Há uma janela aberta em uma casa vizinha. Não enxergo o interior do cômodo, mas consigo ver que a janela está aberta, as venezianas recolhidas feito duas sanfonas em silêncio. Como venta forte no Centro da cidade, a cortina bege é puxada para o lado de fora da casa, dança sem um ritmo declarado até que alça um voo curto e horizontal, como alguém que estivesse sendo sugada por uma agressiva turbina de avião e sustentasse a própria sobrevivência no abraço derradeiro que os dedos depositam em alguma haste de metal, sua última esperança.
A casa fica nos fundos de um estacionamento. Um dos tantos estacionamentos do Centro. Por que automóveis ocupam tanto espaço no mundo quanto as pessoas, os animais, as bicicletas? Há um senhor mascarado que trabalha no estacionamento. É simpático, prestativo. Tem idade para ser meu avô. Cumprimenta a todos com um meneio de cabeça e com comentários sobre o clima, sobre o grau de dificuldade das vagas disponíveis no estacionamento, sobre o movimento do Centro. Sempre tenho a impressão que as pessoas mais velhas adquirem ares de guru, como se tivéssemos milhões de Yodas vagando pelo mundo. Como se monumentos móveis em homenagem ao tempo se materializassem diante de nós. Quando falam sobre assuntos aparentemente sem importância, esses mesmos assuntos se vestem de um verniz mais raro, longevo, tenaz.
Leia também: Três contos breves
A dança que esse senhor cumpre é bem mais lenta do que a da cortina na janela. Como um treinador experiente, indica aos motoristas o caminho adequado aos carros, as curvas e as manobras mais certeiras, os pés envolvidos em atalhos de quem já viveu mais do que viverá, de quem viu mais sobre o mundo do que todos os motoristas que trafegarão pelo estacionamento durante o dia já viram juntos. Os carros obedientes às indicações do senhor. A cortina da janela, às vontades do vento.
Na maior parte do tempo, porém, o senhor fica sentado em uma cadeira localizada nos fundos do estacionamento. O olhar depositado adiante, medindo em sua quietude o vagar de carros e pessoas na rua em frente. Eventualmente, se levanta, banha as mãos com álcool-gel, consulta o aparelho celular por segundos, comove-se com alguma mensagem recebida. Mas logo regressa à cadeira, as mãos escondidas nos bolsos do casaco. Como agora a cortina também o faz, recolhida para dentro da janela, resguardada no cativeiro invisível do cômodo da casa vizinha.
A cadeira está metros abaixo da janela da casa. Se eu pudesse traçar uma linha reta e vertical, ela começaria no alto da janela onde dança a cortina e acabaria exatamente na cadeira onde o senhor está sentado com as mãos nos bolsos, observando o movimento do micromundo guaibense. Esses alinhamentos insondáveis que a vida por vezes nos desenha diante dos olhos. Algo que remete aos inesperados e desconfortáveis arrepios que eriçam os pelos da nuca ou aos sentimentos que despertam paisagens naturais inacreditavelmente belas. Só que, nesse caso, como se tudo isso adquirisse uma existência microscópica, minimalista, adequada às dimensões da rotina comezinha da maioria dos dias.
O senhor levanta da cadeira, parece querer apenas esticar um pouco o corpo, caminha até o portão do estacionamento. Olha para um lado, olha para o outro, olha para o céu: as nuvens cinzas estacionadas sobre Guaíba como os automóveis adormecidos no estacionamento.
Raspa os solados dos tênis no chão de brita como quem rumina com os pés algum ressentimento muito antigo. Dá meia volta e caminha lentamente na direção da cadeira vazia. Até que para. Olha para o alto. Eu também olho para o alto, tento encontrar o que ele observa, o que fez com que parasse seu vagar. O senhor na verdade olha para o alto da janela. Olha para a cortina bege que novamente excede a geografia da casa vizinha e ganha a rua na dança embalada pelo vento.
Leia também: Devoção e gritaria
O senhor puxa o celular do bolso e parece filmar aquela dança. O que dura alguns segundos. A cortina se desdobrando na canção silenciosa do vento enquanto o senhor registra tudo. As mãos fazendo o celular acompanhar as curvas daquele balé, firmes no propósito de guardar por mais tempo a matéria efêmera a que seus olhos assistem. Me certifico de que mais ninguém está vendo a cortina dançando na janela além de mim e do senhor. De que ninguém, além de mim, observa o senhor filmando a cortina dançando na janela. Ele também parece olhar em volta, sorrindo consigo, talvez investigando se não há mais ninguém com quem compartilhar aquela dança, habitante de uma solidão momentânea e plena, esses momentos que marcam mais pela dificuldade de depositarmos sobre eles algum significado claro, como se ficassem ressoando insondáveis e vazios em nossas mentes, eternos porque inacabados, territórios governados pelo que há de mais improvável e duradouro na substância perecível dos dias.
Comentários: