Já ouviram falar em Terno de Reis? Já tiveram a sorte de serem agraciados e visitados por um Terno de Reis?
Terno porque estamos falando de Belchior (ou Melchior), Baltasar e Gaspar, os reis que foram dar as boas-vindas ao menino Jesus seguindo a trilha da estrela de Belém.
Um Terno de Reis, tradição Portuguesa trazida por esses ao Brasil, ganhou força principalmente no Rio Grande do Sul por suas colônias serem de origem litorânea, fonte principal dessa cultura em Portugal.
Durante muitos anos essa tradição ficou relegada ao pitoresco, aos recônditos ermos lugares do nosso Rio Grande de São Pedro do Sul. Em 1960 o grande mestre e um fervoroso apaixonado pelas nossas tradições, J. C. Paixão Côrtes lançou um livro falando especificamente desse tema, Terno de Reis – Cantigas de Natal, resultado de suas pesquisas em incursões pelo interior do estado, esses interiores remotos e de difícil acesso nos dias de hoje, imagina na década de 50 e 60. Existe também o registro da famosa gravadora gaúcha “A Casa Electrica” de Severio Leonetti que em 1914 gravou um disco com temas relacionados aos ternos, os temas eram: Reis Camponeses e A Chegada dos Reis. Essa ação fez com que os temas virassem sucesso entre as famílias que possuíam gramofones à época, mesmo alguns não conhecendo a tradição dos Ternos de Reis.
No Terno de Reis a formação se dá por um grupo de músicos, cantadores e em alguns casos, porta estandartes, para com sua cantiga rimada visitarem as casas e agraciar a família com cânticos de fé, agradecendo o menino Jesus, nosso salvador, por seus ensinamentos, pedindo bênçãos a família que recebeu o terno.
Dom Barulho, esse elemento humano poli-cultural do Sul, tinha seu Terno de Reis e visitava famílias na época do Natal, lembro que, naquela época, como o transporte era difícil, íamos todos na caçamba de um caminhão, acomodados, para visitar os parentes do interior, geralmente na região da Serrinha, Terra Dura, Barão, Faxinal, pra mim que era criança, tudo era diversão, cantávamos a viagem toda, comíamos guloseimas que a avó e as tias preparavam e bebíamos chimarrão até chegar ao destino.
Os Ternos de Reis tem em sua formação o mestre, contramestres e os ajudantes, são os Reis Magos de Viola, Violão e Rabeca visitando seus vizinhos, parentes e aqueles que recebem as bênçãos das cantigas de coração aberto.
Em sua música e seus versos, geralmente poesias de quadras (quatro versos rimados) pedindo licença ao dono da casa para serem recebidos e exaltarem o nascimento do Deus menino. A tradição dos Ternos de Reis espalhou-se no estado desde o século XVIII.
Com a contemporaneidade a gaita adentrou ao terno para ampliar a sonoridade do grupo, dando requintes as melodias.
A música geralmente tem um chote em sua introdução e depois um ralentado onde em forma quase chorosa os cantadores dirigem seus cânticos aos donos da casa, pedindo no primeiro verso, licença para adentrar o recinto:
“Agora mesmo cheguemo, na beira do seu terrero
Para tocá e cantá, licença peço premero...
Meu senhor, dono da casa, se escutar me ouvireis
Que dos lados do Oriente são chegados os Três Reis”
Meu avô, que se esforçava com sua gaitinha de botão pois era músico “de ouvido”, cantava com um jeito lamentoso e arrastado, por sorte tinha o Fernando do Gringo, a vó Judith e os outros cantadores que davam um ar cerimonioso ao cantar daqueles Reis simples, mas cheios de boas intenções em seus cânticos.
Já escrevi esse próximo trecho, mas não me canso em repetir, Paixão Cortes já dizia em seu livreto publicado em 2000 “Tirando Reses” que o movimento tradicionalista não pode ficar alheio às FESTAS DE NATAL DO RIO GRANDE DO SUL, se não quiser fugir a uma de suas principais finalidades, a de preservação do culto de uma das mais puras tradições rurais: O PRESÉPIO E AS FESTAS DE REIS.
Está aí mais um ponto de oportunidade para os CTGs (Centro de Tradições Gaúchas), resgatar e mostrar para a comunidade, a tradição gaúcha dos festejos natalinos. Afinal, nosso movimento tradicionalista gaúcho não é feito somente da dança, ainda que ela seja a mais vista e contemplada, pela sua alegria, leveza e representatividade, somos mais amplos.
Os responsáveis pelas entidades tradicionalistas precisam estar mais atentos neste ponto, pois senão aos poucos vai se findando... Que tal, mais abertura para uma rodada junto a patronagem e integrantes como um todo, sobre o calendário anual do CTG? Será que por vezes, entramos no modo automático e só vamos repetindo o de sempre? Pode ser, que sim!! É confortável ficarmos em nossa zona de conforto, do que já está pronto ou aquela antiga frase: “Sempre foi assim!”.
Gerar engajamento e motivação junto ao quadro social e a comunidade ao redor é seguir cultuando a tradição gaúcha, que não está somente em usarmos nossos belos trajes, mas também em atitudes e ações.
Como cantava meu avô e seu terno, me despeço com carinho e rogando para que os Reis levem para todas suas bênçãos de amor, afeto e fraternidade:
“Senhora dona da casa, agradeço a gentileza
Santos Reis que abençoem a sua sagrada mesa
Pela oferta que nos deu, ficamos agradecidos
Na mesma hora que deu, lá no céu foi recebido
Eu agradeço o vinho, que vós nos ofertou
Eis o sangue do divino que Jesus abençoou
Vamos dar a despedida, como deu Cristo em Belém
Esse terno se despede, até o ano que vem”
“Que o maior presente entre as pessoas, sejam a bondade e o amor fraterno!”
Mário Terres e Tainara Moraga
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