Para hoje escolhi escrever sobre as memórias dos membros da minha família, inclusive sobre as minhas próprias memórias. Afinal de contas, todos nós, que na década de 80 morávamos na Casa de Gomes Jardim, vivemos as emoções de participar do nascimento de um festival de música nativista em Guaíba, a Reculuta da Canção Crioula. Como disse em colunas anteriores, a memória é fonte para a história e dessa forma contribuo com dados para a construção histórica do município. Para isso, colhi dados a partir dos depoimentos de meu pai, Gaston Leão (Gui); minha mãe, Ires Beti Ericksson Leão; e os meus irmãos, Bolívar e Anelise E. Leão, acrescentando também ao texto as minhas lembranças.
Moramos todos em Guaíba e no mesmo endereço até o ano de 1995. A contar desta data alguns tomaram rumos próprios e decidiram constituir família. Bem, o que quero dizer é que nos anos de 1981 e 1982, estávamos todos residindo na mesma casa, compartilhando um cotidiano cheio de agitações provocadas pela adolescência e por pais extremamente atuantes na comunidade e isso contribuía mais ainda para pôr lenha na fogueira das nossas emoções. Logicamente que nós os acompanhávamos e por consequência, todos os nossos queridos amigos e amigas também. Tínhamos como vizinhas a avó Corinha e a bisavó Alice Green Silva, que observavam atentas ao movimento.
Nesse período, meu pai havia sido patrão do CTG Gomes Jardim e durante sua gestão, juntamente com minha mãe, demais membros filiados e frequentadores assíduos às atividades culturais e artísticas da entidade, criou-se um ambiente propício para a mobilização e participação de uma parte significativa da comunidade de Guaíba, sensível a temática da cultura regional. O médico Solon Tavares, então prefeito da cidade, resolveu reativar o Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) e ofereceu para o meu pai o cargo de presidente.
Com a incumbência de reativar o COMTUR, meu pai e seu amigo e grande artista José Cláudio Machado (que havia sido ganhador do 1º prêmio da 2ª Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, no ano de 1972) uniram-se para planejarem um grande evento pois agregaria um festival de música gaúcha e o evento da Festa Campeira de Guaíba, originado em 1958. Nesta época José Cláudio Machado, fazia parte do grupo ‘Os Andejos’. Iniciaram então, organizando um grupo de trabalho: José Cláudio Machado, Flávio Ribeiro, Lídio Saraiva, Paulo Alvear dos Santos Lobato e Gaston Leão (como presidente).
Preciso aqui abrir um parêntese, não pequeno, mas muito importante para compreendermos a escolha da linha temática da Reculuta. Meu pai, desde muito jovem, sempre esteve ligado às atividades campeiras e liderava esta área cultural dentro do CTG Minuano (1958), o que continuou por longa data estendido ao CTG Gomes Jardim. A região da Costa Doce, caracteriza-se econômica e culturalmente pela forte ligação com o campo, suas lides e claro com os homens e as mulheres detentores de um saber e um fazer muito específico a vida rural. José Cláudio Machado, nascido em Tapes, acompanhava as Festas Campeiras do CTG Gomes Jardim e lhe chamou muito a atenção a forte cultura regional, ainda autêntica vivida em Guaíba. As grandes atrações desta festa popular eram justamente a mostra feita pelos trabalhadores do campo, os peões campeiros, os verdadeiros astros do evento. Apresentavam com maestria o espetáculo da destreza do gaúcho em ação, algo extremamente rústico e natural para os que dominavam tais técnicas de trabalho e lazer. Paralelo a isso, ocorriam também as manifestações culturais ligadas ao linguajar, a culinária, as danças, as músicas folclóricas e regionais gauchescas.
A Festa Campeira é um dos mais antigos eventos de cunho regional e local de Guaíba e se destacava pela mostra de uma cultura autêntica. Quem lembra do senhor João dos Santos Lessa (Juca Lessa) como narrador da pista campeira sabe do que estou falando. Entre uma gineteada e outra ele regalava-nos com trechos de pajadas e citações poéticas autorais ou não e que construíam um quadro de encantamento e de emoções singulares que só vi aqui acontecer em Guaíba. Meu pai liderava a execução e a busca pela qualidade cultural da Festa Campeira e teve nos senhores Paulo Lobato, João Albano e Luiz Feijó e filhos, companheiros de trabalho afinados com esse propósito.
As esposas, sempre acompanhando seus maridos, também tinham seu grupo de trabalho muito bem ajustado. Em uma história dominada por homens, as mulheres dedicavam-se aos afazeres exigidos pela manutenção e o suporte dos eventos, parte mais modesta em termos de exposição. Todavia, e não menos importante, afinal quem trabalha ou se diverte sem um bom sustento para o corpo? E as bombachas, lenços e os remendos necessários? Muito vi minha mãe na máquina de costura para fazer belas bombachas, muitas delas apresentando favas cuidadosamente elaboradas. Fechando o longo parêntese, digo que José Cláudio Machado artista e músico premiado, foi inspirado a idealizar um festival de música gaúcha e com a parceria de meu pai, conhecedor das lides campeiras, decidiram em uma conversa por realizar um grande evento cultural no município.
As reuniões começaram no ano de 1981, período da Semana Farroupilha, na Casa de Gomes Jardim, na época nossa residência. Com a evolução da ideia foram necessárias reuniões com a participação de mais pessoas, e alguns encontros foram descentralizados ocorrendo no Salão Paroquial da Igreja Nossa Senhora do Livramento, no galpão crioulo da prefeitura, próximo de onde há a sede da Associação Cultural Bento Gonçalves, à rua Pe. José Eichelberger e na sede do próprio CTG Gomes Jardim, na estrada Santa Maria.
Ficou decidido que o período do festival seria de 14 a 17 de outubro, na semana da emancipação do município. Coincidia propositalmente com a XV Festa Campeira, que no ano de 1982 estava sendo realizada na sede do Sindicato Rural de Guaíba (Parque Cel. Alves Pereira), por motivos ligados à infraestrutura necessária, uma vez que a área do CTG estava em obras. Foi uma grande festa onde durante o dia, no Sindicato Rural, ocorriam as atividades artísticas e culturais e campeiras, como o tiro de laço e as gineteadas, e à noite todos se dirigiam ao ginásio de esportes do Coelhão para acompanharem o festival.
A divulgação do evento iniciou com razoável antecedência. Deu-se através do Jornal O Guaíba e do Jornal O Repórter. Além dos jornais locais, a divulgação também foi feita pela Rádio Liberdade de Porto Alegre, na voz do compositor e intérprete Elton Saldanha, e no programa Galpão Nativo, TVE Canal 7, com o artista e apresentador Glênio Fagundes. Outra estratégia de divulgação e de ação educativa voltada para o festival foi a realização de palestras e apresentações sobre o tema da cultura gaúcha nas escolas, como ocorreu com a Escola Gomes Jardim, em seu antigo pavilhão Canadá. O advogado e historiador, Luis Alberto Koller (Lulu Koller), falou sobre a música e os ritmos gaúchos, tendo como acompanhante o seu irmão, o grande bandoneonista, Rafael Koller (Lelé Koller), que demonstrava os ritmos referidos. O professor Mozart Pereira Soares, foi convidado para fazer uma palestra no Salão Paroquial, após foi servido um carreteiro e houve a apresentação do cantor e compositor argentino, Dante Ramon Ledesma, trazido pela produtora executiva da Gravadora Pealo, que fez o primeiro disco após o festival, Vera Beatriz Boehrer.
O nome do festival foi escolhido por votação, vencendo Reculuta da Canção Crioula, indicado por José Cláudio Machado. A linha do festival decidida entre os organizadores, tendeu pela essência campeira e crioula, isto é, por uma arte musical que resgatasse a vivência do homem e da mulher do campo. A força telúrica foi o eixo do festival que estava nascendo, justificada principalmente pela história de Guaíba e por um território que ainda abrigava este saber.
Como não havia recursos que cobrissem todas as despesas do festival, muitas ações foram de caráter voluntário, tanto da comissão organizadora, quanto do grande grupo de jovens que se envolveram com as tarefas de execução e de muitos artistas que renunciaram aos seus cachês.
A ideia do cartaz de divulgação, foi discutida em reunião e teve a opinião do senhor Flávio Ribeiro, em unir em imagem, música e conteúdo telúrico através da representação de um violão e de um cavalo. O desenho foi feito por mim, aos 16 anos, inspirada no meu próprio violão e na imagem de um ginete que emergia de dentro do instrumento rompendo as cordas deste com energia. Além disso, criei e desenhei cinco troféus, com os seguintes títulos: Troféu Potro Crioulo, Guitarra de Prata, Guitarra de Bronze, para o primeiro, segundo e terceiro lugar respectivamente; o troféu Sol de Bronze para a canção mais popular e o troféu Cipreste Farroupilha para a música épica. O grande e inusitado prêmio para o primeiro lugar, além do troféu, foi um potro baio, puro sangue Crioulo, doado pelo pecuarista e morador na Barra do Ribeiro Luiz Feijó. Lembro como esse prêmio causou um alvoroço trazendo muita alegria e acirrando mais ainda a disputa no festival. Todos almejam o lindo potro baio.
