Repórter Guaibense

Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

Colunas/Geral

Sensibilidade e diversidade

Quando as letras formam mais que palavras

Sensibilidade e diversidade
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Continuando a sequência de entrevistas com os trabalhadores da Cultura aqui da nossa cidade, hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a escritora, editora, contadora de histórias e ativista cultural Débora Jardim Jardim (sim Jardim²). 

Bibliotecária de formação também possui um trabalho consolidado voltado a formação de leitores e acessibilidade. 

Tive o prazer de trazer para a coluna dessa semana mais um bate papo interessantíssimo.   

Leia Também:

Te acomoda na poltrona, pega um cafezinho e te prepara porque lá vem história com uma mulher de temperamento forte e trato sensível. 
 
Respeitável público! 

Com vocês Débora Jardim Jardim! 

______________________ 

DRONE CULTURAL - Primeiramente muito obrigado por aceitar o convite. É uma honra te receber aqui e um prazer poder, junto com nossos vizinhos guaibenses, descobrir um pouco mais sobre a construção de uma das nossas mais relevantes ativistas culturais locais.  

Conte um pouco sobre a tua formação profissional e trajetória no Universo Literário. Quem é a Débora? A partir de que ponto de vista você vê o mundo?  

DÉBORA – Olá, eu que fico muito honrada em poder participar. Sou bibliotecária formada pela UFRGS, com especialização em Teoria e Prática na Formação do Leitor pela UERGS. Logo depois de formada fui contratada por uma Universidade, onde atuei por quase 16 anos, passando pelo Processamento Técnico, Serviço Online de Informação e finalmente a Coordenação de Bibliotecas Escolares dessa rede, atuando em dez escolasFui coordenadora da Comissão de Educação do CRB10 e do Fórum Gaúcho pela Melhoria das Bibliotecas Escolares e Públicas (evento que circulava pelo Estado), tendo participado do GT que organizou algumas edições do Seminário Internacional “O papel da leitura no desenvolvimento da sociedade”, que ocorre na Feira do Livro de Porto Alegre e também fiz parte do Conselho Municipal do Livro e Leitura de Porto Alegre.

Atualmente faço parte do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Guaíba, como suplente no segmento Livro e Literaturada Celig – Central da Literatura de Guaíba e sou mediadora do Leia Mulheres Guaíba. Minha trajetória na literatura começou na infância, tendo sido criada pela minha mãe em um ambiente leitor que foi reforçado com minhas visitas insistentes a nossa Biblioteca Pública Municipal Darcy Azambuja. Ali, ao caminhar pelas estantes, eu realmente sentia que aquele universo era meu, era um dos poucos lugares em que eu me sentia realmente em casa. Minha mãe assinava a Revista Círculo do Livro, onde havia resenhas dos livros para venda e eu esperava ansiosa a revista chegar. Eu lia muito e de forma bem aleatória, porque minha mãe me deixava livre, então comecei com os Irmãos Grimm e aos 11 anos eu lia Sidney Sheldon, Heinz G. KonsalikMarion Zimmer Bradley, Anne Rice, J. M. Simmel e Júlia e Bianca (livretos com romance açucarado” muito conhecidos na época), depois fui para o meu gênero preferido, o romance policial, geralmente escrito por mulheres como Mry Higgins Clark e Patricia Highsmith. 

No final da faculdade comecei a escrever poesias, mas poucas. Há cerca de 10 anos comecei a escrever livros para a infância e publiquei “Meu amigo é diferente!”, que foi o quinto livro que escrevi e o primeiro que publiquei. De lá para cá, publiquei mais 4 livros para a infância e participei de uma coletânea. Tenho material para cerca de 10 livros para a infância e desde o ano passado tenho escrito alguns contos e crônicas e participado de cursos visando qualificar meus textos. Como autora estive em diversas Feiras do Livro pelo estado e em Programas de Leitura como o Autor Presente (IEL) e o Adote um Escritor, bem como apresentações em escolas e universidades. Fui patrona da XI Feira do Livro de Eldorado do Sulmadrinha da área infantil da 25ª Feira do Livro de Guaíba e tive a alegria de receber o Prêmio Carlos Nobre de Cultura na categoria Projeto de Inclusão pelo livro “Memórias do tempo e olhos do coração”. Sobre mim, de forma mais pessoal, não sei o que falar..., mas posso dizer que sou uma observadora do mundo e tenho um olhar cuidadoso sobre o cotidiano.  

DC – A Literatura entra cedinho na nossa vida. Até mesmo antes de aprendermos a ler. Mas de forma mais marcante a partir da alfabetização. Qual é a tua lembrança mais antiga em relação ao contato com um livro? E, mais tarde, como a literatura passou a fazer parte da tua forma de expressão? Em que momento se tornou objetivo profissional?? 

DÉBORA – A lembrança mais antiga que tenho é da revista chegando, minha mãe lendo e me presenteando com um livro, algo que vou contar na obra “A menina na janela” que vai ser lançada em outubro. Também da minha professora Ana Lúcia, do meu 1º ano, me presenteando com o livro “O rabo do gato” de Mary e Eliardo França - até hoje lembro da emoção que eu senti com esse texto e suas ilustrações. A literatura começou a fazer parte da minha forma de expressão através da formação profissional que tive pela mediação e contação de histórias e se tornou objetivo profissional ali, passando depois para a questão da escrita. 

DC – Para ti, qual é o principal significado de Literatura?  

DÉBORA – A liberdade: de imaginar e de se expressar, de ser e de sentir. 

DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração?? 

DÉBORA –Busco inspiração em fatos, ideias ou pessoas que me tocam de alguma forma, mas escrevo muito sobre mim, sobre fatos que aconteceram comigo ou com alguém que conheço. Gosto do termo “escrevivências” usado pela grande Conceição Evaristo, mas é óbvio que tenho consciência que não chego nem no dedo mindinho do pé dela, no que se refere a escrita. 

DC –Seja como escritor, seja como editor, qual é o maior desafio para quem resolve participar do mercado literário? 

DÉBORA – É vender uma ideia, tornar um sonho realidade. É tu conseguires prender o interesse do leitor e garantir que ele leve o livro para casa. 

DC – Você é proprietária da Editora Palavreado, um dos braços da nossa cadeia cultural aqui na cidade. Conta um pouco sobre o trabalho de vocês na editora?  

DÉBORA – Na editora atuo como gerente editorial, trabalhando com projetos, curadoria e atendimento a escritoras(es), mas sobre tudo sou uma escritora independente, então passei por bastante coisa para poder me publicar e não tive muita ajuda. Como já íamos fazer todo o projeto editorial do livro “Entre Amarras & Nós” que contou com 19 escritoras(es) guaibenses ou vinculados a cidade, resolvemos criar a Palavreado. A editora foi idealizada para facilitar a entrada de escritores iniciantes no universo literário e encorajá-los a tirar seus textos da gaveta. Procuramos fazer um trabalho personalizado, realmente escutando e conversando com os escritores que a cada processo do livro são comunicados e fazem parte ativamente das escolhas.

Isso é um exercício e um desafioporque trabalhamos com texto, imagem, projeto gráfico, qualidade, marketingdivulgação e venda do produto. E queremos proporcionar tudo isso por um preço acessível, para que quem escreve possa realmente realizar seu sonho de publicar. Além disso fazemos parcerias com empreendedoras e empreendedores da cidade, que não são necessariamente da cultura, para venda de nossos kits literários. Dessa forma procuramos promover a cultura e o empreendedorismo localo que é um trabalho que está iniciando, mas que já está dando frutos. 

Leia também: Fique à vontade, pode espiar

DC – O que a Literatura acrescentou na tua vida?? 

DÉBORA –O livro e a literatura são a minha vida. Me proporcionaram tudo o que tenho. Por eles me tornei bibliotecária e escritora. 

DC – Que tipo de aspecto da tua vida tu achas que deve exclusivamente a Arte e a Literatura? Tipo “Se não fosse a Literatura eu não...”? 

DÉBORA – Eu não teria chegado até aqui. Não seria quem sou... apesar de as vezes querer me “divorciar de mim”, gosto da pessoa que me tornei e de tudo que aprendi até agora e isso está vinculado diretamente ao livro e a literatura, seja pela profissão, seja pelo trabalho que exerço agora, pela escrita, pelas pessoas lindas e pelos lugares que conheci e as histórias que vivenciei. Isso tudo podendo ser compartilhado com crianças é de uma beleza só.  

DC - Quais são os limites de um livro? Eles existem? 

DÉBORA – Para mim não há limites para o livro ou para o escritor, assim como não há limites para a nossa imaginação. Isso está de certa forma colocado nas Cinco Leis de Ranganathan, muito conhecidas entre os bibliotecários, sendo uma delas “para cada livroseu leitor”. Há uma intelectualização da leitura, o que me incomoda bastante, mas como bibliotecária aprendi a respeitar as escolhas dos leitores e a mediá-las. 

DC – Você tem uma relação muito próxima com a Central de Literatura de Guaíba, a CELIG.  

