Seguindo no mesmo tema da coluna anterior, também do mês de setembro, que, além da Independência do Brasil e da Revolução Farroupilha, é o mês onde se destaca a valorização da vida através da campanha do Setembro Amarelo.
Se analisarmos o contexto da nossa humanidade, dentro de sua finitude, o maior bem que ganhamos é a própria vida. Todo o resto é consequência dela, nosso aprendizado, as emoções, o conhecimento, as reações, enfim tudo é recebido pela mente por conta da vida.
Viver é um ato contínuo de aprendizado e desenvolvimento, através de tantos exercícios que nem nos damos conta. Desde os atos mais simples aos mais complexos, cada dia, cada hora, cada minuto traz em si aprendizados que vão nos enchendo o cérebro de informações.
Se o bem maior é a vida, mesmo em condições adversas, devemos sempre valorizar esse bem, cuidar e aproveitar para que seja algo de grandiosidade imensurável.
A vida é uma escolha, sim!! Mesmo diante de muita dor, quando parecer que mais nada demonstre sentindo e saída, ainda haverá opções e a mais importante entre elas é a VIDA! Todos nós seremos humanos, somos compostos de valores pessoais, pessoas, ações, projetos, profissão e etc... que nos movimentam e que são objetivos. Pense nestes, busque se mover no caminho do que faz sentido e trás coragem para seguir em frente!
E nesta caminhada que é a vida, não tenha vergonha de pedir ajudar, se precisares! Nem sempre vamos vencer tudo sozinho! E está tudo bem....
Todas as vidas são importantes! Ter um tratamento adequado, acompanhando por profissionais da saúde (psicólogos e psiquiatras), será fundamental para resgatar a vontade de viver com qualidade e esperança.
Temos uma tendência de, ao pensarmos em saúde, logo associarmos a questões físicas, porém, o conceito vai mais além, faz parte também o nosso psiquismo. O adoecimento da mente é uma questão de saúde e neste caso, podemos dizer que é silenciosa, porque os sintomas estão unicamente ligados ao mundo privado e por vezes só é possível identificarmos algo, quando relatado por aquele que sofre! Então, diante de qualquer pedido de ajuda, seja ele declarado ou disfarçado em frases que parecem inofensivas, ajude!! Faça uma escuta ativa, amorosa e muita atenta, sempre livre de qualquer julgamento.
Dom Barulho me contou uma vez que tinha um peão da estância onde ele capatazeava, que era meio quieto, uma pessoa diferente das demais.
Vivia calado, por vezes se pegava olhando pro nada, questionando sobre o mundo, sobre sua vida, mas como se conversasse com ele mesmo.
Dom Barulho que era um filósofo misturado com mentor abagualado, foi ganhando a confiança do rapaz e descobriu que ela carregava anseios de dor no coração.
Tinha penas na alma e por vezes se sentia perdido, mas por não confiar em ninguém, acabava guardando isso em si, sobrecarregando sua mente, seu coração e sua alma.
Em uma campereada no posto do fundo, Dom Barulho requisitou aquele peão pra ir com ele (Dom Barulho não dava ponto sem nó) ajudar na lida com o gado por uns dois dias.
Avisou que o pouso seria no casario do posto do fundo, pediu pro rapaz se preparar pra campereada.
Foi um dia inteiro de a cavalo, das casas grande até o posto do fundo, Dom Barulho puxou conversa, sacou um pedaço de fumo da algibeira, lambeu uma palha e macerou o fumo na mão.
Puxou do bolsinho lateral da guaiaca umas duas figueirilha, misturou no fumo e preparou um pito bem caprichoso.
Estendeu a mão e entregou ao peão. O rapaz meio arredio, tentou recusar, mas Dom Barulho insistiu e disse que o fumo abre a mente para o mundo, claro que o rapaz cedeu e na primeira tragada, ao agradecer já descambou em contar suas penas.
Dom Barulho era bom ouvinte, deixou que o rapaz abrisse o coração e descarregasse todas as suas penas, não falou um aí, nem deu opinião sobre nada, apenas ouviu.
Chegaram ao posto do fundo, trabalharam à tardinha toda e, ao final do dia, prepararam o galpãozinho para um assado em fogo de chão, já mais aprazíveis nas conversas e mais próximos nos assuntos.
O peão disse a Dom Barulho que nenhum chefe lhe dera respeito e atenção, nunca lhe ouviram e nem conversaram com ele.
Disse que depois da conversa se sentia melhor, com menos aperto no peito, como se tivesse desengasgado.
Dom Barulho lhe falou que não era chefe, mas um parceiro de lida, que ele era importante para que as coisas acontecessem e que um cuida do outro na lida do campo, como se fossem todos da mesma família.
Ao final da campereada, quando estavam no galpão, enquanto recolhiam as tralhas, o peão confidenciou a Dom Barulho que antes de vir ao posto do fundo trabalhar ao lado dele, tinha pensado em dar cabo de sua vida, pois havia um aperto dentro do coração que esmagava seu peito, que a conversa franca e sem julgamento lhe tirou um peso da consciência.
Dom Barulho só olhou, agradeceu a confiança e falou para o rapaz que nenhuma amargura, nenhuma pena na alma vale a vida de alguém.
Esse Dom Barulho é um bagual a frente do seu tempo...
“Que o maior presente entre as pessoas, sejam a bondade e o amor fraterno!”
Mário Terres e Tainara Moraga
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