Escrever
Quando escrevo, abandono o mundo. O quarto não é mais o quarto, o computador não é mais o computador, eu não sou mais eu. Eu sou a vontade que escreve. Escrever é uma vontade em movimento. E o fim da vontade não conclui o texto. O fim da vontade apenas comprova a minha incapacidade de dizer exatamente o que quero dizer, exatamente como quero dizer. E eu nunca digo. Às vezes eu acho que chego perto. E isso talvez seja o máximo que eu consiga.
E a morte da escritura acontece quando? E o que sobrevive de ‘ainda sendo escrito’ no texto que não burilo mais? Resta algo moribundo, o meu pensamento segue nele por alguns dias, mesmo quando já lido por outras pessoas e renascido nelas, o meu pensamento mantém o texto morto-vivo, remoendo todos os textos que ele poderia ter sido e não foi, textos melhores, mais belos, textos que eu poderia ter escrito e não soube.
E apenas quando o texto morre no meu pensamento, quando esgoto todas essas possibilidades, me liberto, o amor por ele cessa como autor, e talvez eu recupere parte desse amor como leitor de mim mesmo. E logo a paixão da escritura, a vontade que move e não responde, já está debruçada em outro texto, para se apaixonar novamente, para fracassar como sempre, e jamais desistir de sentir e de escrever.
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