Doutor Lauro
Há um sopro permanente na Doutor Lauro. Uma pressa de vento que desce desde a Escadaria, atravessa a São José e se prolonga até o fim. Mesmo nos verões escaldantes, há uma brisa que anuncia seu trânsito como uma chama eterna e invisível. Uma chama feita apenas de vento.
Basta reparar nos passantes da Doutor Lauro, sobretudo aqueles que trafegam da esquina das farmácias até a Bento Gonçalves em dias mais frios: há um traço severo e recolhido de quem trava alguma luta com o vento, há um resguardo próprio, um silêncio de respeito a essa criatura que não se enxerga mas de quem se escuta o uivo. Desse vento que sacode as saias e revolve os lixos mal encaminhados para o alto.
São José
A São José é refém da luz. Resta pouca vida na São José quando o sol vai embora. As lojas aos poucos fecham as portas e a rua agachada ainda tenta resgatar um filete de luz que enxerga lá dentro. Parece que alguns lojistas sabem do abandono que a via sofrerá por toda a noite e por isso adiam o fechamento, aguardam com paciência os clientes noturnos e somente cerram as aberturas de ferro quando o movimento cessa. As luzes que restam nascem então do débil alaranjado dos postes.
As únicas companheiras da São José nas madrugadas são as farmácias. É como se adivinhassem que a rua precisa de cuidados, que depois daquelas companhias em abundância durante o dia, a solidão lhe deixa enferma. E é junto das farmácias e dos postes que a São José sobrevive em seu sonho noturno: de curas e de luzes artificiais.
Otaviano
A Otaviano é lomba que nasceu para ter apenas um sentido. Feito córrego ou arroio que sempre deságua no rio. Subir a Otaviano é dar as costas ao lago, dar as costas aos morros da capital, dar as costas às águas que brilham do sol ou da lua. Subir a Otaviano a pé comprova tudo isso. A cada passo a rua te convence de que se está consumando um erro, como se degraus repentinos surgissem pelo caminho, ampliando a distância, prolongando o cansaço, extinguindo o ar dos pulmões.
Para a descida, há dois horários apropriados: o amanhecer e o anoitecer. Uma luz parecida, luz de recomeço, cai sobre Guaíba. O céu ruboriza em partes muitas. É necessário aguardar por alguns instantes lá no alto da lomba, reparar na paisagem por inteiro, olhar aquele conjunto de rio, morros, ilha e céu com a atenção devida, como quem fotografa, e só então descer lentamente a rua, integrar-se aos poucos naquela fotografia que se via lá do alto, aproximar-se do rio e ouvir suas queixas no choque com o calçadão, caminhar pela sua beirada como quem busca o ângulo perfeito para visualizar o conjunto.
E só depois de cruzar toda a Beira, se convencer, então, de que é lá do alto da Otaviano, quase pisando na Doutor Lauro, de que é lá do alto mesmo, ao amanhecer ou nos fins de tarde, que Guaíba se revela por inteira.
Comentários: