Citando Silvio Genro, poeta gaúcho: “Tem certas coisas na vida que deveriam ficar, do jeito que sempre foram...”
Acho que ele não lembrava, que o tempo é senhor de tudo no universo, vai derramando a areia da ampulheta e soterrando algumas lembranças remotas, apagando memórias, histórias e construindo novos rumos.
Por ter muito de um avô campeiro e barreiro em mim, vou rebuscar algumas passagens, entre fatos e ficção, em que avô e neto se deparam com questionamentos intrínsecos a curiosidades joviais de quem tenta descobrir o mundo em que habita, com ilustrações sob a ótica do rude campeiro.
Abram as mentes para o pitoresco e viajem comigo...
Vinhamos lá do Passo do Petim, desde o rancho do fundo. O avô Don Barulho, bem montado num crioulo zaino negro, chapéu tapeado com a aba da frente cortando o vento, lenço aberto a moda argentina, bombachas de favo, botas de couro firme, com um trinta no coldre e a carneadeira na traseira da guaiaca bordada. Esporas de papagaio comprido e rosetas grandes, mais pra se exibir que pra tocar o pingo. O zaino, aliás, tinha ancas largas, cabeça quieta e orelhas tesas, basto Paysandu, cabeçada com trança de oito e adornos de prata, as rédeas com de doze e sobre o basto, dois pelegos grandes pra acomodar a carcaça.
O velho, prevenido, mesmo que fosse ali na cidade, trazia o laço sempre a bate cola. Já eu era um piá taludo, montado numa eguinha tobiana também crioula mas de menor estatura, aperos simples (de couro sem prataria), mas bem caprichadas. Seguia de alpargatas e sem esporas, um manguito de látego comprido e cabo trançado pelo negro Adão, guasqueiro de marca maior. Um sombrerito de palha, feito pela avó e um lenço a meia espalda.
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Na passagem do passo o guri mira ao longe algum tipo de fruto pendurado em pencas, chama o velho e pergunta: Vô que fruta é aquela?
Banana do mato, tua vó usa pra fazer xarope pra tosse (responde o velho). Respondia assim sempre, certeiro como punhalada de carneador. E seguiu-se a jornada calma e tranquila até o próximo ponto de curiosidade, afinal quanto tem de experiência um avô em relação ao neto, para lhe ensinar as coisas do mundo. É a famosa “escola da vida”.
Alguns mais modernos, diziam que meu avô era ignorante, nem o nome assinava direito, nem ler sabia. Aquilo me fazia tremer os ossos, mas eu respondia sempre que o conhecimento dele não estava em livros, mas nas rugas da sua face e nas histórias da sua mente. Até porque pra mim, até hoje, meu avô era um sábio.
Seguíamos por um campo na beira da estrada grande e mais perguntas: Que mato é esse? E aquelas vacas que raça são? O que é aquele monte de terra no topo daquele mourão?
Rédeas numa das mãos, picando fumo e preparando um pito com a outra, seguia o velho, paciente e tranquilo para responder cada uma das perguntas do curioso neto. Eu gravava cada meneio, cada palavra, cada ordenança o pingo nas páginas da minha memória, como se escrevesse um livro.
Algumas coisas me calaram fundo, me fazendo mudar a perspectiva das minhas convicções e jogá-las fora, buscando esclarecimento.
Cruzamos a capela da vila e perguntei pra ele se ali era a casa de Deus, ele me olhou e disse que era. Passamos na frente do barraco do Filomeno, que tinha um terreiro de umbanda e perguntei se ali era a casa de Deus, outra vez o avô me diz que sim. Me intrigou a resposta, num ato de testar o velho me fiz de desentendido e ao passar na frente da igreja dos “crente” (uma igreja Evangélica) perguntei: Vô e aquela igreja ali é a casa de quem? Rapidamente, sem nem me olhar respondeu: Casa de Deus.
Como todo o guri, achava que era mais esperto que o velhos. Ledo engano, o velho parou o cavalo, me fez parar e lascou de vereda: “olhe ao redor meu neto, me descreva o que vê.”
Eu olhei e descrevi tudo e exatamente tudo o que via, desde as moscas na cola da égua, até a ponta do morro que ficou pra trás.
Ele veio com a punhalada: “Quem tu crê construiu tudo o que me falasse?”
Respondi de supetão: “Deus!”
“Então tudo é de Deus, assim como Ele não mora em uma só casa, Ele está em todas as casas. Deus é mais que uma igreja, mas também é a igreja!”
Notei aí o quão ignorante eu era, ao invés de aprender, ficava testando o velho e sem mencionar um palavrão ou um insulto me fez sentir um ignorante.
Até hoje me sinto esse ignorante. Ignorante porque há tanto a saber, pela sede de saber, que busco entendimento de todas as coisas que me intrigam.
Depois da resposta fui calado até a cidade. Meu avô também pitando seu palheiro, cumprimentando todos os transeuntes, sem distinção, seguia teso.
Na volta eu calcei as botas da humildade e pedi-lhe desculpas pelas perguntas idiotas. Mais uma vez aprendi com o velho, ele me disse que não devia pedir desculpas, pois não há pergunta idiota, idiota pode se tornar aquele que não pergunta. Toma.
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A noite na beira do fogo, tudo aquilo me perseguia o pensamento e me veio mais uma crise indagatória. Como pedindo “truco”, questionei-o porque todos chamavam de chimarrão a infusão de erva-mate e ele chamava de mate? Ele me veio com um “retruco” de mão cheia. Sabe quem nos presenteou com o mate?
Respondi que não. E pra ser mais pretensioso, disse que nem o chimarrão.
Mantendo a serenidade ele me disse que mate era a bebida da erva mate. Os guaranis, primitivos habitantes dessa terra, chamavam de caá-i (água de erva saborosa), faziam essa infusão e colocavam em cabaças. Alguns sugavam com uma espécie de bomba chamada de tacuapi, outros bebiam sem a bomba. Os padres jesuítas tentaram barrar o uso do mate, chamando-o de “erva-do-diabo” mas não conseguiram. Descobriram que a erva-mate era estimulante e digestiva e acabaram usando em suas refeições.
Chimarrão é coisa dos espanhóis que não entendiam nem respeitavam os guaranis, a palavra de origem é cimarrón que significa chucro, bruto, bárbaro. Como a bebida era dos primitivos associaram o termo a bebida e de lá pra cá os portugueses adquiriram a palavra como correta, quem sou eu pra corrigi-los. Mas eu meu neto, sigo mateando e sorvendo o mate, nunca chimarrão.
E segui calado na minha ignorância astuta...
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