Um dia Dom Barulho, no seu costumeiro mate matinal, ao lado do fogão a lenha, sentado no mochinho, com as pernas cruzadas, me olhou com olhos serenos: "Meu neto, tu que tem tantas perguntas, sabes qual a meta de viver?"
Aquele questionamento me pegou de surpresa. Ele nem se abalou, me deixou pensando e ouvindo o que eu argumentava.
Falei que a meta era estudar, criar patrimônio, comprar terras, ter cabeças de gado, casa boa e uma família grande.
Sorvendo o mate espumoso, foi vagarosamente chupando a infusão primitiva, esperou acabar, roncar a cambona e começou a filosofar:
A meta da vida é morrer meu neto! (Sofri um impacto desconcertante ao ouvir a frase). A gente já nasce fadado a morte, isso é fato e nesse tempo entra nascer e morrer a gente acha que vira dono das coisas, mas no momento que amadurece a perspectiva de partir dessa vida, olhamos para tudo o que possuímos e vemos que aquilo na verdade é do mundo, faz parte do ciclo que se renova a cada ida e vinda.
E nesta oportunidade que temos de renovar a cada dia, com ela vem a chance de nos aproximarmos mais da esperança, também de nos aproximarmos do que faz sentido.
Veja bem, em quantos momentos já deixaste de visitar alguém importante para ti? Quem sabe deixaste para depois aquela oportunidade de iniciar algo novo? Dentre tantas outras coisas que lhe importam. E assim, vamos tocando o nosso dia a dia, talvez, sem dar o devido valor as coisas mais singelas, porém, as que mais ficam em nossa memória.
A memória da roda de conversa, um baile bem gaúcho, a singeleza de contemplar o brincar das crianças, um belo por de sol ou aquele dia de frio, mas com um solzinho, onde gostamos de lagartear, comer umas bergamotas e tomar um mate véio bem topetudo.
O tempo também é no agora, momento presente! Por vezes, ficamos muito focados no futuro, no que temos a conquistar e não valorizamos o que se passa no agora! Perdemos a chance de notar as nossas emoções, como: vibrar as pequenas ou grandes conquistas, a coragem de seguir e se permitir, mas também a tristeza de perda, etc. Dar espaço para as emoções, nos conecta com algo precioso que somente, nós, seres humanos somos capazes de sentir.
Afinal, o que gostaria que estivesse escrito em sua lapide? Já pensou nisso? Algo do tipo: “aqui, viveu uma pessoa de sorriso largo, realizações e bons amigos! ” ou “aqui, viveu uma pessoa de semblante rude, poucas conquistas e sozinho! ”
Caminhamos sempre de encontro aquilo que buscamos, encilhe bem a preceito o pingo da vida, ponha a tua melhor pilcha, alce a perna e segue a jornada com a cabeça sempre erguida, assim vislumbrará as belezas do caminho e o brilho do sol e das estrelas no horizonte.
Fechei a boca, porque tanta filosofia me deixa embasbacado, agradeci meu avô e fui seguir as minhas obrigações.
Quando me despedi pedindo “benção vô” pensei: “Esse Dom Barulho sempre nos abre os olhos...”
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