A CELIG é um coletivo de escritores bastante interessante, com um potencial incrível e que contribui bastante para a agitação cultural da cidade.  

Desse projeto, saiu inclusive uma obra literária construída em conjunto por diversos escritores daqui da cidade.  

Podes falar sobre a importância desse movimento de aproximação de talentos locais? Aproveita e conta sobre algumas das ações desenvolvidas a partir dessas experimentações coletivas. De que forma você imagina que esse tipo de iniciativa pode contribuir para a formação e aprimoramento profissional dos nossos escritores?   

DÉBORA – A cidade já contava com 2 grupos que fazem um trabalho maravilhoso pela literatura: o Café com Letras e o Leialogo e havia também o Leitores Vorazes que era um Clube de Leitura, além do trabalho realizado pelo Guima Beineke, proprietário da Livraria Entrelinhas e conhecido como “o livreiro de Guaíba”. Em uma das edições da Feira do Livro de Guaíba, as escritoras e escritores reunidos em uma atividade, mediada pelo querido amigo, jornalista e escritor Guilherme Lessa Bica e seguindo o conselho do escritor Catulo Fernandes, começaram a pensar na criação de uma associação, que acabou por se tornar esse coletivo conhecido por Celig, com o objetivo de divulgar e promover a escrita e a literatura local. O que acabou sendo feito através de saraus, workshops e outras atividades literárias. A partir disso começamos a desenhar parcerias com os outros grupos literários, o que fortaleceu o movimento e a pluralidade de nossas ações. A Celig tem colaborado também com outras ações culturais, seja no Mês da Mulher, no programa Amba Debate na Rádio Fraternidade ou na Virada Literária, realizada em parceria com o Café com Letras e que resultou em uma noite na Biblioteca Pública com 12 horas de atividades ininterruptas. E não posso deixar de citar locais que são ponto de encontros culturais, como a já citada Livraria Entrelinhas, o Clown Café e Caramele. Tudo isso nos levou ao livro “Entre Amarras & Nós” que foi um processo e uma experiência extremamente enriquecedora de construção e escrita coletiva e também a minha monografia intitulada “O bibliotecário fora da biblioteca: ações culturais de incentivo à leitura e à escrita na formação do leitor”. Sobre a formação e aprimoramento, no final do ano passado fizemos uma parceria com o pessoal do Literatura RS, um “canal” muito importante de promoção do livro e literatura e que tem apoiado alguns escritores no seu marketing pessoal. Além disso esse ano a programação das atividades da Celig - que foi acordada em uma reunião, estava muito voltada para cursos e momentos para escrita criativa, bem como visitas culturais a outros municípios para conhecer o meio literário dessas cidades (Caxias do Sul seria a primeira), o que não foi possível devido a pandemia. Acredito que o compartilhar textos, a pluralidade de ideias, a troca, além de cursos, oficinas e workshops, influenciam na forma como o escritor vê a sua escrita.

DC – Como a tua família reage em relação ao teu trabalho? Como eles encaram a tua escolha e esforço pela carreira??Eles têm uma relação de proximidade ou nem conseguem acompanhar a dinâmica das coisas que você faz? Mais alguém da tua família se relaciona com algum fazer artístico?  

DÉBORA – Minha família sempre participou de minhas escolhas, somos bastante unidos quanto a isso. Quando eu trabalhava somente com bibliotecas, eles participavam dos eventos e as visitavam sempre que possível, tanto que minha filha está quase se formando em Biblioteconomia, meu filho faz faculdade de Artes Visuais e ilustra livros infantis. Meu marido sempre participou dos eventos e assessorava escritores também e minha mãe é professora e artista visual tendo inclusive ilustrado um livro meu. Agora que tenho a editora, trabalhamos todos juntos e tenho outros colaboradores (profissionais de Guaíba) que fazem parte da editora também, caso do Guilherme Lessa Bica que tem mestrado em Escrita Criativa pela PUCRS e faz análise crítica de obrasMinha filha Ariel sempre dizia que nós éramos a família dos cansados porque além do trabalho convencional, sempre estávamos envolvidos com atividades literárias fora disso. 

DC – Quase todo mundo, seja na infância, seja na adolescência, passa por uma fase de aproximação com a escrita. É uma forma de expressar a nossa opinião, demonstrar os nossos sentimentos e estabelecer comunicação. Você acredita que a Literatura pode ser a porta de entrada para outras artes? Como não deixar a inspiração esmorecer? Como criar, em casa, na escola, nas bibliotecas e demais espaços, um ambiente que possa incentivar a prática também da escrita? 

