O cronista encara a folha em branco. Retângulo vertical que agora é o seu território. É o tempo de parir o texto, lançar seu novo verbo ao Mundo. Nunca é lá muito fácil. Muito já se falou sobre quase tudo. Fala-se hoje mais do que se escuta, escreve-se mais do que se lê. O cronista aproxima os dedos do teclado, digita palavras sem sentido, apenas para promover, como inspiração sonora, a diminuta sinfonia das teclas ecoando curtas como passinhos de formigas apressadas.
Literatura não se faz ao acaso, o cronista pensa. Apaga tudo o que escreveu. Não há como adiar o texto. Não há como adiar o tempo. O cronista olha em volta, a calmaria da manhã no bairro, alguns latidos esparsos ao longe, automóveis ocasionais que cruzam a avenida em frente à casa: é a vida que chama em seus gestos cotidianos.
Talvez fosse o caso de atender ao chamado, passear com seu verbo pelas ruas ensolaradas de novembro, rumar para a orla e observar o movimento intermitente das águas do rio. As águas que partem para a grande lagoa que daqui não se enxerga, as águas que chegam de outras servidões hídricas: há um movimento sinuoso, contínuo e dedicado que essas águas cumprem, uma marcha inaugural a caminho dos oceanos.
O cronista regressa ao escritório de casa, encara as linhas sinuosas e confusas da própria mão, a costura curva dos fios em suas palmas: para onde levarão a marcha desses dedos? Por que não caminham cegos e comportados para as teclas como as águas vagam aos oceanos?
Se o presente não responde com uma crônica inteira, o cronista escreve para dentro de si, ou melhor: vira leitor daquele que já foi. É o tempo de voltar à infância, surpreender as cores do passado numa pátina de nostalgia e comoção, visitar o bairro onde crescera pela rua onde crescera, as brincadeiras infantis e formadoras, a gurizada que pouco vai reencontrar depois de adulto. Que a memória é mais vento e vela do que âncora. Que ir lá para aqueles dias de ontem é uma maneira de seguir adiante: essas contradições que só se resolvem pelo afeto e a poesia. A memória é uma ficção necessária, o cronista pensa.
Ser o historiador de si mesmo, porém, também tem suas limitações. Não há como habitar o passado, apenas deixar-se habitar por ele, ser o seu declarado lar, algo como já versou o mestre Paulinho da Viola. O cronista, então, pede ao verbo alguma visão de futuro, uma trilha para o que virá de si e do mundo, uma crônica que seja um esboço de amanhã, poética profecia: “o amanhã é outra folha em branco”, o verbo sempre responde.
O cronista sabe que viajar no tempo tem o seu preço. Mesmo que seja pela poesia. E ele está disposto a pagá-lo. Volta para o mundo aos poucos: nos goles amargos do mate, nas mensagens das redes sociais, no rumor de caminhões que vendem ovos e botijões de gás. O retângulo vertical descansa populoso, inchado de palavras. Um novo território dentro de si e dentro do mundo jaz conquistado. O cronista pode, enfim, ainda que momentaneamente, sorrir aliviado.
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