Há oito anos, o amigo Romualdo Furtado nos deixava. Romu partiu muito cedo, mas deixou uma marca de talento inimitável na nossa cidade, especialmente no jornalismo. Não canso de afirmar: é o maior jornalista que Guaíba já teve – além de ter sido cronista de um lirismo implacável.
Escrevi a crônica abaixo um ano após sua morte. Ela foi publicada originalmente no Jornal O Guaíba, depois integrada aos textos do livro Guaíba Labirinto.
Republico aqui para reforçar essa homenagem a um amigo de quem sinto saudades e de quem me lembro sempre que escuto Tom Jobim, leio Bukowski, ouço as canções do Sonic ou me surpreendo com alguma faceta nova de beleza que Guaíba eventualmente me apresenta.
Saudade
“Céu, tão grande é o céu
E bando de nuvens
Que passam ligeiras
Pra onde elas vão?
Ah, eu não sei, não sei...”
Tom Jobim
Guaíba, 25 de junho de 2014:
Meu caro amigo, no primeiro aniversário de tua partida, nossa cidade choveu por toda a noite e madrugada. Como quem afasta a luz de seu rosto em luto e constrange as lágrimas apenas à penumbra do quarto, como quem quisesse ser surpreendida lembrando-se de ti apenas em sorrisos. Guaíba parecia Macondo, Romu, com essa chuva toda e tanta que caiu. Macondo que, faz pouco, ficou órfã de Gabo. Assim como seguimos órfãos de ti.
Embora esteja inclinado a recuperar nossas memórias, relembrar o trânsito agitado de há dez anos na redação do Guaíba, os sambas em jogral compartilhados nas mesas do Júlio ou da Lagoa, a contemplação silenciosa do fim de tarde sobre as águas do rio, eu sei que espera de mim novidades, que nos cobra a pressa e a sede pela vida que sempre te moveram.
Pois o ano que passa é sempre maior na memória do que na presença. Esses traquejos da saudade que nos apertam o peito e distorcem o tempo. É somente quando acareamos o que passou com o que se passa agora, que nos damos conta desses universos temporais distintos, embora siameses.
Por aqui tudo anda muito parecido. Ainda descemos à Beira para brindar aos amigos presentes e ausentes. Ainda escutamos Chico, Tom e Vinícius. Ainda cruzamos a madrugada como um túnel que nos levasse a algum paraíso afetivo, a luz do amanhecer como a anunciar sua chegada. Ainda nos damos conta somente mais tarde, já na lida do dia seguinte, que o paraíso afetivo fora fundado durante toda a noite, na presença daqueles amigos que nos cercam. E isso nos tranquiliza.
A cidade continua bela e confusa, simpática e injusta, e mais uma dezena de contradições que tu tanto observava nos teus escritos e que parecem entranhadas em raízes fundas e perenes, mais antigas do que os mais antigos. Ainda há aqueles que perpetuam nossos problemas, aqueles mesmos que tu denunciava, parece que eles preparam sempre uma renovação, como se em algum terreno remoto houvesse uma fábrica de burocratas. Mas há ainda a música, há ainda o teatro, há ainda o Morro, a Beira e a Ilha, e é desse oxigênio que a cidade respira para não entrar em combustão.
Não sei até quando vou ficar por aqui, Romu. Mas enquanto estiver em Guaíba, há um trajeto obrigatório nos mais belos finais de tarde. Descer a Otaviano, cruzar a Sete de Setembro, chegar até a Beira para encontrar todo o pessoal. Ali, reunido com eles, olhar pro rio e brindar contigo. Para entoar, então, toda a letra de Dindi: como um hino de alegria e de saudade.
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