atitudes, projetos, família, o dia a dia, e o que tem acontecido ao redor.

E cá para nós, não foram poucas coisas nos últimos tempos!

Além de ser nosso companheiro nas horas do “eu”, comigo mesmo! O mate também carrega na sua história o simbolismo da união de conviver em grupo, em uma roda bem formada, sempre respeitando os mais velhos em primeiro lugar, proporcionando uma boa prosa, aprendizado simples, como a vida deve ser, onde um acrescenta troca na vida do outro e temos oportunidade de levar algo que nos acrescenta como seres humanos.

 

“O mate, sempre  cevado a capricho,

traduz a importância da hora da calma

enquanto uma mão entrega a outra a bebida

o respeito e os valores se fundem na alma”

                                                               Mário Terres

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