Os troféus, obras e artistas premiadas foram:
Troféu Potro Crioulo – Águas Mortas - Nilo B. de Brum e Mário Barros, Intérprete: Eraci Rocha e Grupo os Turunas.
Troféu Guitarra de Prata – Louco Mundeiro – José Luiz S. Villela e Francisco Alves – Intérprete: Eraci Rocha e os Uruchês.
Troféu Guitarra de Bronze – Punhais de Valentia – Sérgio Napp e Marco A. Vanconcellos – Intérprete: Os Posteiros.
Troféu Sol de Bronze – João Cruzeira (mais popular) – José H. Retamozo e Elton Saldanha – Intérprete: Elton Saldanha.
Troféu Cipreste Farroupilha – Canção Farroupilha – Música Épica (não consta no disco gravado).
Ainda tivemos:
Melhor Arranjo – Águas Mortas.
Melhor Conjunto Vocal – Grupo Fandango.
Melhor Instrumentista – Renato Borghetti. Na música Dom Chiquito houve a participação especial de José Cláudio Machado.
Glênio Fagundes, Alcy Cheuiche, Luiz Alberto Koller, Jarbas Pessano, Kremer Neto foram os jurados da Reculuta. A apresentação das músicas e dos artistas nas três noites do festival foi realizada por Antônio Augusto Fagundes, conhecido por Nico Fagundes.
A Casa de Gomes Jardim, concentrou as atividades de planejamento e execução de várias etapas do festival. No mês que antecedeu o dia 14 de outubro, a todo o momento chegavam e saiam artistas, técnicos de palco – som e luz, amigos voluntários, enfim, o movimento era intenso. A cozinha da casa estava em permanente uso e minha mãe guerreira, firme e forte acolhia a todos sem lhes deixar faltar nada. Tudo funcionava dentro do respeito mútuo e da consciência de que tínhamos uma tarefa séria e grandiosa a cumprir. Os recursos eram próprios e cada um colaborava como podia. A garagem foi transformada em ateliê, onde o artista plástico Valdir Sacks, de Porto Alegre, e eu pintamos a mão grandes painéis para servirem como outdoor para depois serem distribuídos em pontos estratégicos da cidade. Lamento não ter fotografado os painéis, talvez alguém da cidade o tenha feito. O próprio prefeito, Solon Tavares, que era médico e artista plástico, pintou um lindo painel que hoje se encontra na sede do CTG Gomes Jardim.
O palco foi elaborado a partir da ideia de José Cláudio Machado, de construir sobre ele, um galpão de costaneira. A decoração foi coordenada por Valdir Saks, onde um grupo grande de jovens voluntários executaram a pintura e ajustaram os detalhes. Muitos artistas ficaram acampados no Sindicato Rural, outros por falta de hotel na cidade, foram acolhidos por famílias guaibense admiradoras da cultura e da música gaúcha. Senhoras da comunidade, doaram frios para suprir o camarim, a madeireira Ouro Verde, doou as tintas e pigmentos utilizados para os painéis e para a decoração do palco. A empresa Brasilã contribuiu com recursos financeiros e a empresa Melita colaborou com café, o qual foi vendido para arrecadar fundos.
Da ideia inicial até a concretização do festival, passaram-se meses de intensos esforços. As decisões eram compartilhadas e esse foi um dos motivos para o sucesso da mobilização do grupo que colocou energia e se doou ao evento. Foram três noites onde o Ginásio de esportes Dr. Ruy Coelho Gonçalves (Coelhão) esteve lotado, vibrante e participativo. Nunca mais a Reculuta da Canção Crioula saiu da memória e coração dos guaibenses e dos artistas gaúchos. Após a primeira Reculuta, ocorreram mais 18 edições que em alguns momentos foram intercaladas, sendo que nos anos que não houve o festival, todos lamentaram muito esse fato.
Após sete anos, a Reculuta ressurge através da linguagem virtual, adaptada as condições impostas pela pandemia do novo coronavírus. Por obra divina nossas emoções são imunes ao vírus e hoje, temos a alegria do retorno da XX Reculuta com toda a sua força cultural e afetiva, razão pela qual tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do município, através proposta feita pelo historiador e vereador João Bosco Ayala (PL 079/2019). O planejamento das ações para a XX edição, está sendo realizado pela Secretaria Municipal de Desporto Turismo e Cultura de Guaíba, tendo à frente a secretária Cláudia Mara Borges. O evento virtual ocorrerá de 20 a 22 de agosto deste ano, dentro da Semana do Patrimônio Histórico e Cultural de 2020.
Preparemo-nos para receber a Reculuta, como o grande artista e compositor, Telmo de Lima Freitas, escreveu em 1982:
- “Corre as varas da porteira, vem chegando a Reculuta!”
Meu coração já está aberto, só aguardando...
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