DÉBORA – escrita e a leitura estão presentena maioria das manifestações artísticas, seja em um roteiro, seja na letra de uma música ou em uma declamação e conversam com várias outras formas de arte, podendo sim ser a porta de entrada para elas. Mas temos uma tradição oral muito forte no Brasil e que deve ser reverenciada, não esquecendo também que a nossa cultura letrada é bastante excludente. Toda forma de cultura e arte é feita de maneira sofrida em um país como o nosso, em que não há uma valorização e em que políticas públicas voltadas para essa área dependem geralmente da boa vontade de gestores. Creio que a inspiração não esmorece porque ela pode estar em todas as coisas, sejam elas reais ou imaginárias, o que pode esmorecer é nossa possibilidade de faze-las acontecer, muito devido ao que falei antes, nesses momentos temos que encontrar dentro de nós mesmos ou no apoio dos pares essa capacidade de acreditar na gente. 

A leitura, a escrita e toda forma de arte são, como boa parte das coisas, experenciadas por nós através de um modelo. Como pais que não leem, professores que não leem e bibliotecários e outros profissionais de biblioteca que não leem vão conseguir mediar a leitura? Amar se aprende amando, como dizia o poeta e ler se aprende lendo. E toda forma de arte e cultura exige muito trabalho e disciplina, apesar de muitas pessoas associarem artistas a vagabundos”, mas eu gostaria que essas pessoas experimentassem ficar sem televisão, sem música, sem cinema, sem teatro, sem dança, sem games (que também são considerados cada vez mais uma forma de cultura) e pudessem contar só com a realidade nua e crua. A arte é uma possibilidade de sonhar fora da gente.  

DC –Tudo é uma questão de oferecer e encontrar oportunidades, né? Falando em oportunizar, você também possui um trabalho muito interessante voltado à acessibilidade. Há algum tempo tive acesso ao livro Memórias do Tempo e Olhos do Coração, um livro muito legal de sua autoria, mas que eu sei que não é o único com essa pegada. Poderia nos contar sobre sua relação com esse tema e como o segmento literário está enfrentando os desafios em busca de soluções inclusivas?  

DÉBORA – Meu melhor amigo é cego, isso fez eu me interessar cada vez mais sobre o universo dele. Eu queria basear uma história em nossa amizade e assim surgiu “Meu amigo é diferente!” e naturalmente surgiram outros livros nessa temática, porque eram coisas que me tocavam muito. Por exemplo “As cores e os olhos de Chico” é sobre um menino daltônico, algo que sempre me fascinou, inclusive o grande escritor Carlos Urbim era daltônico. Eu sempre pensei em como será que eles veem as cores? E através desse livro eu pude conhecer dois daltônicos que leram a obra e disseram poderem ser ver em diversos momentos que eu havia escrito. Isso é realmente muito gratificante. E o “Uma maneira diferente de ser” foi escrito porque uma das minhas primas, que é mãe do PH diagnosticado com TEApediu que eu escrevesse um livro para ele. Muita gente me vê como aquela autora de livros de inclusão, o que de certa forma me alegra muito, apesar de no ano passado e nesse eu estar voltada para outros temas, mas que no finalde um jeito ou de outro, acabam tratando da diversidade. O problema é a pedagogização desses temas na forma de escrita e é uma arte conseguir fugir disso. 

Estamos caminhando de forma gradual para o desenvolvimento de práticas inclusivas no meio literário, mas ainda não de forma ideal. Para mim não existe meia inclusão, ou tem inclusão ou não tem e isso só será possível quando todaas obras escritas também estiverem em braile e com letras adequadas para pessoas com baixa visão ou tiverem audiolivro, quando forem adaptadas para a cultura surda ou para crianças diagnosticadas com TEA, o que ainda não acontece. Até as contações de história nem sempre são inclusivas. Para isso é necessário um investimento em pessoal especializado e mídias que nem sempre um escritor, principalmente independente, consegue. A Audiodescrição para pessoas com deficiência visual e a adaptação de obras para LIBRAS em material com imagem são grandes ferramentas de inclusão cultural e a contação de histórias inclusivas também. 

DC – Entre todas as tuas facetas, existe uma que nos revela uma ótima Contadora de Histórias. Como é esse trabalho? Quando e como ele passou a fazer parte do teu repertório profissional? Onde você busca referências? Qual é a importância dessa ferramenta artística, lúdica e pedagógica?  

