Repórter Guaibense

Terça-feira, 26 de Maio de 2026

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O trem imóvel na chuva

Um conto sobre despedidas

O trem imóvel na chuva
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Caminho sabendo que vou encontrar Carlos na beira, Carlos sentado em frente ao bar, Carlos envolto na fumaça do cigarro e já os olhos brilhantes e bêbados de Carlos olhando o rio. Mas e como curar a amizade se a distância fez morada por lá?, Como tomar o rio como amuleto mútuo?, Como fazer a Escadaria ser passagem para a noite interminável na casa de Léo e Bia?, Como saber, enfim, se ainda existe Léo e Bia?, ou se não mais? Se Léo. E Bia.

Caminho já meio tonto também, a cachaça que encontrei num canto do galpão, os cantos do galpão de onde emergiam desde sempre os óleos que engraxavam os olhos dos adultos. Ainda pequeno eu observava, contrariado e raivoso, o pai e o tio fazerem romper a rolha e experimentarem o aroma das cachaças vagabundas que eram purificadas, em mistura incongruente, na carne virginal das frutas colhidas no pomar da fazenda. Me chegava em pouco tempo um perfume de flor escura, carregado e provocante.

Há pouco, servi cada um dos copos aos olhos da mãe. A mãe reparou da cozinha que vi, fez silêncio sobre, um silêncio estalado no barulho das panelas que diziam por ela Tenho mais o que fazer. Eu também tinha. Mas como reparar amizade que agoniza, mãe, como?

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A noite é luminosa, estrela cobrindo Arvoredo como lona preta toda furada em dia de sol. Distante, no céu que vem do sul, algumas nuvens carregadas. A praça é quase deserta. A praça retangular cujas pontas feririam, caso fosse faca, os pés da igreja, do fórum, da prefeitura, do banco. A escadaria finalmente aparece na vista. O rio lá atrás, uma fatia dele, antes das luzes de Encantado. O passo diminui. É a vista, o contraste de negrume e luminária misturado tudo e tudo balançando no degrau a degrau ao descer da escadaria. Cada vez mais negrume do rio. Cada vez menos luminária por detrás dele. É o trago, é a beleza desse contraste todo, é a mesa de Carlos que já vejo mesmo distante: tudo conjugado num mesmo quadro, tudo forjando lágrima nos meus olhos. Apresso o passo para a brisa bater no rosto e secar a vista antes de encontrar aquele que já foi meu amigo. E amigo se perde?

Eu decidira antes mesmo de sair de casa: vou contar ao Carlos que nossa amizade sempre derrotou qualquer capricho do tempo. É claro, o Carlos ouvindo, como sempre ouviu, naquela mistura de riso e fumaça que todo fumante engendra num ffffff fu fu fu fu de olhos semicerrados e cara de magnânimo, e o Carlos seria tocado pelo mesmo sentimento que sempre nos desconcertava nas audições bêbadas de Milton Nascimento, nas citações presunçosas de Neruda, no nascer do sol renovador sobre a escadaria.

Eu decidira antes mesmo de sair de casa: vou contar ao Carlos que derrotamos o tempo.

E agora sou eu mergulhando língua no copo, para que a língua não caia em constrangimentos maiores do que o silêncio que tombou sobre nosso encontro desde que cheguei e disse Carlos, meu irmão, há quanto tempo?, já com os braços abertos, feito pássaro que ameaça voo, e fui recebido num E aí, Pietro, um E aí, Pietro daqueles que não condenam, tampouco inocentam, e a mão direita de Carlos feito funda que anula minhas asas num cumprimento protocolar.

E agora é Carlos olhando o rio, como sempre olhou. O cigarro nos dedos, a fumaça se enroscando no vazio entre nós, os olhos verdes de Carlos machucados por uma ponta da fumaça que desviou com o vento e morreu dentro deles.

E como é a capital?, diz o Carlos.

É Arvoredo com mania de grandeza, eu digo, na verdade todo lugar é meio parecido.

Tento não parecer afetado. Começa a cair uma garoa fina, as nuvens do sul chegam, enfim. Os olhos de Carlos cobrem-se ainda mais das pálpebras, mas não cogitamos deixar a calçada.

Tento enxergar Encantado, agora escondida pela neblina que a chuva joga sobre o rio. A ilha permanece invisível aos olhos.

Carlos, eu queria te falar um negócio.

Ele me olha sem piscar os olhos por um tempo, um olhar vazio, de casa desabitada.

É sobre o porquê de eu ter ido embora daquele jeito, retomo o discurso.

Não precisa, ele se adianta, enquanto espreme o cigarro no cinzeiro como se tentasse enterrar um corpo sem cavar a terra.

O silêncio entre nós é agravado pela ausência de clientes no bar, ausência de carros na rua.        

E onde que andam Léo e Bia?, eu arrisco.

Foram embora.

Pra onde?

Silêncio. Quatro olhos no rio. A garoa alarga suas gotas.

E o Tonho?

Foi embora.

E a Gisa?

Embora.

E tu, Carlos?

Eu?!, o Carlos verbaliza o eu com um sorriso nascendo de escárnio e autoironia, Eu fiquei, Pietro.

Nos abraçamos, depois de algum tempo, em inevitável despedida, talvez um abraço financiado mais na demasia do trago do que no afeto sincero, já sob uma chuva uniforme e vertical, sem vento algum.

E naquele abraço, nas mãos de Carlos que me seguram por mais tempo do que deveriam, eu sentia todo o peso do aniquilamento de uma amizade primeira.

Me afastei sem olhar pra trás. Somente quando cheguei ao primeiro degrau da escadaria, já ensopado pela chuva que encorpava, forjei coragem nos olhos e me virei: a figura de Carlos fumando e bebendo sob a chuva e sob o olhar incrédulo dos garçons, me lembrou daquele trecho de poema do Neruda, o mesmo Neruda que sempre me aproximou de Carlos, e que agora chegava como a forma de um epitáfio do afastamento: Há algo mais triste no mundo do que um trem imóvel na chuva?

 Há, Neruda. Há algo mais triste. Há o Carlos imóvel. Sob a chuva de Arvoredo.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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