Diante de tudo o que tenho visto e vivido na minha profissão, de tanto ouvir a expressão “reinventar-se”, voltei às origens e lembrei das coisas que me levaram a ser professora, das inspirações lá do começo e então veio instantaneamente na memória a trajetória e o exemplo da minha mãe.
Maria do Carmo Almeida, professora de profissão e de missão, de corpo e de alma, das letras e dos números, da arte, da alegria e do amor. Começou a lecionar aos 15 anos, no interior do município de Camaquã. Escolinha construída por seu avô, então sub-prefeito da localidade. Por lá permaneceu alguns anos, depois, devido a nomeação em concurso, veio para a cidade e seguiu sua caminhada na rede municipal de educação deste município, onde permaneceu até a aposentadoria aos 45 anos de idade e 30 de carreira.
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Cresci em meio a livros e cadernos, vendo a mãe dar aulas, várias vezes acompanhei ela na escola, outras vi os alunos irem ter lições em nossa casa. Seus alunos eram pequenos durante o dia, mas também haviam os adultos do antigo MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Sim, minha mãe era alfabetizadora como eu e, sim, minha mãe trabalhou por muitos anos em três turnos, como eu.
Foi mãe e educadora dos filhos e netos, dos bisnetos. E teve muitos. Nos criou com a premissa do mais vale ser do que ter. Ensinou-nos tudo o que precisávamos saber e um pouco mais. Deu exemplos de dignidade e empatia, de solidariedade e criatividade. Deixou saudades sem fim. Um legado de amor puro, pelos filhos, pela vida, por ensinar.
Ensinou também artesanato, crochê, tricô, costura para todos aqueles que a procuravam para aprender. E ela dominava muito bem todas estas artes.
Era uma professora de jogos, brincadeiras, cartazes, diários, todos bem feitos, cheios de gravuras, cores, planos e sonhos, letra bem traçada, lembro até hoje do cheiro e da imagem deles. Amava contar histórias. Também vi e muito, minha mãe atender seus alunos com carinho, sorriso no rosto, paciência sem limites. Seus alunos viraram, sem exceções, seus amigos. E ela vibrava quando sabia de um que arrumou emprego, fez faculdade, que casou, teve filho, também entristecia-se quando sabia dos problemas e amarguras de algum.
Várias vezes a vi varrendo e limpando a escola quando preciso, preparando e servindo merenda, trabalhando em festas juninas, vendendo rifas, juntando material escolar, alimentos e roupas para doar quando podia.
Percebo então que as mazelas da educação vem de longe, a pouca valorização desta profissão é antiga. Mas antiga também é a garra e a força destes profissionais. Que seres são esses que fazem tanto com tão pouco, que doam-se tanto a tanto tempo. O que nos move, encoraja, nos inspira, impulsiona?
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A alegria e o orgulho da minha mãe quando comecei a dar aulas ainda estudante de magistério, quando fui nomeada no primeiro concurso público, quando conclui a faculdade e a pós, carrego comigo para sempre, seus conselhos para planejar, estudar, ensinar, inovar, compartilhar e estimular são inspirações para o meu “reinventar-se” todos os dias, na profissão e na vida.
Divido hoje com vocês leitores, em especial aos professores, esta breve história, como uma homenagem e inspiração.
Divido hoje com os meus irmãos e irmãs, o imenso orgulho de ter nascido desta grande mulher!
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