DÉBORA – A contação de histórias é uma atividade de mediação de leitura. Ela lida diretamente com a nossa oralidade, é uma possibilidade afetiva para a inventividade e o desenvolvimento da imaginação e é um fazer poderoso. A grande maioria das pessoas gosta de contar e principalmente de ouvir histórias. Há professores que são contadores de história, mesmo que nas mais diversas áreas, o que acaba por deixar as aulas muito mais interessantes. Mas literariamente falando, por respeitar tanto essa profissão e esses profissionais, não me considero uma contadora de histórias e sim uma escritora que pode eventualmente contar histórias suas ou de outros. Mas a contação exige uma preparação e um trabalho que, como eu disse antes, envolve disciplina e dedicação. 

Eu conto histórias de meus livros em eventos, acho que o pessoal gosta, mas me exige bastante porque fico apreensiva com a expectativa alheia quanto a isso. E conto de outras autoras e autores também, mas não me considero contadora de históriasé difícil de explicar... mas só comecei a me tratar como escritora depois de 10 anos escrevendo, mas mesmo assim quando penso em escritores como André Neves e Conceição Evaristo, quase desisto rsrsrsrsrs. Como referência na contação de histórias posso citar minha amiga Jussara Mello, Milene Barazzetti Machado, Rosane Castro e Jonatan Ortiz Borges. 

DC – Você pode dividir conosco algum momento, dentro da tua trajetória profissional, que tenha te emocionado além do "normal"? 

DÉBORA –  São três momentos: quando eu e meu amigo Paulo fizemos um trabalho sobre inclusão com uma Rede de Lojas e ele cantou uma música de sua autoria intitulada “Deficiente por enquanto”; quando eu fui como autora no Instituto Santa Luzia e vi que minha contação de história com brincadeiras funcionava também para crianças com deficiência visual e quando eu fiz uma contação de uma das minhas histórias na praça Gastão Leão para pessoas surdas e as brincadeiras funcionaram com elas - jamais vou esquecer a participação e ajuda do intérprete de Libras, professor Daniel, nesse momento. 

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DC – Falando em emoção: Do ponto de vista da leitora, que tipo de obra que mais te emociona? Qual é o primeiro setor que você visita em uma livraria? 

DÉBORA – Obras escritas por mulheres são as que mais me emocionam e que mais me trazem incômodo também. As mulheres tendem a escrever de forma densa e pungente. Uma das obras que mais me emocionou foi Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Gostei muito do livro “Amora” da Natalia Borges Polesso e quando eu tiver coragem lerei as obras de Jeferson Tenório. As vezes me falta coragem literária, porque fico sofrendo dias com as histórias, como sofri com a personagem Macabéa do livro “A hora da estrela” de Clarice Lispector, e por isso muitas vezes me afasto dessas sensações me envolvendo na leitura de romances policiais e romances de aventuras históricas, que é para onde invariavelmente vou nas livrarias e bibliotecas. Obras como “As brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley, “Vertigem” de Erica Splinder, o “Alienista” de Caleb Carr e todas as obras de Edgar Allan Poe me fascinam até hoje.

DC – Essa é uma das minhas perguntas favoritas:  

Tens algum “ritual” que execute quando vai se concentrar para escrever? Como é a tua rotina de criação?  

Você gosta mais do silêncio, ou não precisa de um ambiente ou atmosfera especificamente pensados para o ato criativo? Prefere o isolamento ou consegue trabalhar em qualquer lugar? 

DÉBORA – Eu não tenho uma rotina para nada, mas tenho um bloco na minha mesa de cabeceira em que escrevo ideias que surgem e tenho também um grupo no whats comigo mesma rsrsrsrs no qual anoto essas ideias, entre outras coisas. Depois coloco no computador em uma pasta “livros em andamento”, ali tenho vários livros e quando vem uma ideia vou trabalhando neles. As vezes trabalho em um, paro e vou para outro ou trabalho vários dias só em um. Quando vem a ideia não me importo com silêncio e ela pode ocorrer em qualquer lugar, mas quando vou elaborar melhor a história (aí ela vai para a pasta “livros prontos”)prefiro um ambiente mais silencioso, o que é quase impossível na minha casa. Isso também vale para quando faço a curadoria de alguma obra para a editora. 

DC – Por mais que nos preparemos e tenhamos experiência, as saias justas estão sempre presentes e são ameaças constantes no nosso dia a dia.  

Você trabalha contando histórias para crianças e isso é, sem sombra de dúvidas, um desafio muito grande e delicado.  

No meio de tantas coisas lindas que já aconteceram ao longo da tua experiência, qual foi o maior perrengue que você passou durante uma apresentação de contação de histórias? 

DÉBORA – Minha contação de histórias costuma ser bastante participava, entremeada por brincadeiras, principalmente quando é sobre o livro “Meu amigo é diferente!”, mas nem todos podem participar e mesmo explicando que a professora pode repetir as brincadeiras em sala, eles querem participar a todo custo. Um dia, em uma Feira do Livro, uma menina começou a chorar, muito nervosa porque queria participar e eu não tinha visto ela, mas a minha filha estava junto e começou a fazer gestos em direção a menina para que eu a chamasse. A alegria da criança quando eu a chamei ficou na memória. Outra vez foi quando eu contei histórias em uma escola na qual eu trabalhava e a profa. queria tirar fotos, fomos para a escada, um menino começou a ficar agitado e apontando pra mim ele dizia – Ela não vai caber aqui do meu lado, e eu não ia caber mesmo (risos). O resultado foi que eles se apertaram para eu caber. Criança é sempre sincera. 

DC – Além da atuação profissional, você também é uma ativista cultural muito participativa em nosso cenário local. Atualmente é uma das representantes do segmento Livro e Literatura no Conselho Municipal de Políticas Culturais aqui de Guaíba. Fale sobre a importância dessa instância dentro das discussões pertinentes ao nosso universo cultural local. 

DÉBORA – Para ações permanentes e contínuas em qualquer área, as políticas públicas são fundamentais e para que elas sejam efetivas e coerentes com o público a qual se destinam devemos procurar entender suas demandas e aspirações, para isso nada melhor que se conhecer e mapear as ações de cada segmentoHoje em dia, infelizmente, a cultura, principalmente em suas manifestações artísticas, está ameaçada através de um constante desmantelamento de projetos e ações, articulado por diversos governantes do país. É nosso dever nos mantermos atentos, trabalhando para que isso não ocorra. E é isso que estamos fazendo, unindo esforços em prol da cultura. O Conselho é uma grande possibilidade para que isso ocorra. 

DC – Você tem uma voz forte e opina de forma bastante apropriada sobre diversas questões relevantes em nosso tempo. Como você vê o trabalho de conscientização em tempos tão absurdos onde a ignorância parece ter tomado conta da maioria dos lugares? Como falar de Amor em tempos de Cólera?  

DÉBORA – A transformação e evolução exigem o autoconhecimento, o entendimento do outro, da nossa história e da sociedade que nos cerca e para que isso aconteça é necessário gerar dor, incômodo, “escarafunchar” a estrutura que conhecemos. E quando esse processo começa não há como parar..., mas quem está disposto a sentir essa dor? A entender sua responsabilidade histórica, a pensar e repensar o seu discurso, a calar e aprender, respeitando o lugar de fala? Certamente não pessoas que acham que a informação sabida através das redes sociais é o suficiente, que não reconhecem a pesquisa e a leitura como base para a construção do conhecimento e que por isso alimentam uma visão distorcida de acontecimentos históricos, sociais e políticos. Um povo que não conhece sua história, não compreende seu lugar no presente e não sabe projetar seu futuro realmente para o bem de todas e todos. Em momentos assim a cultura e a educação, bem como a pluralidade de ideias e a diversidade são os mais atacados pois são nossas possibilidades de mudar esse cenário. A arte é fruto de um processo pessoal que muitas vezes desacomoda, provoca e possibilita a compreensão de nós mesmos e do mundo que nos cerca. E deve, sobretudo, ser livre. E é essa liberdade que querem nos tirar. 

DC – Esse com certeza é um dos momentos mais confusos que o setor cultural já enfrentou.  

Além dessa tentativa constante de desvalorização e censura, precisamos enfrentar todas as dificuldades de uma Pandemia. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, dificultou nossas atividades. Estamos sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma.? 

Conta para nós como está sendo esse momento pandêmico dentro do teu segmento. Como está funcionando o processo de adaptação? Qual está sendo a principal dificuldade encontrada e quais pontos estão mais te surpreendendo positivamente? 

DÉBORA – O meu segmento, fora de Guaíba, está se envolvendo em diversas atividades como lives, conversas, duelos poéticos, oficinas, contação de histórias, encontros de Clubes de Leitura, entre outros. Em Guaíba, temos os encontros do Leia Mulheres Guaíba, ocorrendo mensalmente de forma virtual e tivemos um Sarau Virtual, no dia 25 de julho, em homenagem ao Dia do escritor. Tanto a Celig quanto os outros grupos continuam se envolvendo com literatura em suas redes. Pelas conversas que tivemos no Sarau Virtual, nem todos os escritores têm conseguido se inspirar durante a pandemia, que afeta de forma diferente cada um. Eu terminei um livro para a infância e estou finalizando outros dois, um para a infância e outro de poesias, crônica e conto para um público mais adulto. Mas não são todos que conseguem. Muitos estão trabalhando em casa e creio que uma das maiores dificuldades é essa mudança na rotina e o perigo de uma “prostração” de ideias. Não estou muito surpreendida positivamente não, porque o comportamento de parte das pessoas segue me assustando, mas posso dizer que estamos buscando soluções e conhecendo alternativas para mostrar a nossa forma de arte. Observe que falo da minha posição e do meio em que convivo e que, conforme a realidade do nosso país, é na sua maioria privilegiado, algo como apenas “problemas de pessoas brancas”. 

DC – Ainda aproveitando um pouco mais a temática da Pandemia, na tua opinião qual é o papel da Arte nesse momento? 

DÉBORA – Proporcionar um “respiro”, acalentar. Trazer um pouco de colorido para esses dias sombrios. 

DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história da humanidade? 

DÉBORA – Principalmente a empatia. A sociedade está doente e realmente não quero imaginar onde isso pode nos levar, mas eles terão que lidar com uma resistência forte. 

DC – Uma boa notícia para a Cultura e para a Economia é a liberação, através da LEI ALDIR BLANC, do dinheiro que estava represado e não vinha sendo investido. 

Esse dinheiro que estava parado e que só pode ser investido no setor cultural, virá em boa hora e poderá, além de auxiliar financeiramente a classe artística, os técnicos de espetáculo e os espaços de cultura, transformar a história cultural de nossa cidade.? 

Como você vê a importância dessa lei nesse momento e qual é a tua expectativa atual com relação a isso? 

DÉBORA – Muitos trabalhadores, não só da cultura, perderam sua forma de sustento, o que pode ser mudado com esse investimento pelo menos para nós, que viemos de perdas sucessivas na área. Minha atual expectativa é que isso sirva como um sopro de inspiração para nossas escritoras e escritores, bem como ilustradores e mediadores, entre outros. Que surjam novos projetos, novas ideias e que a cultura se renove em nossa cidade. 

DC – Quais sonhos você alimenta para o seu futuro profissional? 

DÉBORA – Quero procurar me qualificar enquanto escritora, publicar e atualizar minhas obras que estão esgotadas para depois reeditá-las. Está sendo muito importante para mim esse processo de análise crítica das minhas obras. E espero que a Editora Palavreado cresça e traga visibilidade para as escritorasescritores e ilustradoras(es) que estão surgindo, tanto na cidade quanto fora dela. 

DC – Você acredita que tem uma missão para cumprir? Que legado você gostaria de deixar a partir do teu fazer cultural? 

DÉBORA – Não acredito nisso, que tenho uma missão... visto que mal sei de mim mesma. O máximo que posso tentar é repensar minhas ações, aprender com meus erros e me dedicar ao livro e a leitura, compartilhando minhas histórias. Eu gosto muito deste fazer coletivo e colaborativo, de circular pelos outros segmentos da cultura, com um apoiando o outro, acredito muito nisso. Na possibilidade de que, mesmo quando nos desacreditam, saber que somos capazes de realizar e mostrar a língua pra eles (risos). 

DC – Tem algum personagem literário que você gostaria de ser?  
Eu me vejo meio Don Quixote. Quem é você na Literatura?  

DÉBORA – Fada Morgana. Dos quadrinhos a Ravena. E dos livros infantis não consigo esquecer a personagem do conto “A moça das mãos cortadas” dos Irmãos Grimm. O sombrio sempre me fascinou. 

DC – Tem aquele meme de internet que brinca dizendo que o roteirista que está escrevendo o ano de 2020 vem pegando muito pesado em seu enredo. 

Seguindo nessa linha de raciocínio, vou te propor uma brincadeira:  

Digamos que tudo que você vive é, assim como na jornada de qualquer personagem fictício, escrito por alguém.  

Qual autor(a) você gostaria que estivesse nesse momento escrevendo a tua história?  

Quem seria capaz de compor um universo que tivesse lógica para ti? Por quê? 

DÉBORA – André Neves. Porque ele fala de temas que eu amo e que me tocam. Sua arte é simplesmente incrível e seu texto me traz uma emoção única. 

DC - Qual tipo de livro tu gostaria de escrever? Nos teus sonhos mais malucos, por onde tua imaginação viaja? 

DÉBORA – Livros com uma pegada socialSão coisas distintas, gostaria de escrever isso, mas minha imaginação viaja muito por ambientes sombrios, como nos livros de Edgar Allan Poe. Históricos e sombrios. 

DC – Como você enxerga o cenário cultural da cidade de Guaíba? Qual é a principal necessidade do teu segmento? Como gostaria de ver nos próximos anos? 

DÉBORA – É um cenário que está evoluindo, que possui apoio da prefeitura, mas que caminha de forma independente, ocupando espaços, dialogando e compartilhando. A necessidade seria de políticas voltadas a capacitação e publicação de novos escritores, bem como apoio a projetos literários e a ilustradores e mediadores de leitura. Gostaria que nos próximos anos, os eventos literários crescessem e se descentralizassemque novas formas e gêneros literários surgissem e fossem valorizados e que pudéssemos ter visibilidade também fora do nosso município, porque aqui se produz muita cultura. 

DC – Para quem tem vontade de seguir esse caminho, que conselho você pode dar? 

DÉBORA – Ler muito, escrever e escrever, reler o que escreveu, entregar o texto para profissionais lerem, aceitar críticas construtivas, reescrever novamente e lembrar que na realidade somos apenas trabalhadores das palavras. 

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DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir? 

DÉBORA – Ler: Edgar Allan Poe, Hilda Hilst. Conceição Evaristo, Jarid Arraes, André Neves, Caleb Carr e mais todos os que citei na entrevista. A coleção As Brumas de Avalon e os contos de Poe. Assistir: Filme “O nome da rosa”, série Penny Dreadful. Essa série sempre fez eu me sentir em casa, falando de forma imaginária. 

DC – Uma última pergunta: O que é sucesso? 

DÉBORA – No meu ponto de vista o sucesso tem muito a ver com as perspectivas que temos em relação a nós mesmos e isso difere de um para outro. Para mim sucesso é poder fazer o que gosto a partir do meu trabalho. E o que gosto é ler, escrever e viajar. Mas me estendendo um pouco mais, em qualquer área, pode ser o reconhecimento dos pares. 

DC – Estamos encerrando a nossa conversa.?? 

Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo. Foi um prazer e uma honra conhecer um pouco mais sobre você. 

Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade.  

Pensado exclusivamente para dar ainda mais visibilidade aos nossos colegas ao mesmo tempo em que pretende aproximá-los de nossa comunidade local. 

Gostaria que você deixasse uma mensagem para os colegas trabalhadores da Cultura e também para todos os nossos vizinhos.?? 

Aproveita também que é ano eleitoral e manda um recado aos pré-candidatos que estão se preparando para o pleito. Vários deles estão sempre por aqui e juntos podemos construir uma cidade melhor. 

Fique à vontade, Débora. O espaço é seu. 

DÉBORA – Para os trabalhadores da Cultura posso dizer que quando penso em vocês, em tudo que a cultura me proporcionou, vejo que ninguém pode me dizer o que fazer, eu sou senhora das minhas escolhas. Para nossos vizinhos tenho a dizer que a cultura nos traz a possibilidade de sonharmos juntos. Para os pré-candidatos digo: a cultura é um direito, algo que fala diretamente à nossa essência enquanto povo e a construção da nossa identidade e cidadania. Para que ela se fortaleça e para que nos represente é necessária a existência de políticas públicas culturais, que assegurem um comprometimento a nível municipal, estadual e federalPolíticas essas que devem ser construídas através de uma participação coletiva, inserida em uma perspectiva cidadã, visando, entre outras coisas, a democratização do acesso à cultura e a valorização dos artistas e dos equipamentos culturais. Mas muitos de nós sabemos que o desmantelamento da cultura e da educação é um projeto para a manipulação das massas. Espero que os pré-candidatos façam diferente e entendam que essa e outras lutas não vão parar. E que mais cedo ou mais tarde nós vamos vencer. 

_________________ 

E aí, gostaram de conhecer uma parte da trajetória de mais uma trabalhadora da Cultura aqui da nossa cidade? 

Já conheciam o trabalho da Débora? 

Ficou curioso para saber onde encontrar as obras dela? 

Então, assim que você terminar de ler mais essa coluna maravilhosa, aproveita que já está aqui pela internet e busca pela Editora Palavreado nas redes sociais, ou pela própria Débora. 

Tenho certeza de que você vai encontrar muitas coisas legais. Inclusive esses kits dos quais ela fala durante a entrevista. 

Vai lá, visita, mas não te esquece de voltar aqui na próxima semana para conhecer um pouco mais sobre a nossa constelação local. Temos muitas estrelas para conhecer e reconhecer.  

Muita gente bacana para conversar e aprender. 

Fica aqui comigo que será um prazer mostrar tudo para vocês. 

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Isaque Conceição

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Isaque Conceição

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